Newsletter Meiocampo #200 — 18 de setembro de 2026
A noite de quinta foi de mutirão. Não pelo BBB ou por algum reality show. Uma medida provisória em preparação pelo governo, que pode proibir cassino online e restringir apostas esportivas, caiu como uma bomba no mercado. Clubes, federações e casas de apostas divulgaram um manifesto com tom terrorista e catastrofista — exagerado, é claro — sobre as possíveis consequências. Será mesmo que o futebol brasileiro acaba se o dinheiro das apostas secar, ou isso não passa de uma tática pra arrancar choro e ranger de dentes do torcedor?
Vale lembrar: as edições de terça-feira e eventuais extras são exclusivas para assinantes. Às sextas-feiras, continua o conteúdo gratuito aberto ao público. Sugestões, críticas, elogios, quer só mandar um abraço: contato@meiocampo.net.
É o fim do futebol brasileiro? Por mim, tudo bem
Por Felipe Lobo
O fim do futebol brasileiro. É o que casas de apostas e clubes de futebol alegam na noite desta quinta-feira, em reação a uma excelente reportagem de José Roberto de Toledo, Thais Bilenky e Rodrigo Mattos sobre uma medida provisória do governo que quer proibir jogo online e restringir as apostas esportivas. Não é verdade, e a prova está nos próprios números do futebol brasileiro — não no pânico que o manifesto tenta vender ao torcedor.
A reportagem diz que o governo trata o texto quase como uma extinção do jogo online no país. A restrição a apostas esportivas ainda passará por ajustes. Os cassinos online, como o famoso tigrinho ou outros jogos, devem ser proibidos completamente — esse é o objetivo do governo. As apostas esportivas continuariam possíveis, mas com muito mais restrições, como a proibição de propaganda, algo parecido com o que acontece hoje com o cigarro. Bebidas alcoólicas ainda podem anunciar, mas sob fortes restrições.
A medida deve ter lastro popular, com cada vez mais gente endividada por causa do vício em jogo. Como era de se esperar, essa possibilidade criou um Barata Voa.
Dirigentes de clubes e federações e executivos de casas de apostas estão em polvorosa e assinaram um manifesto que diz que as medidas seriam o fim do futebol brasileiro. Sim, o fim. Não seria crise, seria o fim. Um terrorismo feito para transformar a paixão do torcedor numa barreira contra esse gol de falta do governo.
O manifesto, que já começa falando do fim do futebol brasileiro, ainda sustenta que o domínio brasileiro na Libertadores e na Sul-Americana é fruto desse massivo investimento das casas de apostas. E mais: que a presença não se limita aos maiores clubes, e que não existe hoje outro segmento econômico capaz de substituir imediatamente esse investimento. Fala, com todas as letras, em insolvência de clubes.
Quase nada disso está baseado na realidade. O futebol brasileiro é muito mais rico que os rivais sul-americanos, mas não por causa do dinheiro de casas de apostas. Os direitos de TV seguem sendo, de longe, a maior receita dos clubes, que inclusive os usam como lastro para empréstimos. É claro que os valores de patrocínios irreais, que passam de R$ 100 milhões por ano em alguns clubes, contribuem para os clubes brasileiros serem mais ricos. Mas não é isso que explica o domínio brasileiro, que já acontecia antes.
O único ponto do manifesto que resiste ao escrutínio é sobre os clubes pequenos — mas ele exagera a escala. Em 2026, 60% dos clubes da Série A e 60% da Série B têm casa de apostas no patrocínio máster, contra apenas 35% na Série C — onde estão os clubes pequenos e do interior citados como exemplo mais dramático. O dinheiro de aposta está concentrado onde o futebol já é mais rico e mais visível, não onde ele mais precisa.
E mesmo onde o dinheiro de aposta é real e generoso, ele não cura má gestão. O maior contrato de patrocínio máster da história do futebol brasileiro é do Flamengo com a Betano — R$ 268 milhões por ano até 2028 —, mais do que o dobro do contrato do Corinthians com a VaideBet (R$ 370 milhões em três temporadas). E ainda assim é o Corinthians quem lidera o ranking de dívida do futebol brasileiro: R$ 2,44 bilhões, crescendo 20% ao ano.
O São Paulo tem outra casa de apostas, a Superbet, pagando R$ 95 milhões fixos só em 2026, podendo passar de R$ 100 milhões com bônus — e mesmo assim Luciano reclamou publicamente, nesta semana, de meses de salário atrasado. Do outro lado, a Ponte Preta prova que a ausência do dinheiro de aposta também não é o que explica um colapso: teve casa de apostas no patrocínio máster até o início de 2026, a GingaBet, mas desde abril quem estampa a camisa é a Mansão Maromba, marca de suplementos — nenhuma bet. Foi assim, sem dinheiro de aposta algum no peito, que o time viveu a crise que o derrubou de novo pra Série C um ano depois de ser campeão: sete meses de salário atrasado, bloqueio da Fifa por dívida não paga.
É claro que acabar com esse recurso pode causar um rombo de caixa real no curto prazo, especialmente se acontecer do dia para a noite. E aqui é um dos poucos momentos em que o manifesto tem alguma razão: a insegurança jurídica. O texto alega que “contratos regularmente firmados e planejamentos construídos sob o marco regulatório aprovado pelo Congresso Nacional e estabelecido pelo próprio Estado” seriam violados. É verdade: as apostas são regulamentadas e os clubes não infringiram nenhuma lei. É por isso que clubes, federações e casas de apostas já pensam em judicializar a questão.
Existe uma saída óbvia pra esse problema específico, que o governo pode dar mas não é obrigado a dar: uma regra de transição, um prazo de um ano, por exemplo, pra contratos se adaptarem, em vez de vigência imediata. O risco de não dar esse prazo já apareceu em Minas Gerais: o governador assinou, em 20 de agosto, um decreto proibindo publicidade de apostas em espaços públicos do estado, incluindo o Mineirão, com vigência imediata. Resultado: a CBF notificou o Cruzeiro porque o decreto colide direto com os contratos comerciais da entidade atrelados ao Brasileirão e à Copa do Brasil, e o clube correu risco de ficar impedido de mandar jogos no próprio estádio — tudo por uma regra que não previu nenhuma adaptação. É o preço de fazer a coisa certa do jeito errado. Mas a MP, tal como está sendo desenhada, valeria imediatamente — dar prazo seria concessão do governo, não obrigação.
Isso não torna a medida menos correta, porém. A decisão do governo Michel Temer de liberar as apostas esportivas de quota fixa, no fim de 2018, sem regulamentação nenhuma junto, foi um ato irresponsável — e abriu a brecha por onde, depois, cresceram também os cassinos online, que nunca chegaram a ser de fato autorizados por lei. Criou um ambiente problemático para ser regulamentado depois, quando as empresas já tinham sido turbinadas com quatro anos de festa sem restrições. A regulamentação foi muito menos severa do que deveria, em parte porque o lobby foi grande para que aquela farra continuasse, em parte porque o governo que assumiu depois não quis comprar essa briga.
Governo, aliás, que ao menos decidiu regulamentar a questão, com a Lei das Bets sancionada em 2023. O governo anterior chegou a esboçar um decreto de regulamentação, mas não o publicou dentro do prazo — na prática, deixou tudo como estava, sem restrição, por quatro anos. Por isso também as empresas chegaram anabolizadas, patrocinando pesado influenciadores e políticos.
Proibir as apostas esportivas agora seria como tentar colocar o gênio de volta na lâmpada. Mas restringir severamente a propaganda e a operação desse segmento é obrigação do governo, seja ele qual for em 2027.
O cassino online deve sim ser proibido completamente, como, aliás, era o projeto original de regulamentação enviado ao Congresso (que foi bastante flexibilizado na Câmara e no Senado). Tigrinho, aviãozinho e caça-níqueis online precisam acabar: não trazem benefício nenhum e são altamente viciantes. Já é uma discussão complexa falar em liberação de cassinos físicos, mas o online parece algo que precisa mesmo ser proibido.
Já as apostas esportivas devem ser restringidas. Em vários países, como a Espanha e a Bélgica, é proibida a propaganda de casas de apostas. Neste mês, quando a Internazionale foi jogar na Espanha contra o Real Madrid, teve que atuar sem o patrocínio estampado na camisa — a patrocinadora, Betsson, é uma casa de apostas.
Na Itália a propaganda de casas de apostas também é proibida, mas por lá deram um jeitinho italiano, parecido com o que era feito no Brasil antes da liberação geral de Temer em 2018: usam um domínio diferente para alegar que é um site de palpites, não de apostas. Na Itália isso passou. Na Espanha, não.
Mesmo no Reino Unido, mercado maduro e regulamentado há décadas, as restrições sobre publicidade de apostas têm aumentado. Nesta temporada, os clubes não podem mais estampar marcas de casas de apostas no patrocínio máster da camisa — ainda é permitido anunciar na manga e nas placas ao redor do gramado, mas há pressão para que isso também acabe. No Reino Unido também há restrição de horário: a propaganda de apostas na TV é banida de cinco minutos antes do apito inicial a cinco minutos depois do apito final de qualquer jogo ao vivo antes das 21h.
A tendência de restringir mais as casas de apostas é global, e o Brasil vai seguir essa tendência. O governo parece usar uma estratégia clássica de negociação: coloca o bode na sala, ameaçando proibir tudo, para depois tirar o bode e sair com o que queria desde o início — acabar com os cassinos online e praticamente impedir a propaganda de apostas.
O manifesto de dirigentes, clubes e federações fala que isso é o fim do futebol brasileiro. É terrorismo feito para conquistar o coração desesperado do torcedor de um esporte em que 18 dos 20 clubes da Série A vivem em crise financeira permanente — e talvez todos os das divisões inferiores.
Mas vá lá, digamos que, hipoteticamente, essa medida do governo seja mesmo o fim do futebol brasileiro. Se é assim, que o futebol brasileiro acabe para poder ser refundado em bases melhores, que não dependam de valores de patrocínio fora da realidade nem do dinheiro de casas de apostas. Seria um bom recomeço.
PODCAST MEIOCAMPO #264
O Barcelona de Hansi Flick não tem centroavante, mas quem disse que precisa? Com Raphinha centralizado, o time achou um artilheiro, que é complementado por Lamine Yamal, Fermín Lopez e até Gabriel Jesus. Ainda tem vitória do Real Madrid com mais brilho de Mbappé (e gol salvador no final) e as eliminações de Tottenham e Manchester United na Copa da Liga. E mais: a venda de direitos de transmissão da Copa do Brasil bate recordes e mudança nos proprietários do Chelsea.
Giro
Por Bruno Bonsanti
- Eu sei que está ficando repetitivo, mas o Barcelona é a principal história das primeiras semanas da temporada. Um time que era avassalador e está conseguindo ser ainda mais avassalador. Tem mais uma partida, contra o Sevilla, neste sábado, e mesmo se passá-la em branco, chegará à Data Fifa com média de quatro gols por jogo em La Liga. Raphinha está com números de Messi: marcou 11 vezes em sete jogos, contando a Liga dos Campeões. A confiança do elenco ficou evidente nos dois gols de fora da área do lateral João Cancelo. Karim Adeyemi, que outro dia eu classifiquei como o último atacante da hierarquia, está rapidamente subindo os degraus. Houve espaço para Gabriel Jesus deixar o seu na goleada sobre o Racing Santander, que também apresentou algumas preocupações. A mesma de sempre. Esse Barcelona marca gols com tanta facilidade com que os sofre. A questão - e eu entendo que parece ridículo - é se continuará marcando mais do que sofrendo até o fim da temporada, inclusive na Champions League.
- O Real Madrid parece estar um patamar abaixo. Porque perdeu um jogo e sofreu para ganhar outros dois. Os números, porém, contam uma história diferente. O time de José Mourinho tem amassado os seus adversários na batalha do xG neste começo de La Liga. Segundo a Opta, uma média de aproximadamente 3.00 gols esperados a cada 90 minutos e menos de 1.00 concedidos. A tabela de xG não entrega nenhum troféu, mas nela, o Real está inclusive à frente do Barça (por pouco: 16,1 pontos x 15,8). Duas principais hipóteses: ou há um excesso de falhas nos dois lados do gramado ou um pouco de azar. De qualquer maneira, as estatísticas indicam um desempenho forte do Real Madrid, mais forte do que eu esperava com o técnico que eles contrataram.
- O que desmoraliza a batalha do xG é o que aconteceu em Anfield. O Tottenham ganhou nos números: 2.42 x 1.82. O que é promissor, dado seu início de temporada, mesmo contra um adversário com quatro garotos no time titular. Dois problemas: Mamardashvilli fez três excelentes defesas, incluindo dois milagres, e quem precisa de xG quando seus meias colocam a bola no ângulo? Os gols de Szoboszlai e Mac Allister foram brilhantes, e mesmo o de Cody Gakpo precisou de uma finalização de alta dificuldade. Pelo menos, os Spurs marcaram em um time da Premier League pela primeira vez na temporada. Na quinta tentativa.
- O que mais frustra no Manchester United é o sisifismo. Sempre que parece que a pedra chegou ao topo da montanha, ela volta a cair. Eu mencionei em outra edição a dificuldade que eles continuam tendo contra blocos baixos. Nem foi o caso na tragédia desta semana. Essa foi um daqueles apagões, um jogo que parecia controlado de repente não estava mais. A Copa da Liga Inglesa não era prioridade, e perder do Brighton tem sido comum, mas um dos pontos negativos da última temporada foi ter sido eliminado na estreia das duas copas nacionais. Na primeira delas, foi novamente. A consolidação do trabalho de Michael Carrick depende de ele provar que desta vez será diferente, e não que tudo continuará igual.
- No restante dos jogos da semana na Copa da Liga, ganhou quem você imaginava que ganharia. Arsenal e Manchester City avançaram sem dificuldades. O brasileiro Allan, ex-Palmeiras, abriu sua contagem na Europa com um belo gol na vitória por 5 a 0 sobre o Norwich. A queda do Manchester United nos roubou de um dérbi na próxima fase, equivalente às oitavas de final, porque o Brighton enfrentará o City. O principal confronto será entre Liverpool e Chelsea, em Anfield, mas há outros interessantes, como Bournemouth x Aston Villa, Everton x Newcastle e Sunderland x Brentford.
- O Milan parece ter um problema ofensivo. Marcou sete vezes em quatro rodadas da Serie A, nem pouco, nem o que se espera de quem quer brigar pelo título. A produção contra o Benfica, em sua estreia na Liga Europa, não foi boa, apesar de domínio de posse de bola (61%) e 17 finalizações. Sabe o que eles poderiam fazer? Gastar € 70 milhões em um centroavante que não seja o Gonçalo Ramos. Ou esperar (mais torcer, na verdade) que Christian Pulisic recupere sua melhor forma. O maior gargalo parece estar nos dois meias-atacantes atrás do camisa 9 no esquema de Rúben Amorim, ainda que o garoto Alphadjo Cissè seja uma das boas notícias deste começo de temporada.
- A goleada da Juventus sobre o NEC Nijimegen foi uma festa. Kolo Muani marcou, Nick Woltemade marcou, e pena que não havia outro centroavante contestado para marcar também. Em San Sebastián, um toque de cabeça esperto do brasileiro Rayan ajudou o Bournemouth a conseguir um resultado enorme em sua estreia em competições europeias: 2 a 1 sobre a Real Sociedad, fora de casa. Dos outros jogos, chamam a atenção a derrota do Hoffenheim para o OFI Crete, da Grécia, e a do Celtic em casa para o Ferencváros. Estranho, esse Celtic. Começou o Campeonato Escocês com seis vitórias em seis rodadas, mas levou uma paulada do Rangers na Copa da Liga, foi eliminado em condições dramáticas pelo LASK Linz nas preliminares da Champions League e começou mal a Liga Europa.
- O Chelsea anunciou que a Clearlake Capital, fundo de investimento americano, assumiu controle total do clube. Isso significa que comprou as ações minoritárias dos empresários Mark Walkters (dono do Los Angeles Dodgers, do beisebol, e durante uns 15 minutos, do Los Angeles Lakers) e de Todd Boehly. Relevante porque Boehly era o rosto do projeto e o presidente desde que o consórcio aproveitou a turbulência política para tirar o Chelsea das mãos de Roman Abramovich. Não dá para dizer que seu mandato foi um sucesso: muito dinheiro gasto e só agora temos um esboço de time. Difícil projetar o que essa movimentação significa. Fundos de investimento geralmente gostam de comprar clubes em baixa, reestruturá-los e vendê-los por lucro, mas o Chelsea já é um ativo caro.
NA EDIÇÃO ANTERIOR DA NEWSLETTER…
A Roma começou a temporada dando muitas esperanças ao seu torcedor. No segundo ano do trabalho de Gian Piero Gasperini, o time é o maior candidato a impedir o favoritismo da Internazionale na Serie A. Este foi um dos assuntos da última edição da newsletter, que ainda comentou sobre a complicada situação de Michael Carrick no Manchester United. LEIA AQUI
Bom fim de semana!






