Newsletter Meiocampo #208 — 16 de outubro de 2026
Endrick fica ou Endrick sai? Estamos em outubro e há um ano essa pergunta já acontecia no Real Madrid. Desta vez, porém, o atacante brasileiro tem um jogo para chamar de seu pela Champions que pode se tornar um argumento importante que ele continue.
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Este é o ano para Endrick ficar no Real Madrid
Por Felipe Lobo
A reação mais comum à virada do Real Madrid sobre a Roma foi pedir que Endrick saia em janeiro para jogar mais. Faz sentido à primeira vista, mas o melhor para ele, nesta temporada, pode ser justamente ficar e usar os 31 minutos no Estádio Olímpico como argumento para cobrar o espaço que lhe foi prometido.
A atuação foi uma surpresa. Não pela capacidade do atacante, que é conhecida, mas porque ele só tinha jogado quatro minutos na temporada pelo clube, contra o Elche. Diante da Roma, entrou com o Real Madrid perdendo por 3 a 1, participou do gol de Carlos Espí, marcou o do empate e foi o principal responsável pela virada por 4 a 3.
Antes do jogo, José Mourinho disse à repórter Tati Mantovani, da TNT Sports, que os interessados teriam de brigar com ele para levar Endrick e que era melhor esperarem sentados. Era a posição que ele já tinha manifestado em agosto, agora com palavras mais fortes. E ele tem motivos: um atacante capaz de mudar uma partida saindo do banco é uma arma valiosa em noites de Champions como aquela.
Endrick está no centro de quatro interesses, e só um deles tem a caneta no dia a dia. Mourinho quer uma arma para a temporada. O clube protege um ativo que custou 47,5 milhões de euros, fora bônus. Endrick pensa na carreira e no próprio desenvolvimento. A seleção brasileira, a mais interessada em que ele jogue, é a única sem voto. Hoje, quem decide é Mourinho: tem contato diário com o jogador, escolhe quem entra em campo e já vetou uma saída em agosto. Segundo o próprio Endrick, o português foi o único que conversou com ele. Se depender do técnico, o brasileiro fica.
Na temporada passada, sair foi a decisão certa. Endrick corria atrás de uma vaga na Copa que estava longe de garantida e, no Real Madrid, provavelmente ficaria fora da lista final. O Lyon lhe deu minutos, números e a convocação. Agora o cenário é outro. A temporada 2026/27 é a mais distante da próxima Copa, e o custo de ficar no banco é o menor que ele terá até 2030. A Copa América só acontece em 2028, e há tempo de sobra para recuperar terreno na seleção, se perder algum. Disputar espaço no Real Madrid neste ano não coloca nada essencial em risco.
O jogo contra a Roma mostrou que, com algum tempo em campo, Endrick pode ser decisivo para virar uma partida difícil. Mostrou também que Mourinho tem razão em querer o brasileiro como opção no elenco. O que não significa que ele terá espaço. Até aqui, Endrick está atrás até de Espí, que tampouco é titular, na fila do ataque.
À frente dos dois está Kylian Mbappé. Pelos lados, Vinícius Júnior, Yan Diomande e Brahim Díaz, com Arda Güler na articulação e Rodrygo se recuperando de lesão para voltar à briga. Endrick pode disputar qualquer posição do ataque, porque é rápido, habilidoso, forte e finalizador, mas sabe que os minutos serão limitados.
Forçar a saída contra o técnico pode gerar uma crise, e Mourinho tem histórico de congelar quem o contraria. Se ele continuar no cargo na próxima temporada, Endrick voltaria ainda mais atrás na fila. Mourinho não costuma ter trabalhos longos, mas dois ou três anos à frente do Real Madrid bastariam para causar danos à carreira de um jogador de 20 anos.
Há, porém, o outro lado: a forma como Mourinho trata jovens talentos. Kevin De Bruyne e Mohamed Salah não tiveram espaço com ele no Chelsea, embora já mostrassem capacidade de brilhar, algo que só conseguiram depois de deixar os Blues. Confiar cegamente na promessa do técnico também é um risco. Por isso, o maior perigo para Endrick não é sair, é como sair. Se for o clube a decidir por um empréstimo, não há confronto, e a fricção com Mourinho diminui.
Ficar é a aposta certa agora, mas com prazo. O jogo contra a Roma deu a Endrick poder de negociação para cobrar os minutos que Mourinho prometeu em agosto e voltou a reforçar nesta semana. Em janeiro, jogador, técnico e clube terão de revisitar a questão. Se Roma for a exceção, a saída volta a ser a opção mais interessante. Se ele passar a ter jogos com 30 minutos ou mais, como teve no Olímpico, permanecer segue sendo a aposta mais segura e a melhor no longo prazo.
Se os minutos não aparecerem, caberá ao clube escolher entre o técnico e o ativo. Florentino Pérez nunca tratou a vontade de um treinador como palavra final. Se ele concluir que Endrick precisa jogar para não perder valor, é aí que vamos saber quem manda nessa história.
PODCAST MEIOCAMPO #272
A virada do Real Madrid sobre a Roma, com participação decisiva de Endrick, os tropeços dos italianos - com direito a hattrick de um italiano que joga pela Alemanha na base e é disputado para jogar pela Azzurra -, o tropeço do Bayern, os atropelos do Barcelona e do Arsenal e mais destaques da semana de Champions League. Destaques também para o que rolou na Europa League e Conferengue League.
Giro
Por Bruno Bonsanti
- O PSG não ajuda a rechaçar a impressão de que tira o pé no Campeonato Francês. Desde a temporada passada, quando chegam os grandes confrontos europeus, é isto que acontece: 3 a 0 sobre o Manchester City em 30 minutos. O primeiro gol foi especialmente bem construído, atraindo a pressão e saindo com passes verticais até Desiré Doué bater da entrada da área. Aliás, tem algum time melhor em chutar da região da entrada da área do que o PSG? O segundo e o quarto gol também saíram assim. O City retornou melhor do intervalo e estava esboçando uma reação quando Donnarumma falhou. O começo do trabalho de Enzo Maresca está ótimo. Seis vitórias em seis jogos na Premier League. Mas talvez a elite do continente ainda esteja distante.
- Bodo/Glimt, senhoras e senhores. Eles aprontaram mais uma. E desta vez não tem nem a justificativa de não precisarem se preocupar com a liga nacional. Ao contrário, estão se aproximando das últimas rodadas do Campeonato Norueguês em uma disputa cabeça a cabeça com o Viking pelo título. O Ártico está se tornando um dos grandes alçapões da Champions League. Como na temporada passada, quando derrubou gigantes, o Bodo/Glimt ganhou e ganhou jogando bem. Ou pelo menos criando mais chances claras do que o Borussia Dortmund, ainda que as estatísticas tenham sido equilibradas. E de Guirassy ter perdido um gol quase feito na etapa final.
- A boa notícia: o Liverpool fez seis gols. A má notícia: o Liverpool levou três gols do Lask Linz. As duas coisas são relevantes porque o time de Andoni Iraola tem apresentado problemas nos dois setores. Bradley Barcola desencantou com uma tripleta, mas o principal destaque foram os garotos Lewis Koumas, que liderou a linha ofensiva, e Rio Ngumoha, titular pela direita. Não foi um excelente sinal que a defesa estava segura com Jérémy Jacquet e Ronald Araújo e ficou muito menos segura quando entraram Van Dijk e Joe Gomez.
- Fiquei preocupado com o Aston Villa. Esse foi um mercado difícil. Vários dos seus principais jogadores foram negociados. Eu imaginava que Unai Emery precisaria de algum tempo para montar uma nova equipe. Isso ainda é verdade, provavelmente, mas tudo está andando bem por enquanto. Quatro vitórias nos últimos seis jogos e uma goleada por 6 a 0 sobre o Fenerbahçe. Golear o Fenerbahçe desse jeito é coisa de gente grande. Confesso que havia esquecido da existência de Ross Barkley, um dos destaques ao lado de Nico Jackson. E pouco a pouco, Johan Manzambi vai abrindo suas asinhas após a lesão que sofreu na Copa do Mundo.
- Ele já foi multado e pediu desculpas, mas gostei da entrevista de Lisandro Martínez após a derrota para o Atlético de Madrid. O zagueiro argentino expressou insatisfação com o mercado dos Red Devils, que basicamente apenas repôs peças no meio-campo, e cobrou nominalmente o diretor de futebol Jason Wilcox. Tentou blindar o técnico Michael Carrick de culpa. “Você pode mudar o técnico, mas e as outras áreas? É fácil falar sobre o técnico, os jogadores, mas também temos que ver as outras áreas”, disse. Essas áreas têm deixado o United na mão há mais tempo que os técnicos ou os jogadores.
- Alphadjo Cissé vai se firmando como uma das grandes promessas do futebol italiano. O garoto de 19 anos anotou um hat-trick na segunda rodada da Liga Europa para ajudar o Milan a golear o Red Bull Salzburg por 4 a 0. O outro time italiano na competição passou por emoções mais fortes. O Celta de Vigo saiu na frente no Balaídos, e a Juventus precisou de um erro de Marcos Alonso para empatar. Nos acréscimos, Kolo Muani cabeceou firme para concretizar a virada. A tarde de Liga Europa ainda teve brilho dos brasileiros do Bournemouth: Rayan e Evanilson marcaram na vitória por 3 a 0 sobre o Sturm Graz.
- A Conference League começou na quinta-feira. O Ajax foi mal, derrotado pelo Hadjuk Split, da Croácia. O Monaco-De-Filipe-Luis, o novo nome do clube francês, voltou da Bulgária com a vitória por 2 a 1 sobre o Levski Sofia. Atalanta, Brighton e Freiburg também estrearam com o pé direito. Mohamed Salah, com o esquerdo: um gol e uma assistência na vitória fora de casa do Trabzonspor sobre o KuPS, da Finlândia, por 4 a 2.
- Embora a explicação faça sentido, Vinicius Jr. pegou uma punição pesada demais por sua expulsão contra o Villarreal. A explicação é que ele foi sancionado com dois jogos de suspensão pelo cartão vermelho em si, por puxar o cabelo de Nathan Saliba. Justo. E mais dois pela sua reação, que realmente não foi calma. Ainda assim, é difícil não sentir que a abordagem seria diferente com um jogador menos visado. Vinicius está fora do clássico contra o Barcelona marcado para 25 de outubro.
- Gianni Infantino continua tentando conter os danos. Na quinta-feira, ele pediu desculpas formais em uma reunião do conselho da Fifa pelo seu plano de basicamente privatizar parte da Copa do Mundo. Apesar da contrição do suíço-italiano, os europeus mantiveram a pressão e continuam cobrando sua renúncia. A Uefa quer que Infantino divulgue todos os documentos relacionados ao plano, e a presidente da Federação Inglesa, Debbie Newitt, busca respostas a uma série de questões, incluindo o prêmio da paz entregue a Donald Trump e a anulação da suspensão de Folarin Balogun. “Eu acho que ele tem que responder a essas perguntas, e se ele não responder agora, ele não está apto para ser presidente da Fifa”, afirmou Hewitt, segundo a BBC.
- Está desesperado? Chama o Nicola. No caso, Davide Nicola, o operador de milagres do futebol italiano. O Venezia anunciou o técnico nesta semana, a sua cartada para tentar sair da lanterna da Serie A, com zero pontos em seis rodadas. Nada é impossível para Nicola, que salvou Salernitana, Empoli, Torino e Cagliari. O resgate mais impressionante, porém, continua sendo o primeiro, quando somou 20 pontos nas últimas nove rodadas para evitar o rebaixamento do Crotone. Comemorou pedalando 1,300 kms através da Itália, em homenagem ao filho que morreu em um acidente de bicicleta.
NA EDIÇÃO ANTERIOR DA NEWSLETTER…
Na última edição, exclusiva para assinantes, Bruno Bonsanti analisou a vitória do Manchester City por 3 a 0 sobre o Liverpool em Anfield, o primeiro jogo do clube depois da condenação por 114 das 115 acusações da Premier League. A resposta em campo veio, mas pode não valer nada: com uma dedução de pontos dada como certa e ainda sem data, o City vai passar a temporada vaiado de estádio em estádio sem saber se briga pelo título, por vaga na Europa ou contra o rebaixamento. Uma temporada absurda, no sentido do dicionário.
A edição de terça também trouxe a fase de Vinícius Júnior com Mourinho, o plano de Infantino para usar as reservas da Fifa a seu favor na eleição e o giro da Champions. Para ler esse e todos os textos de terça, assine o Meiocampo.
Bom fim de semana!






