A Espanha da Copa não é a da Eurocopa
Merino decide de novo pela Espanha, mas o problema é a falta de Yamal e Nico Williams em campo
Newsletter Meiocampo #177 — 11 de julho de 2026
A Espanha está cumprindo tabela. Chegou à semifinal como se esperava, bateu a Bélgica por 2 a 1 e vai enfrentar a França, mas o nível de jogo está longe do que a seleção mostrou na conquista da Eurocopa. A explicação não está na tática de Luis de la Fuente — está na fisiologia de Lamine Yamal e Nico Williams, os dois nomes que resolveram o problema crônico de gols da Roja e que seguem em campo sem estar inteiros. Sem eles no auge, quem decide de novo é Mikel Merino, saindo do banco como fez contra Portugal. É a Espanha que entrega o resultado, mas não o futebol.
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Espanha bate a Bélgica, mas ainda não jogou o que sabe fazer
Por Felipe Lobo
A Espanha cumpriu o que se esperava dela — chegar à semifinal, o que não é pouco — mas não jogou o futebol que já mostrou ser capaz de jogar. É uma contradição só na aparência: o resultado bateu com o prognóstico, a atuação não. Contra a Bélgica, a Roja voltou a esbarrar em um problema que parecia superado desde a Eurocopa — a dificuldade de converter posse em gol —, e a explicação não é tática, é física.
Lamine Yamal e Nico Williams, os dois responsáveis pela verticalidade que tirou a Espanha do modelo careca de gols que ela vinha carregando havia anos, ainda não estão inteiros. Sem eles no auge, a seleção volta a se parecer com a versão de si mesma que existia antes dos dois aparecerem: dominante, paciente, e sem faca para cortar.
O sintoma mais claro desse recuo é o próprio Mikel Merino decidindo de novo. Contra Portugal, ele resolveu do banco. Contra a Bélgica, resolveu de novo — outra vez vindo do banco, converteu como um camisa 9 de ocasião, repetindo o papel que já exercia no Arsenal na temporada 2024/25, quando Mikel Arteta o usava como centroavante de emergência para um time sem artilheiro. Uma seleção que chega à semifinal de uma Copa recorrendo à mesma solução emprestada que um clube usa quando não tem opção não está jogando no seu teto.
A Espanha superou a Bélgica por 2 a 1, em jogo mais equilibrado do que o retrospecto recente entre as duas sugeria — sobretudo pelo que os belgas tinham mostrado até ali: pouco futebol até a vitória avassaladora por 4 a 1 sobre os anfitriões Estados Unidos, que levou a Bélgica às quartas com méritos, e da qual Rudi Garcia aproveitou soluções para o jogo seguinte.
A Bélgica teve uma mudança de última hora: Youri Tielemans se machucou no aquecimento e foi cortado, dando lugar a Hans Vanaken no meio-campo. Kevin De Bruyne, que já estava escalado como titular de volta ao time após ficar no banco contra os americanos, era uma novidade. Jérémy Doku retornou ao ataque no lugar de Dodi Lukebakio; Charles De Ketelaere seguiu como referência ofensiva. Romelu Lukaku continuou no banco.
Os espanhóis dominaram a posse, como de costume, mas os números contam só parte do jogo: não foram muitas as chances criadas. O primeiro gol nasceu de uma falha rara de Thibaut Courtois, goleiro habitualmente impecável. Lamine Yamal tabelou com Pedro Porro, que foi até a linha de fundo e cruzou; Dani Olmo bateu, Courtois espalmou, e Fabian Ruiz completou o rebote. O camisa 8 é um caso à parte na equipe: entrou no lugar de Pedri, que faz uma Copa apagada e perdeu a posição justo na reta decisiva.
Fabian Ruiz formou dupla com Rodri, mas se juntando muito aos homens de frente. Na prática, a Espanha joga com um losango: Rodri na base, Fabian Ruiz mais à esquerda, Dani Olmo mais à direita e Mikel Oyarzabal na ponta mais ofensiva. Alex Baena, escalado como ponta-esquerda, caía muito pelo meio e funcionava como atacante quase centralizado, enquanto Yamal ficava mais à frente pelo lado direito, sem se abrir tanto quanto a posição de origem sugeriria.
A Bélgica se postou bem. Sabendo que teria menos bola, a equipe fechou os espaços pelo meio, e foi justamente por ali que chegou ao gol: De Bruyne abriu na direita, Timothy Castagne cruzou e De Ketelaere, antecipando-se à defesa, cabeceou para o primeiro gol sofrido pela Espanha na Copa. Um empate surpreendente até aquele momento do jogo.
O segundo tempo manteve o roteiro: a Espanha seguiu com seus passes e sua paciência contra uma Bélgica que recuava cada vez mais, sem fôlego para ameaçar. Os espanhóis chutaram bastante, sem perigo real — outro sintoma da falta de pontaria que persegue o time neste Mundial. O ponto de virada veio com a saída de Courtois, machucado: ele deixou o gramado aos 71 minutos, substituído por Senne Lammens, goleiro do Manchester United, que teria papel decisivo do jeito que menos gostaria.
A Espanha insistia, chutava, e Lammens respondia, atento. Até que Pau Cubarsí arriscou de fora da área, um chute sem grande ameaça, e o goleiro belga soltou o rebote nos pés de Merino, que tinha entrado dois minutos antes no lugar de Dani Olmo. Ele marcou de novo — como contra Portugal, o gol que definiu a classificação.
A eliminação da Bélgica é menos uma despedida emotiva do que uma marcação de tempo. O normal é a Bélgica ter o time que tem agora: uma seleção mediana, competente, sem estrela para além de Doku. A geração que se despede nesta Copa — De Bruyne, Courtois, Lukaku — nunca foi normal: era a que sonhava com título, e o título nunca veio, nem de Euro, nem de Mundial.
De Bruyne talvez tenha jogado sua última partida de Copa sem saber ao certo que era a última, porque a Bélgica sempre acreditou que iria mais longe. A frustração dessa geração não é ter perdido nas quartas — é ter tido talento para muito mais e nunca ter erguido nada. Mesmo assim, marcou época e certamente será lembrada, como aquela Bélgica dos anos 1980 também é.
A Espanha cumpre seu papel ao chegar à semifinal, mas chega num patamar diferente do que tinha antes do torneio em relação à França. Os franceses aumentaram o favoritismo; os espanhóis, o reduziram. A Roja jogou menos do que se esperava, com Yamal ainda longe do futebol de que nos acostumamos. Nico Williams segue em recuperação: entrou apenas no fim, sem muito impacto. Os dois se recuperam de lesão e ainda estão longe do seu melhor — e é exatamente essa ausência que devolve à Espanha os velhos problemas que Yamal e Nico tinham resolvido.
Merino segue sendo competente, mas uma seleção que chega à semifinal de Copa contando com um meio-campista fazendo as vezes de artilheiro não resolveu o que precisava resolver. Se a Espanha recuperar Nico Williams a tempo, talvez consiga o que lhe falta hoje: converter chances. Vai precisar disso — e de tudo o mais — contra uma França mortal em contra-ataques, que vai testar a defesa espanhola como o melhor ataque da Copa. Tem tudo para ser uma semifinal épica em Dallas.
Boletim da Copa
Por Bruno Bonsanti
- Foi simbólico que a vitória que marcou a campanha da Bélgica na Copa do Mundo foi exatamente a que mais sinalizou a passagem de bastão. Para igualar a energia dos americanos, Rudi Garcia deixou Kevin de Bruyne e Romelu Lukaku no banco de reservas, e também Jérémy Doku, que não esteve nem perto do seu melhor na América do Norte, e goleou os EUA por 4 a 1. E talvez também tenha sido simbólico, agora para o outro lado, que a eliminação para a Espanha tenha sido influenciada pela troca do lendário Thibaut Courtois pelo ainda promissor Senne Lammens. Dois momentos que ilustram ao mesmo tempo que a seleção tem futuro, mas que ele talvez não seja tão glorioso quanto os últimos dez anos. Aquele jogo contra os co-anfitriões elevou a participação da Bélgica, que até então era bem sem sal. Combinado com a determinação que foi exibida para travar os espanhóis até o fim, os resquícios da sua famosa ótima geração se despediram da Copa do Mundo de cabeça erguida.
- Thibaut Courtois explicou o que motivou a sua substituição. Ele sentiu uma pontada na perna quando deu um lançamento, nada sério, mas sentiu uma ainda mais forte quando repetiu o movimento. Na sua opinião, poderia ter continuado em campo porque estava defendendo chutes normalmente, mas o técnico Rudi Garcia preferiu trocá-lo por Senne Lammens, que acabou falhando no gol decisivo marcado por Mikel Merino. Chamou um pouco a atenção quantas vezes Courtois disse que a decisão foi do técnico: “Eu queria continuar, mas o técnico queria alguém 100%, então tudo bem, essa é a decisão dele. Eu queria tentar jogar talvez mais cinco ou dez minutos porque eu estava fazendo as defesas, não sentia nenhum incômodo para fazer as defesas. Só sentia incômodo para chutar para longe. Então, essa foi a decisão do técnico e não há problema nisso”. Garcia afirmou que, na idade de Courtois (34 anos), é essencial estar “a 100% de capacidade”, senão “pode ser problemático”.
- A seleção portuguesa tem um novo técnico. E para a surpresa de ninguém, será Jorge Jesus, que estava sendo fortemente especulado. O profissional de 71 anos tem a cancha necessária para tentar dar um choquezinho em um grupo talentoso que decepcionou na Copa do Mundo, apesar de ter tido sucesso apenas na Arábia Saudita desde que deixou o Flamengo. Lógico que grande parte da sua entrevista de apresentação girou em torno dos seus planos para Cristiano Ronaldo, que esteve com ele no Al-Nassr na última temporada. Com décadas de experiência, não foi definitivo em nenhuma resposta, embora em uma delas tenha aproveitado para cutucar Neymar ao tentar demonstrar que não tem hesitação em barrar jogadores desse tamanho. “Já treinei dois dos três melhores jogadores do mundo, falta-me o terceiro, que é o Messi. Treinei o Neymar e treinei o Ronaldo. Ao Neymar, um dia eu disse assim: ‘Tu, Finish’ (Você acabou), ok? O que eu achar melhor para a equipe e para a seleção, assim será feito”, disse, sem tentar antecipar o que ele acha que isso pode ser. Foi bastante elogioso sobre a participação de Ronaldo pelo Al-Nassr. “Trabalhou um ano comigo e não teve uma lesão. Fazia 8 kms por jogo, com velocidade acima dos 25 kms/h. Quando achava que ele tinha que jogar, ele jogava. O Al-Nassr fez 50 jogos no ano passado, ele disputou 31”, acrescentou. Ronaldo confirmou que não disputará outra Copa do Mundo, mas ainda não detalhou o que pretende fazer sobre a seleção como um todo.
- “Tentamos tudo o que podíamos para que ele voltasse, mas, infelizmente, ele não poderá jogar”. Foi assim que o técnico da Suíça, Murat Yakin, confirmou que Johan Manzambi não enfrentará a Argentina. Talvez seja o desfalque mais consequente das quartas de final porque o garoto do Freiburg possui todos os recursos para aproveitar os espaços que a atual campeã tem deixado em sua recomposição defensiva. De qualquer maneira, a experiência da seleção suíça ainda testará se o técnico Lionel Scaloni conseguiu fazer os ajustes necessários após dois épicos nas fases anteriores do mata-mata.
- Depois de sustos, o técnico Thomas Tuchel afirmou que tem todos os jogadores à disposição para enfrentar a Noruega. Menos o suspenso Jarell Quansah e o infeliz Jordan Henderson. É uma notícia importante porque Marc Guéhi e Reece James não treinaram na última quinta-feira. Suas ausências deixariam a defesa inglesa ainda mais desfalcada do que já está. É quase impossível prever quem começará jogando na lateral direita. O volante Declan Rice também foi ausência nas atividades de quinta-feira, mas voltou aos treinos, ao lado de Guéhi e James, e vai para o jogo.
- Além de um famoso influenciador, o goleiro Vozinha agora também é nome de um molusco. Exatamente o que você leu. A culpa é do biólogo Jesús Ortea, que descobriu uma nova espécie de molusco marinho e decidiu batizá-lo em homenagem ao herói de Cabo Verde. O molusco, agora chamado de Aldisa vozinha, é vermelho, e a atuação que colocou Vozinha no mapa foi contra a Espanha, que usa uniforme vermelho. Entendeu? Professor emérito da Universidade de Oviedo, Ortea trabalhou bastante na região do arquipélago de Cabo Verde e chegou a receber a Medalha de Mérito do país em 2023. Também não foi a primeira vez que usou o futebol como fonte para nomear suas descobertas. Ele tem espécies marinhas em homenagem a Keylor Navas e a Quini, ex-atacante de Sporting Gijón, Barcelona e da seleção espanhola.
PODCAST MEIOCAMPO #247
A Copa do Mundo chega nos oito melhores, depois de oitavas de final com muitas histórias. Lembramos quais foram as melhores histórias desta fase e nos preparamos para as quartas, com os oito melhores. E esta edição foi especial, com a participação de Leandro Stein.
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Até a próxima!






