Arsenal campeão: o título que começou em 2019
Seis temporadas, duas decepções na reta final e uma diretoria que resistiu à pressão: o título do Arsenal não começou em agosto — começou em dezembro de 2019
Newsletter Meiocampo #143 — 22 de maio de 2026
O Arsenal é campeão inglês pela primeira vez em 22 anos. O título de Mikel Arteta encerra um ciclo que começou muito antes desta temporada — e é sobre esse processo falamos nesta edição. No Giro, passamos por mais um título de Unai Emery na Liga Europa e por convocações para a Copa do Mundo.
Vale lembrar: as edições de terça-feira e eventuais extras são exclusivas para assinantes. Às sextas-feiras, continua o conteúdo gratuito aberto ao público. Sugestões, críticas, elogios, quer só mandar um abraço: contato@meiocampo.net.
O processo venceu
O título do Arsenal em 2025/26 é, antes de tudo, a vitória de um processo. Não de um jogador, não de uma janela de transferências, não de uma temporada em particular — mas de um projeto construído em camadas, com paciência institucional que raramente se vê no futebol inglês. Mikel Arteta assumiu em dezembro de 2019 um clube em queda e levou seis anos para cruzar a linha de chegada. O que torna essa trajetória singular não é o talento do elenco, mas a consistência de quem o construiu — e de quem escolheu não demolir quando teria motivos de sobra para fazê-lo.
Desde a temporada 2022/23, o Arsenal soma 562 dias no topo da tabela da Premier League. Mais do que qualquer outro clube. Até agora, pouco tinha a mostrar por isso.
Arteta assumiu no dia 22 de dezembro de 2019. Terminou em oitavo naquela temporada, mas ganhou a Copa da Inglaterra. Na temporada seguinte, a primeira completa do treinador, também terminou em oitavo. Era preciso ter confiança no trabalho para mantê-lo naquele momento. E ele foi mantido.
Na temporada seguinte, 2021/22, o time esteve na zona de classificação para a Champions League durante a maior parte do campeonato, até derreter na reta final e perder a quarta vaga para o Tottenham — logo os Spurs — de Antonio Conte. Ali, mais uma vez, parecia um momento de ruptura. Mas ele foi mantido.
A temporada 2022/23 foi a primeira em que o Arsenal deu sinais de que poderia brigar pelo título. Os Gunners passaram boa parte da temporada na liderança, mas o Manchester City de Pep Guardiola os perseguiu e, na 30ª rodada, goleou por 4 a 1 e assumiu a ponta, para não perder mais. Veio mais uma vez a frustração.
O ano seguinte foi ainda mais cruel. O Arsenal liderava até a 35ª rodada, quando perdeu para o Manchester United e o City, que tinha jogos a menos, venceu ambos e assumiu a ponta. Era relativamente esperado, àquela altura, mas não torna menos frustrante. Mais uma vez, o time deixava a liderança na reta final da temporada.
Essas duas temporadas foram frustrantes, mas diferentes das anteriores. Ficava claro que havia um caminho e que o time era competitivo. Faltava pouco para cruzar a linha de chegada.
Esse processo, porém, não passa apenas por Arteta. Passa pela decisão dos Kroenke de mantê-lo quando havia pressão para mudança — e passa principalmente pela direção de futebol. Edu Gaspar chegou ao Arsenal no mesmo ano que Arteta, em 2019, e foi o arquiteto do elenco que hoje é campeão. Ele não apenas montou um time para o futuro, como se ouvia no discurso gasto da era Arsène Wenger, mas um time para o presente — jogadores que pudessem competir já e crescer juntos. Quando Edu saiu em outubro de 2024, Andrea Berta assumiu e manteve a lógica: as contratações desta temporada, de Gyökeres a Zubimendi, chegaram já dentro de um projeto coeso. Foram adições a um modelo que já funcionava.
Martín Zubimendi, Eberechi Eze, Viktor Gyökeres, Noni Madueke e Cristhian Mosquera reforçaram um elenco que já era bastante forte. E não foram reforços pontuais: todos entraram em campo de forma regular, com mais de mil e oitocentos minutos o que jogou menos. Todos entraram na rotação e foram importantes — alguns, titulares.
O título não teve um protagonista. Gyökeres não foi o fenômeno que era no Sporting, mas foi o artilheiro do time com 14 gols na liga — entregou o que o Arsenal precisava: gols de um centroavante de área quando a criatividade não aparecia. Declan Rice foi um dos melhores jogadores da Premier League, capaz de atuar como primeiro nome do meio-campo e de chegar à frente com a bola quando necessário. David Raya fez 19 jogos sem sofrer gols. Saliba e Gabriel formaram uma das melhores duplas de zaga do mundo. Trossard, Eze e Zubimendi cumpriram papéis que o elenco anterior não tinha condições de preencher. O protagonismo foi dividido — e isso não é casualidade. É o que o processo produz.
Martin Odegaard merece destaque à parte, porque representa um ponto de inflexão. O norueguês chegou em 2021 e marcou uma mudança de rota do clube. Tornou-se um dos melhores meias do mundo num lugar que lhe deu espaço — algo que o Real Madrid nunca havia feito. A virada de chave do Arsenal para um time que briga pelo título passa por Odegaard.
Foi uma conquista coletiva, com protagonismo dividido. E não dá para falar sobre o coletivo sem tocar no contestado estilo de jogo. O Arsenal explorou como ninguém a bola parada — e aqui entra o trabalho detalhado de Nicolas Jover.
Foram 28 gols de bola parada na Premier League, três a mais do que qualquer clube, sendo 18 deles em escanteios. É o novo recorde histórico da liga, superando os 16 do próprio Arsenal em 2023/24, do West Brom em 2016/17 e do Oldham Athletic em 1992/93.
Se olharmos todas as competições, são 35 gols de bola parada, mais do que qualquer clube nas cinco grandes ligas europeias nas últimas dez temporadas. Não é uma curiosidade: o Arsenal transformou isso em uma arma letal, especialmente na primeira metade da temporada.
O Arsenal se beneficiou da Premier League permitir um agarra-agarra na área que não vale em nenhum lugar do mundo, incluindo bloqueios aos goleiros que esbarram em falta — algo que o próprio Arsenal sofreu contra o West Ham, quando o adversário abusou disso ao cometer falta clara em cima de Raya, depois corretamente marcada.
É o tipo de coisa que acontece porque a Premier League habitualmente estica a corda com interpretações próprias da regra que fogem do que a maior parte do mundo faz.
Na segunda metade da temporada, com os adversários mais preparados para defender a bola parada, o Arsenal travou. Pareceu muito mais o time que lemos no relato de Nick Hornby em Febre de Bola do que o Arsenal de Arsène Wenger, em que o próprio Arteta jogou. Faltou criatividade, o time ficou travado e se apoiou na defesa durante a maior parte da temporada. São formas de ganhar.
O futebol é feito de modelos que encontram antídotos — e de antídotos que encontram novos modelos. Se Arteta não conseguia lutar com o Manchester City jogando o jogo deles, jogou outro. E venceu.
E venceu mesmo com um abril pavoroso, que colocou tudo a perder e fez parecer que o Arsenal entregaria o título de novo em um derretimento na reta final. O time se recuperou e contou com algo que não dá para descartar: o Manchester City desta temporada não é o tubarão implacável que vimos em edições anteriores.
Arteta sabe que o time tem problemas de criação e tentou resolvê-los ao longo da temporada. A responsabilidade pareceu pesar em muitos momentos, as lesões atrapalharam especialmente o ataque. A defesa forte e a bola parada foram suficientes para ganhar a Premier League. Para sustentar o nível na próxima temporada, especialmente com concorrentes se reconstruindo, precisarão ser mais.
Arteta gravou o nome na história. Mas o que este título faz ao Arsenal vai além do troféu. O clube carregava há três temporadas a etiqueta do time que entrega, que chega perto mas não aguenta a pressão final. Essa etiqueta é mais difícil de tirar do que parece — ela afeta contratações, afeta a cabeça dos jogadores, afeta a percepção pública. O Arsenal de 2025/26 a removeu. Daqui em diante, será visto de outra forma.
A próxima temporada trará concorrentes mais fortes. O City se reconstruirá. O Chelsea terá Xabi Alonso. O Liverpool tem condições de voltar. O Manchester United, com Michael Carrick efetivado, foi terceiro com tranquilidade e vai querer mais. O campeão é sempre o mais visado — e o estilo que funcionou nesta temporada já encontrou antídotos. Arteta sabe disso melhor do que ninguém.
Isso, porém, é conversa para depois da Copa do Mundo. Antes, há uma final da Champions em Budapeste no dia 30. A temporada já é histórica. Se ganhar, será a maior da história do clube. Se não ganhar, continuará sendo enorme e inesquecível. É bom ter as pernas descansadas, porque a corrida vai ser ainda mais difícil no próximo ano.
SEJA MEMBRO.
Se você leu até aqui, já sabe o que o Meiocampo faz. Toda terça trazemos uma edição exclusiva para assinantes, mas a assinatura é também a forma de manter esse projeto funcionando. Jornalismo independente de futebol não se sustenta sem quem acredita nele. Se você acredita, o lugar é aqui. Mande aos amigos!
PODCAST MEIOCAMPO #232
O Arsenal é campeão inglês pela primeira vez em 22 anos. Depois de três vice-campeonatos consecutivos, Mikel Arteta finalmente entregou o título que o projeto prometia. Felipe Lobo e Bruno Bonsanti analisam o processo, os jogadores, o quase-colapso de abril e o que distingue esse Arsenal dos que chegaram perto e não fecharam. No bloco da semana: Aston Villa campeão da Liga Europa, a UEFA reformulando as Eliminatórias no modelo da Champions e o retorno de Neuer para uma quinta Copa do Mundo.
Ouça também no Spotify, iTunes ou no seu tocador de preferência.
GIRO
Por Bruno Bonsanti
- O Aston Villa é um bom exemplo do quanto as coisas podem ser voláteis na Inglaterra para quem não está no topo do topo. Até para esses, se nos lembrarmos do Tottenham. É um clube histórico, com tradição e títulos importantes, um campeão europeu com uma torcida apaixonada, o principal da segunda maior cidade do país. E passou décadas entre a irrelevância do meio da tabela e a segunda divisão. O retorno à elite começou devagar. Girando em torno de Jack Grealish, lutou apenas pela sobrevivência, embora tenha emplacado uma final de Copa da Liga. Os donos tinham ambições maiores, e não apenas da boca para fora, porque gastaram mais de € 100 milhões em todos os mercados desde o acesso, menos o último. As peças se encaixaram de verdade com a contratação de Unai Emery. Porque é meio assim abaixo do Big Six: todo mundo tem dinheiro para gastar € 100 milhões em contratações. A diferença é o que fazer com elas. Pela sustentabilidade financeira, se classificar duas vezes em três anos para a Champions League é até mais importante. Para o orgulho de quem cresceu ouvindo as histórias do título da Copa dos Campeões, ou estava vivo para testemunhá-lo com os próprios olhos, gritar campeão é uma experiência totalmente diferente.
- Youri Tielemans era considerado o futuro da Bélgica quando surgiu pelo Monaco. Com o ocaso da ótima geração, está realmente entre os mais talentosos da seleção, embora nunca tenha chegado ao patamar de craque. Chegou a ser especulado em clubes poderosos, um bonde que, aos 29 anos, talvez tenha passado. Acabou seguindo outro caminho, sempre na periferia da parte de cima da tabela da Premier League. Fez 195 partidas pelo Leicester, chegou a 133 pelo Aston Villa em Istambul e tem entre os seus feitos o gol do título de uma Copa da Inglaterra e uma pintura na final da Liga Europa. Nem toda carreira tem que ser como imaginávamos para ser muito bem sucedida.
- A Bola de Prata, antigo prêmio da revista Placar aos melhores jogadores do Brasileirão, agora da ESPN Brasil, decidiu que Neymar estava tão acima dos seus colegas de profissão que não era justo continuar competindo. Ele ganhou uma Bola de Ouro hors concours e deixou os outros brincarem. A Liga Europa deveria fazer a mesma coisa com Unai Emery: quando ele estiver classificado, entrega o troféu e poupa o tempo de todo mundo. Emery disputou 31 confrontos de mata-mata de Liga Europa desde agosto de 2013 e ganhou 30. A única exceção foi a derrota na final para o Chelsea quando era comandante do Arsenal. Ele se juntou a Giovanni Trapattoni, Carlo Ancelotti e José Mourinho como os únicos homens com cinco títulos europeus.
- O Freiburg faz um dos melhores trabalhos do futebol europeu. Para quem está em uma cidade de cerca de 200 mil habitantes e chegou à Bundesliga pela primeira vez nos anos noventa, conseguiu uma inesperada estabilidade. Sete temporadas seguidas entre os dez primeiros, com direito a dois quintos lugares e, mesmo distraído pela Liga Europa, conseguiu ficar em sétimo para voltar às competições continentais na próxima temporada. Sinal dessa competência, e do processo que o levou até aqui, é que quatro dos cinco jogadores que mais vezes vestiram a sua camisa entraram em campo contra o Aston Villa: Christian Günter, Nicolas Höfler, Vincenzo Grifo e Lucas Höler. O primeiro título da sua história bateu na trave na final da Copa da Alemanha de 2021/22 e novamente na última quarta-feira. Eu tenho certeza que haverá outras oportunidades.
- O discurso variou ao longo da temporada europeia, entre o domínio e o fracasso da Inglaterra, que colocou cinco clubes entre os oito primeiros da fase da liga da Champions League e apenas dois nas quartas de final. Se nem sempre fica clara na principal competição continental, a superioridade financeira da Premier League tem se sobressaído nas outras: três dos quatro finalistas nas últimas duas edições da Liga Europa e talvez três dos últimos quatro títulos da Conference, projetada especificamente para dar chance às ligas secundárias, se o Crystal Palace for campeão. Em parte, tem a ver com o fortalecimento do segundo pelotão. Clubes como Aston Villa e Newcastle têm elencos de Champions, estiveram nela recentemente, mas não cabe todo mundo. Será curioso acompanhar o que projetos bons e menos ricos, como Bournemouth, Brighton ou Brentford, farão na próxima temporada, dependendo da configuração final da tabela.
- Um pouco exagerada a reação com os nomes que ficaram fora da convocação final de Thomas Tuchel. Os únicos que me comovem são Phil Foden e Adam Wharton. Apesar da temporada de baixa no Manchester City, considero que Foden fez o bastante para ganhar algum crédito. A concorrência é grande pela camisa 10, com Jude Bellingham e a ascensão de Morgan Rogers, mas tem versatilidade para atuar em outras posições. Wharton é um garoto talentoso, de 22 anos, com bastante potencial e poderia se beneficiar de uma Copa do Mundo. Entre os outros, nunca entrei no bonde do Cole Palmer, embora seja um bom jogador, e acho perfeitamente razoável concluir que o momento de Harry Maguire já passou, apesar de sua boa fase no Manchester United. Por outro lado, a surpresa da lista, o retorno de Ivan Toney, me intriga. Por que levar três atacantes se apenas um será utilizado por vez? Principalmente porque haveria opções emergenciais dentro do próprio elenco, como Marcus Rashford - ou até Foden, se ele tivesse ido. Veja a convocação completa aqui.
- Manuel Neuer está oficialmente de volta à seleção alemã. Julian Nagelsmann confirmou o retorno do veterano em sua convocação final para a Copa do Mundo. Engraçado que Neuer negou várias vezes a possibilidade de abandonar a aposentadoria do futebol internacional, mas, em boa forma pelo Bayern de Munique, provavelmente bateu aquele “por que não?”. Não sei nem se haverá uma briga por posição com Oliver Baumann, do Hoffenheim. Se Neuer está lá, e consegue ficar em pé, não tem como escalar outro goleiro. A outra novidade foi a inclusão do garoto Lennart Karl, que pintou como uma grande promessa do Bayern nesta temporada e aumenta o contingente de meias-atacantes da Alemanha. Basicamente todo mundo é meia-atacante. Grande história da Eurocopa, Niclas Füllkrug ficou fora. A ascensão de Nick Woltemade o deixou meio redundante. E ele fez um gol em 19 jogos pelo Milan.
- A ESPN Brasil, pela primeira vez, transmitirá a final da Champions League feminina in loco, diretamente de Oslo, na Noruega, onde o Barcelona enfrentará o octacampeão Lyon em busca do seu terceiro título em quatro temporadas. Valorização legal de uma competição que começou a transmitir nesta temporada. A narração será de Camilla Garcia, com comentários de Mariana Pereira e reportagem de Mari Capra, além das participações da analista de arbitragem Renata Ruel e da apresentadora Natasha David durante o intervalo. A bola rola às 13h (Brasília).
- A Uefa vai mudar o sistema de disputa das Eliminatórias da Euro e da Copa. A mudança foi aprovada no Congresso da Uefa que aconteceu esta semana em Istambul. Baseado no ranking da Liga das Nações e com inspiração no formato atual da Champions League da fase de liga, as seleções serão divididas em três grupos de 12 times, compondo asssim a Liga 1. As 18 seleções pior colocadas no ranking (19, se a Rússia voltar a atuar) farão três grupos de seis, ou dois de seis e um de sete. Cada time jogará seis vezes, trêss jogos em casa e três fora. Haverá um número de classificados diretamente na Liga 1, com os demais disputando uma repescagem com os melhores da Liga 2 por vagas na Euro ou Copa. A mudança é positiva, primeiro para pararmos de ver Ilhas Faroe contra França e afins, o que não ajuda ninguém, mas também para melhorar o produto comercialmente. Para o público nos estádios e para a TV, é muito mais interessante ver confrontos entre equipess mais equivalentes. O formato ainda será confirmado para valer a partir da classificação da próxima Eurocopa, em 2028 (Felipe Lobo).
NA EDIÇÃO ANTERIOR DA NEWSLETTER…
A Newsletter Meiocampo conta com duas edições fixas semanais: às terças, exclusiva para assinantes, e às sextas, gratuita para o público em geral. Ocasionalmente, nossos assinantes também ganharão textos extras. Na terça-feira, Bruno Bonsanti trouxe uma análise sobre por que convocar Neymar é acreditar em algo que não existe mais. Leia aqui.
Bom fim de semana!







