A Uefa e o Real Madrid descobriram que é mais seguro dormir com o inimigo
No novo pacto do futebol europeu, a única cadeira vazia é a do torcedor
Newsletter Meiocampo #117 — 13 de fevereiro de 2026
Esta foi uma semana histórica nos bastidores de Nyon, com o fim formal da Superliga e uma mudança sísmica na governança da Uefa. Mas, como sempre, aqui no Meiocampo nós olhamos para as letras miúdas. Na edição de hoje, falamos sobre a rendição tática do Real Madrid e a manobra da Uefa ao trazer os sindicatos para a mesa — mas deixa o principal de fora. Para completar, no nosso Giro, a dança das cadeiras na Premier League e o destino surpreendente de Raheem Sterling. Acomode-se e boa leitura!
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A Uefa e o Real Madrid descobriram que é mais seguro dormir com o inimigo
Por Felipe Lobo
Há um velho ditado que ensina: “se não pode vencê-los, junte-se a eles”. Nesta semana, o futebol europeu provou que essa máxima é uma via de mão dupla. De um lado, o Real Madrid percebeu que a guerra externa da Superliga estava perdida e decidiu voltar para a tenda da Uefa — não como súdito, mas para tentar mandar na casa por dentro. Do outro, a Uefa percebeu que não conseguiria mais justificar sozinha o calendário insano que sustenta seus lucros, então trouxe a FIFPro para a mesa.
Parecem movimentos opostos, mas a lógica é a mesma: tanto o clube mais poderoso do mundo quanto a entidade que o regula decidiram que é mais seguro ter seus antagonistas dormindo ao lado do que gritando do lado de fora. O Real Madrid busca o dinheiro; a Uefa busca o álibi.
A Uefa sofreu sua maior tentativa de golpe em 2021. A iniciativa dos 12 clubes rebeldes ruiu em questão de dias, derrubada não por advogados, mas pela fúria das arquibancadas — especialmente na Inglaterra. Os protestos foram imensos (e jamais esqueceremos da faixa “We want our cold nights in Stoke”, que virou até camiseta nossa. Aliás, quem sabe vire de novo com a nova marca? Se vocês quiserem, comentem aqui).
O colapso da Superliga foi uma vitória da Uefa, mas serviu de alerta. O Real Madrid foi o último a desistir, mas deu trabalho, arrancando da Justiça Europeia o reconhecimento de que a Uefa não detém o monopólio da organização de campeonatos. Foi uma vitória jurídica de Pirro: o tribunal disse que eles podem criar outro torneio, mas a Uefa manteve a prerrogativa de proteger seu próprio ecossistema comercial e excluir os participantes das suas competições.
Apesar da vitória política, Aleksander Ceferin sabe que não pode relaxar. As ideias da Superliga não morreram; elas foram absorvidas. O Real Madrid volta agora para a EFC (a antiga ECA), sentando-se novamente à mesa onde se divide o bolo. E não é força de expressão: vale lembrar que a Uefa se uniu aos clubes para criar uma joint venture que organiza as competições comerciais. Florentino Pérez não volta como convidado, mas como sócio da empresa que decide o futuro da Champions.
Não é coincidência que o novo formato da Champions League — essa “fase de liga” inchada inspirada no modelo suíço — seja exatamente o que os superliguers queriam: mais jogos entre gigantes, mais datas ocupadas e mais receita. A Superliga morreu no papel porque seu espírito já havia possuído o corpo da Uefa.
É aqui que entra a genialidade cínica da aproximação com a FIFPro.
Esse plano de negócios vitorioso (mais jogos, mais dinheiro) gera um efeito colateral brutal: a destruição física dos atletas. O calendário inchado afeta diretamente a mão de obra. Ao trazer o sindicato para dentro do Comitê Executivo, a Uefa não está apenas sendo inclusiva; ela está comprando uma apólice de seguro.
Quando houver uma nova tentativa de cisão, ou quando as lesões explodirem, a Uefa poderá dizer: “Nós decidimos isso junto com os representantes dos trabalhadores”.
A próxima decisão de inchar o calendário terá as impressões digitais dos jogadores. Eles ganham voz, mas perdem o direito moral de reclamar publicamente, já que agora fazem parte da diretoria. Podem tentar impedir abusos por dentro? Talvez. Mas o histórico mostra que, no futebol, quem senta à mesa do banquete raramente vira a mesa. O cálculo político da Uefa é claro: dividir a responsabilidade é o melhor jeito de perpetuar o poder.
Tudo isso soa muito moderno: clubes sócios da gestão, jogadores com poder de voto... O problema é quem ficou de fora.
A Superliga era uma aberração que atacava o mérito esportivo, um princípio sagrado. E, embora os jogadores sejam vitais para a engrenagem, quem de fato matou a Superliga foram os torcedores. Foram eles que tomaram as ruas, invadiram estádios e pressionaram governos (como o do Reino Unido, que criou um órgão fiscalizador independente justamente por causa disso).
Se a Uefa quisesse criar uma barreira moral real contra a ganância da Superliga, teria chamado a Football Supporters Europe (FSE) para votar. A presença da torcida no Comitê Executivo impediria com muito mais força novas aventuras elitistas. O problema é que torcedores também votariam contra as ideias ruins da própria Uefa — como finais em outros continentes ou ingressos a preços abusivos. E isso, para os negócios, é perigoso demais.
A entrada da FIFPro é uma democratização, sim, mas apenas para quem faz parte da cadeia produtiva financeira. O torcedor, a parte mais interessada e apaixonada, continua sendo tratado apenas como o pagador de impostos dessa nação chamada futebol.
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GIRO
Por Bruno Bonsanti
- O começo do trabalho de Thomas Frank no Tottenham foi promissor. Conseguiu ser competitivo contra o PSG na Supercopa da Uefa e venceu o Manchester City. As coisas, porém, degringolaram rapidamente. Frank teve problemas de lesão, como James Maddison e Dejan Kulusevski, dois dos mais talentosos jogadores do elenco que ainda não entraram em campo nesta temporada. Desfalques, porém, não são uma justificativa boa o bastante. Os resultados falam por si (duas vitórias em 17 rodadas da Premier League), mas o futebol praticado pelos Spurs é péssimo há cerca de três meses e a relação entre técnico e torcida nunca foi ótima. Era uma questão de descobrir se os cartolas do Tottenham tinham convicção de que, apesar de tudo, Frank merecia mais tempo. Aparentemente, a resposta é não.
- Michael Cox, colunista tático do The Athletic, fez um levantamento muito interessante. Observando os técnicos que fizeram o pulo do meio da tabela da Premier League para o Big Six (e para o Everton, sei lá) desde 2012, percebeu que existe uma correlação entre o índice de posse de bola em seus antigos clubes e a quantidade de jogos que eles conseguiram emplacar. Todos os que saíram com média inferior a 50%, incluindo Thomas Frank, mal conseguiram passar de 50 partidas após o salto para as potências. As exceções são David Moyes no Manchester United (2013), que acabou demitido antes do fim da temporada de qualquer jeito, Graham Potter no Chelsea, porque o Chelsea é uma bagunça, e Sean Dyche no Everton, que brigava contra o rebaixamento. Os técnicos mais longevos que fizeram essa movimentação foram Roberto Martínez (Everton, 2013), Brendan Rodgers (Liverpool 2012) e Mauricio Pochettino (Tottenham, 2014), que haviam conseguido sucesso em seus empregos anteriores com médias entre 55% e 60% de posse de bola. O ponto de Cox é que as táticas e os métodos que funcionam em clubes menores não se traduzem para a parte de cima da tabela, onde é muito mais difícil convencer torcedores, jornalistas e diretores a abraçar um estilo mais reativo, e nem todos os treinadores, poucos na verdade, conseguem mudar a sua filosofia.
- Um outro fator é que muitos dos treinadores bem sucedidos em clubes de meio de tabela tiveram tempo e respaldo para trabalhar e encontram cobranças por resultados imediatos assim que fazem a transição. Frank ficou sete anos no Brentford. O que é natural: a pressão em clubes grandes é um animal completamente diferente. Mas eles também precisam saber o que estão procurando e se tem alguém no mundo que não sabe é o Tottenham. Todos os perfis foram tentados desde a saída de Mauricio Pochettino, de medalhões como Conte e Mourinho a promissores como Nuno, Postecoglou e Frank, cada um com um estilo diferente (Nuno: reativo; Ange: ultra ofensivo; Frank: adaptável). Nenhum recebeu as condições para fazer o tipo de trabalho de médio prazo que consagrou Pochettino e quase todos apontaram para problemas estruturais: Mourinho mais de uma vez citou a fraqueza psicológica de seus jogadores para explicar tropeços, Conte, menos educado, disse que eles são egoístas e não têm coração, e Postecoglou acabou de denunciar que o Tottenham não se porta como um clube grande. O buraco é muito mais embaixo.
- Patrice Evra contou uma história ao Player’s Tribune, alguns anos atrás, sobre a preleção de Alex Ferguson antes da final da Champions League de 2008. O treinador entrou no vestiário e pegou todo mundo de surpresa: “Eu já venci. Não precisamos nem jogar.” Ferguson lembrou as dificuldades que a mãe do francês passou para colocar comida na mesa para ele e seus 24 irmãos e irmãs. Citou a origem sul-coreana de Park Ji-Sung e que Wayne Rooney cresceu nos bairros mais barra pesados de Liverpool. Em outra entrevista, Evra também lembrou menções a Carlos Tevez na periferia de Buenos Aires e Anderson nas favelas brasileiras. A vitória da qual Ferguson se orgulhava era ter conseguido unir pessoas de países, culturas, raças e religiões diferentes em torno de uma causa comum. “Ele estava se referindo a uma irmandade. Pelo futebol, havíamos nos tornado irmãos”, afirmou Evra. Então, na próxima vez que Jim Ratcliffe contratar um ex-jogador para resgatar o legado de Alex Ferguson, lembremos que ele não consegue entender a parte mais essencial.
- Cabia uma pequena ilha tropical na distância entre as linhas de defesa e ataque do Barcelona contra o Atlético de Madrid. Eu nem achei o meio-campo. Os colchoneros estavam bem preparados para dar os passes certos para superar uma pressão mambembe e lançar seus atacantes com espaço pelas pontas. Os últimos três gols saíram dessa maneira. Foram, também, mais eficientes do que o normal para converter as oportunidades criadas. Falamos isso várias vezes: Hansi Flick pratica um estilo extremamente arriscado que quase sempre sufoca os adversários, mas, quando ele dá errado, ele dá muito errado. Soma-se a isso a casca de Diego Simeone, que conseguiu encaixar um plano de jogo perfeito, à altura dos melhores momentos da sua carreira. O Atleti está próximo de chegar à sua primeira final de Copa do Rei desde 2014 e terá uma chance realista de quebrar um jejum de quatro temporadas sem título. No outro lado da chave, a Real Sociedad saiu na frente do Athletic Bilbao, com vitória por 1 a 0 no San Mamés.
- Em outras copas, o Como sobreviveu a uma disputa de pênaltis com oito cobranças para cada lado para eliminar o Napoli e chegar à semifinal da Copa Itália pela primeira vez após 40 anos. Terá a Internazionale pela frente, mas já é um feito bacana para marcar o excelente trabalho de Cesc Fàbregas, que também pode entregar classificação às competições europeias. Com apenas duas vitórias por todas as competições desde o começo de dezembro, o atual campeão Bologna caiu, também nos pênaltis, diante da Lazio, que enfrentará a Atalanta. A disputa de pênaltis número 3 saiu na Alemanha, onde o Freiburg eliminou o Hertha Berlim. O Bayern de Munique, que curiosamente não havia passado das quartas de final nas últimas cinco edições da DFB Pokal, superou o obstáculo teoricamente mais difícil que teria pela frente ao vencer o RB Leipzig por 2 a 0, gols de Harry Kane e Luis Díaz.
- O Manchester City passeou contra o Fulham, chegou ao intervalo vencendo por 3 a 0 e agradeceu ao Brentford pela oportunidade de diminuir a distância ao Arsenal para quatro pontos. O Arsenal teve uma finalização (de ombro) o primeiro tempo inteiro. As Abelhas, na sétima posição, fazem uma campanha impressionante depois de perder jogadores como Bryan Mbeumo e Yoane Wissa e o seu técnico (que por acaso foi demitido esta semana). Estão na briga por vaga em competições europeias e pode até ser a Champions League porque, com os tropeços de Manchester United e Chelsea, estão a apenas cinco pontos do quarto lugar. O Liverpool também aproveitou para ganhar terreno nessa briga, com uma apertada vitória por 1 a 0 sobre o Sunderland no Stadium of Light.
- Clubes em busca de treinadores podem esperar o fim da Copa do Mundo quando uma quantidade incomum de nomes importantes devem ficar livres no mercado. Thomas Tuchel, porém, não será um deles. Menos de um ano de trabalho foi o suficiente para convencer a Federação Inglesa a renovar o seu contrato até 2028, quando a Inglaterra sediará a Eurocopa, ao lado de Escócia, Gales e Irlanda. Tuchel cumpriu o único objetivo que teve até agora com nota 10, classificando-se à Copa do Mundo com 100% de aproveitamento, sem levar um único gol e goleando a Sérvia em Belgrado, mas ainda não foi muito testado. E segundo o The Athletic, se alguém tinha planos de trazer Carlo Ancelotti de volta ao futebol de clubes, pode tirar o cavalinho da chuva. Ele deve renovar com o Brasil até o Mundial de 2030.
- É até engraçado que Sean Dyche tenha sido demitido do Nottingham Forest depois de um jogo em que o seu time deu 35 finalizações, o que na época de Burnley eram suficientes para um mês inteiro. Mesmo com essa produção, não ter conseguido derrotar o lanterna Wolverhampton em casa foi a gota d’água, embora a fase nem fosse tão ruim: duas vitórias, três empates e uma derrota nas últimas seis rodadas. No entanto, Evangelos Marinakis deixou claro que não tem paciência e partirá para o seu quarto treinador na temporada. Um exemplo perfeito do que um clube de porte médio não deve fazer para aproveitar uma temporada em que teve resultados acima das expectativas. Parece que Vítor Pereira, que operou um milagrinho no próprio Wolverhampton a essa altura do ano passado, é o favorito para assumir o bicampeão europeu.
- A relação não estava muito boa entre os jogadores do Olympique Marseille e Roberto de Zerbi, com uma carreira que continua cheia de altos e baixos. Segundo o La Provence, constantes mudanças táticas e de escalações e a inflexibilidade do treinador aceleraram a deterioração do seu trabalho. A diretoria do Marseille decidiu fazer uma mudança para tentar salvar o restante da temporada, com o clube em quarto lugar na Ligue 1. Não foi tanto a quantidade de derrotas que derrubou De Zerbi quanto o peso delas, como o 3 a 0 para o Club Brugge, que os tirou da Champions League, e o passeio do PSG no último fim de semana.
- Não esperava por essa, mas, depois de meses de purgatório no Chelsea, Raheem Sterling jogará pelo Feyenoord até o fim desta temporada. Ele citou uma conversa com o técnico Robin Van Persie como um dos motivos que o levaram a decidir que a Holanda é o lugar mais adequado para tentar reerguer a sua carreira. “Estou confiante que posso ser um membro valioso do time”, disse. “Jogar no exterior é um desafio diferente para mim e estou pronto para encará-lo”. Sterling não disputa uma partida profissional desde a última rodada da Premier League da temporada passada, quando estava emprestado ao Arsenal. O Feyenoord não conseguiu classificação ao mata-mata da Liga Europa e ganhou apenas duas das últimas sete rodadas da Eredivisie. Está em segundo lugar a 17 (não é erro de digitação) pontos do líder PSV.
PODCAST MEIOCAMPO #206
O futebol europeu vive um cenário de terra arrasada para treinadores que tentaram o salto do médio escalão para o topo. De Thomas Frank, demitido de um Tottenham estagnado, a Roberto De Zerbi, cujo projeto no Marseille entrou em colapso, a temporada revela a fragilidade de reputações diante de expectativas desproporcionais e gestões caóticas. Neste episódio, discutimos o que aconteceu para esses treinadores não conseguirem o sucesso que era esperado. Passamos pela aula tática do Atlético de Madrid sobre o Barcelona na Copa do Rei, a briga acirrada pelo G4 na Premier League e o desfecho político que enterrou de vez a Superliga.
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Bom fim de semana!








Vamos pensar nessa camisa hein?
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