A conta dos Estaduais não fecha mais
O laboratório acabou em 17 dias e o planejamento virou crise
Newsletter Meiocampo #110 — 23 de janeiro de 2026
A temporada de 2026 começa com um choque de realidade: em apenas 17 dias, a tentativa de usar os estaduais como laboratório colidiu com o início antecipado do Brasileirão, criando a primeira grande crise de planejamento do ano. Além disso, trazemos a transferência surpreendente de Ter Stegen para o Girona e o grave escândalo envolvendo jogadores do Alianza Lima. Para fechar, nosso podcast aprofunda trata sobre as últimas rodadas da Champions League e o mercado de transferências. Boa leitura.
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A TV paga pelo show, mas o calendário exige o treino: a conta dos estaduais não fecha mais
Sem datas para pré-temporada e com o Brasileirão batendo à porta, clubes ficam encurralados entre cumprir regulamentos milionários ou evitar o colapso físico do elenco
Por Felipe Lobo
É apenas 23 de janeiro de 2026, mas a pressão sobre os grandes clubes já é de fim de temporada. O que deveria ser um período de testes transformou-se, em menos de três semanas, em pânico. O Flamengo precisou vencer o Vasco por 1 a 0 na quarta-feira (21) para afastar um risco matemático de eliminação precoce, mas o triunfo no clássico matou definitivamente o planejamento de pré-temporada.
O Campeonato Brasileiro começa no dia 28 de janeiro, fruto da mudança de calendário imposta pela CBF para acomodar a pausa da Copa do Mundo. A teoria dizia que, por causa desse início precoce, os estaduais seriam deixados de lado, usados como laboratório para a base. A prática provou que o futebol brasileiro vive um limbo perigoso: o calendário avançou para o futuro, mas a mentalidade (e os contratos) ficaram no passado.
O colapso do laboratório é explicado pelo choque entre a necessidade esportiva e a realidade comercial. Historicamente, o Estadual deveria caminhar para ser o que a Copa Paulista já é: um torneio de desenvolvimento, onde clubes grandes usam times B ou Sub-20 em um ambiente competitivo, enquanto os pequenos jogam a vida. Seria o cenário ideal para revelar talentos. Mas a transição feita de forma abrupta esbarrou nos interesses de quem paga a conta. As emissoras de TV compraram um produto premium, não um torneio de base. Daí nascem regulamentos como o da FERJ.
No Rio, a federação mantém a obrigatoriedade de titulares após a terceira rodada. A benevolência de permitir reservas durou pouco. A quarta rodada, quando a força máxima se torna obrigatória, começa neste sábado (24). A estreia na Série A é quatro dias depois. O regulamento obriga o clube a entregar o produto premium no Estadual justamente quando ele precisa focar no campeonato nacional.
A questão financeira agrava esse cenário de indecisão. O Campeonato Carioca paga um valor razoável — superior à realidade de outros estados, mas incomparável à potência financeira do Paulistão, que sozinho sustenta folhas salariais inteiras. No Rio, a cota é boa o suficiente para não ser desprezada, mas insuficiente para justificar o risco de lesionar titulares antes do Brasileirão. O clube fica refém: não pode largar o osso, mas se morder com força, quebra o dente.
Clubes como Athletico Paranaense e Botafogo já tentaram tratar o estadual como laboratório no passado, mas foram exceções. A regra geral ainda é o medo de crises institucionais geradas por resultados ruins em janeiro.
O mais grave é que 2026 não parece ser um ponto fora da curva. Com Copa do Mundo Feminina em 2027, Copa América em 2028, Mundial de Clubes em 2029 e outra Copa do Mundo em 2030, o calendário apertado veio para ficar. O Brasileirão começando no início do ano tende a ser o novo normal.
Enquanto regulamentos e cotas de TV não entenderem que o papel do Estadual mudou, continuaremos vendo times principais desgastados em fevereiro e laboratórios que duram apenas até a primeira vaia da torcida e o risco de rebaixamento pairar.
Giro
Por Bruno Bonsanti
- A vitória do Bodo/Glimt sobre o Manchester City foi obviamente uma surpresa. E ainda assim, pouco chocante. O pequeno clube do norte da Noruega, em uma cidade com 40 mil habitantes que tem luz do sol por cerca de 56 minutos em dezembro, está entre os mais bem geridos da Europa desde que se colocou no mapa com seu primeiro título nacional em 2020. Conquistou mais três e colecionou algumas vitórias graúdas no continente antes desta semana: tem um 6 a 1 sobre a Roma, ganhou do Porto e do Besiktas, eliminou Celtic e Lazio. Foi quadrifinalista da Conference League e semifinalista da Liga Europa ainda na temporada passada. Sempre atuando em uma lógica de Davi contra Golias, embora nunca tanto quanto quando enfrentou um dos times mais ricos do mundo. O orçamento anual do Bodo/Glimt mal paga três meses do salário de Haaland.
- Ao longo da sua carreira, Guardiola teve times dominantes (a maior parte do tempo) e outros em claros momentos de transição. É interessante como o atual parece estar no meio do caminho. A temporada de transição foi a anterior e, ainda na briga por todos os títulos, este time é bom demais para entrar nessa categoria. Ainda assim, está longe de ser dominante ou avassalador como seus predecessores. Oscila, sofre quando jogadores como Haaland e Phil Foden não estão voando, parece depender mais de individualidades do que do sistema. Talvez Guardiola tenha, pela primeira vez, montado apenas um bom time.
- As primeiras semanas de 2026 têm sido estranhas para o PSG. Foi aos pênaltis com o Olympique de Marselha na Supercopa, perdeu para o Paris FC pela primeira vez na história, foi eliminado precocemente da Copa da França e foi derrotado pelo Sporting na Champions League. Nós passamos os últimos meses esperando que recuperasse aquele nível avassalador que lhe rendeu a Tríplice Coroa, entendendo que a maratona de jogos cobrou um preço físico e mental, mas isso ainda não aconteceu. E não é que o tempo está acabando, mas não tem tanto assim sobrando.
- Após sete rodadas, há cinco ingleses entre os oito primeiros colocados da Champions League. O Arsenal, com 100% de aproveitamento, está garantido nas oitavas de final, ao lado do Bayern de Munique. As outras vagas estão abertas porque há apenas três pontos entre o terceiro colocado Real Madrid (15) e o a 15ª, a Juventus (12). A diferença pode ser os adversários. O Liverpool, por exemplo, fecha sua campanha em casa contra o Qarabag, e o Tottenham enfrentará o já eliminado Eintracht Frankfurt, enquanto Real Madrid (Benfica), PSG (Newcastle) e Chelsea (Napoli) têm adversários mais complicados. O Napoli, atual campeão italiano, é a maior potência que pode ficar do mata-mata como um todo. Está atualmente na 25ª posição, empatado em oito pontos com outros quatro times.
- Entre os que estão eliminados ou fora da zona de classificação, destaque para o Villarreal. O Submarino Amarelo faz uma ótima campanha em La Liga. Está em terceiro com um jogo a menos e chegou a ameaçar a segunda colocação do Real Madrid. Na Champions League, porém, faz uma campanha péssima. Talvez porque não tenha conseguido pegar embalo com adversários difíceis (Tottenham, Juventus e Manchester City) nas primeiras três rodadas. Depois perdeu do Pafos e levou a virada de um Ajax cheio de problemas aos 44 minutos do segundo tempo. O Eintracht Frankfurt ocupou a vaga do RB Leipzig de clube-alemão-relevante-que-foi-mal-na-Champions e o Benfica precisava de dois truques de José Mourinho nas últimas rodadas para ter uma chance melhor. Não conseguiu o primeiro. O segundo terá que ser contra o Real Madrid.
- A Liga Europa também tem apenas dois classificados às oitavas de final, mas a sua tabela não está tão próxima. O Freiburg está quase lá, embora feche sua campanha com uma visita difícil ao Lille. Há apenas três times (Porto, Genk e Estrela Vermelha) fora do top 8 que podem alcançar Midtjylland (4º) e Braga (5º). A briga está mais concentrada nas outras três vagas. O Bologna, com 12 pontos e em 15º lugar, ainda pode teoricamente alcançar a Roma, em sexto com 15. Fora da zona de playoffs, Feyenoord e Red Bull Salzburg precisam de alguns resultados a favor para conseguirem tirar dois pontos para o Celtic e três para Young Boys, Brann e Lille na última rodada. E ambos têm jogos fora de casa bem difíceis: os holandeses enfrentam o Betis na Espanha e os austríacos visitarão o vice-líder Aston Villa em Birmingham.
- O Manchester United decidiu não exercer a cláusula de extensão do contrato de Casemiro por mais uma temporada. Quer abrir espaço na folha salarial para rejuvenescer o seu meio-campo e, talvez, se sobrar alguma coisa, voltar a oferecer comida para os seus funcionários. O volante brasileiro passou quatro temporadas em Old Trafford. Em alguns momentos, pareceu capaz de elevar os companheiros com o seu espírito competitivo e currículo vencedor. Em outros, dava até para esquecer que ele ainda estava jogando futebol profissionalmente. Fez alguns gols importantes, principalmente o primeiro da final da Copa da Liga contra o Newcastle, um dos dois títulos que conquistou vestindo vermelho. Aos 33 anos, nada indica que se aposentará. Se algum clube brasileiro conseguir convencê-lo a recusar propostas que provavelmente virão da Major League Soccer ou da Arábia Saudita, conseguirá um excepcional reforço.
- Eu nunca entendi por que parte da torcida do Barcelona havia declarado guerra a Ter Stegen. Eu o considero um dos melhores goleiros do mundo. Provavelmente havia motivos porque a diretoria seguiu a mesma linha ao contratar Joan García para ser titular. A porta para isso foi aberta pelo excesso de lesões do goleiro alemão, o novo jogador do Girona. A transferência por empréstimo faz sentido: Ter Stegen não precisará nem deixar a Catalunha e deve encontrar tempo de jogo para chegar em forma à Copa do Mundo. Isso com certeza não aconteceria no Barcelona, pelo qual ele atuou apenas uma vez nesta temporada, mesmo depois de se recuperar do mais recente problema físico.
- O Alianza Lima afastou Miguel Trauco, Carlos Ambrano e Sergio Peña, após uma mulher argentina de 22 anos ter os acusado de abuso sexual, segundo o veículo argentino A24. O caso teria ocorrido em um hotel em Montevidéu durante a pré-temporada em janeiro. Eles estão proibidos de participar de qualquer atividade oficial do clube, que prometeu cooperar com as autoridades e aguarda as investigações para tomar medidas definitivas. Uma decisão correta, mas o clima seguiu piorando. Nesta quinta-feira, torcedores do Alianza Lima invadiram o treinamento para protestar contra os três afastados, segundo o jornal peruano La Republica, e, no meio da confusão, agrediram os veteranos Paolo Guerrero e Luis Advíncula.
- Dzeko deixa a Fiorentina e, aos 39 anos, vai para o Schalke 04. Talvez você não lembrasse que o Dzeko estava na Fiorentina, porque foram apenas 18 jogos desde que ele chegou, em outubro, com dois gols. Ele vai para o Schalke 04, vestirá a camisa 10 (que ele usou no Manchester City também) com a missão de levar a equipe de volta à Bundesliga, já que os Azuis Reais lideram a segunda divisão. Também ganhará mais minutos em campo para se preparar para a repescagem. A Bósnia enfrenta Gales em março (Felipe Lobo).
- Novo estádio da Roma projetado para ter 60 mil lugares. A Roma protocolou junto à prefeitura de Roma para ter o seu novo estádio em Pietralata, a cerca de 11 quilômetros do atual estádio olímpico. O custo total do estádio e das obras no entorno será de €1.377 bilhão, com início das obras em 2027 e previsão de término em 2031. O clube estima que terá uma receita anual do estádio de €153,6 milhões no primeiro ano (Felipe Lobo).
PODCAST MEIOCAMPO #200
O Arsenal se mantém na ponta da Champions League, com 100% de aproveitamento e com cada vez mais opções no elenco, incluindo Gabriel Jesus, autor de dois gols contra a Inter. Os ingleses dominam a competição, com quatro times entre os oito primeiros. E ainda: quem decepcionou até aqui e o equilíbrio para a última rodada. Por fim, passamos pelo mercado de transferências e falamos sobre como o novo calendário tende a redimensionar o estadual. Tudo isso na edição #200 do nosso podcast!
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Faz todo o sentido. Flamengo, São Paulo e Cruzeiro perigam ficar de fora das fases decisivas dos estaduais.
o chelsea deixar o ter stegen passar é loucura… sobre os estaduais: inacreditável times com 3/4 dias de treino indo jogar partidas que valem 3 pontos em competição de tiro curto