França expõe Vini — e o problema maior do Brasil
O esquema não funciona sem um coletivo que liberte Vini. A França mostrou isso. Marrocos vai cobrar.
Newsletter Meiocampo #127 — 27 de março de 2026
O Brasil jogou ontem contra a França e o resultado importa menos do que o que o jogo revelou. A Seleção perdeu com um a mais durante quase todo o segundo tempo — e os problemas que apareceram não são acidentais. Vini Jr. foi apagado. Raphinha também. O esquema não funcionou. E o time que vai estrear na Copa em menos de três meses contra Marrocos precisa resolver tudo isso em um único amistoso. É sobre isso que escrevemos nesta edição. No giro, também passamos pelos jogos da repescagem europeia e intercontinental — Itália, Bolívia e Jamaica estão a uma vitória de garantir vaga no Mundial.
AVISO: A próxima edição será enviada, excepcionalmente, na quarta-feira, para incluir o jogo do Brasil e os classificados à Copa.
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A França expôs os problemas. O Brasil tem três meses para corrigir
Vini e Raphinha foram apagados, a pressão ofensiva falhou e o Brasil não soube criar com a bola. Nada disso é sem solução — mas Marrocos não vai esperar.
Por Felipe Lobo
Vinícius Júnior e Raphinha são dois dos melhores jogadores do mundo em seus clubes. No Real Madrid, Vini é decisivo. No Barcelona, Raphinha é um dos melhores da temporada europeia, com muitas participações em gols. Contra a França, os dois foram apagados. Raphinha recebeu um lançamento de Casemiro com tudo para ir ao gol e não decidiu o lance. Saiu lesionado no intervalo. Vini foi o nome mais discutido — e sua partida foi terrível.
Carlo Ancelotti, depois do jogo, disse que não vê diferença entre o que os dois fazem nos clubes e o que fazem na seleção. O jogo mostrou o contrário. Mas essa contradição é o fio mais importante para entender o que o Brasil precisa resolver antes da Copa do Mundo.
O Brasil perdeu para a França por 2 a 1, jogando com um a mais durante quase todo o segundo tempo. É preciso contextualizar: o time não teve Alisson, Éder Militão, Marquinhos, Gabriel Magalhães, Bruno Guimarães e Estevão, apenas entre os titulares. Isso tem peso. Mas os desfalques explicam parte dos problemas, não todos.
O esquema e seus limites
Com a bola, o Brasil de Ancelotti é um 4-2-4, às vezes um 2-3-5, com o segundo volante chegando ao ataque, um lateral fechando como zagueiro e o outro cobrindo o meio-campo. Sem a bola, o time se fecha em um 4-4-2, com dois atacantes cobrindo os lados do campo. É um esquema que exige muita coordenação entre os setores e muita dedicação defensiva dos jogadores de ataque — similar ao que Ancelotti montou no Real Madrid, com Mbappé e Vini centralizados e Valverde e Bellingham fechando os lados.
No primeiro tempo, esse esquema não funcionou. A pressão ofensiva foi falha e descoordenada. A França ficou muito mais com a bola e, quando o Brasil tinha a posse, não sabia o que fazer com ela. A saída de bola sofria pressão constante e o time não encontrou caminhos limpos.
Os dois gols franceses nasceram de dois problemas distintos do time. No primeiro, a dificuldade na saída de bola pressionada: Léo Pereira forçou um passe desnecessário, Andrey Santos foi pressionado, Casemiro sofreu o desarme de Tchouaméni e Mbappé ficou livre para entrar na área e encobrir Ederson com uma cavadinha. No segundo, as falhas no sistema de pressão ofensiva foram ainda mais reveladoras: a França superou essa linha de pressão contra cinco marcadores jogando com um homem a menos. Olise carregou livre pela intermediária, passou para Ekitiké, que repetiu a cavadinha de Mbappé. Duas vezes o Brasil permitiu que adversários ficassem na cara do gol sem marcação. Não é azar — é um problema defensivo coletivo.
O que Andrey não fez e Danilo fez
Andrey Santos não foi propriamente mal. Seus números de passe foram razoáveis. O problema é mais sutil: ele não conseguiu fazer o que a função de camisa 8 exige nesse esquema — chegar ao ataque, ajudar na transição ofensiva e ao mesmo tempo ser o companheiro de Casemiro na cobertura defensiva. É exatamente o que Bruno Guimarães faz tão bem e que define o funcionamento do meio-campo brasileiro. Andrey foi invisível para essa função.
O contraste ficou evidente quando Danilo Santos entrou em seu lugar. O volante do Botafogo tem qualidade com a bola, faz a transição, chega, conecta os setores. Foi ele quem cobrou a falta que originou o gol de Bremer. Se Bruno Guimarães fizer falta na Copa — e é uma possibilidade real —, Danilo Santos deu um passo importante para ser a melhor alternativa.
Quem ganhou e quem perdeu
Luiz Henrique garantiu sua presença no Mundial. Entrou no intervalo no lugar do lesionado Raphinha, colocou fogo no jogo pela ponta direita, criou as melhores chances do Brasil e deu a assistência para o gol. Se havia dúvida sobre sua vaga, não há mais.
Apesar dos problemas defensivos do time, Bremer teve uma atuação segura, com boas decisões mesmo com a defesa pressionada, e marcou o gol brasileiro. Danilo Santos mostrou serviço. Do outro lado, Douglas Santos voltou abaixo do nível que havia apresentado nas convocações anteriores — não se posicionou bem defensivamente, não ajudou ofensivamente. A lateral esquerda segue como posição em disputa aberta. Wesley participou bem do lance que gerou a expulsão de Upamecano, mas teve dificuldades na marcação. Com sua lesão confirmada para o jogo contra a Croácia, Danilo, do Flamengo, deve ser opção imediata, mas Éder Militão — quando disponível — deve ser a escolha mais segura para o lado direito da defesa.
Um time de transição que ainda não sabe o que fazer com a bola
O teste com a França deixou claro o perfil do Brasil: um time para fazer transições rápidas, que vai atacar primordialmente em velocidade. Não é um time de manter posse. Com esse ataque forte, precisará trabalhar a bola com objetividade — e aceitar ter menos posse que adversários mais qualificados, como foi o caso contra a França.
Isso não é problema em si. O problema é que, quando o Brasil teve a bola, não soube o que fazer com ela. Não criou jogadas que fizessem Maignan trabalhar no primeiro tempo. E há outra questão: o Brasil precisará ter uma alternativa para times que joguem recuados, com bloco baixo. É o que Escócia e Haiti devem fazer na fase de grupos — mas também é, em nível muito superior, o que Marrocos fará na estreia.
Marrocos é o adversário mais difícil da fase de grupos. É um time que chegou à semifinal da Copa de 2022, que enforca, que deixa o adversário com a bola e espera o erro para punir na transição — com muito mais qualidade individual do que Haiti ou Escócia. É exatamente o tipo de time que vai expor os dois problemas que o jogo contra a França revelou: a pressão ofensiva descoordenada e a incapacidade de criar quando o adversário fecha o espaço.
O que Ancelotti precisa provar
Ancelotti disse que não vê diferença no rendimento de Vini e Raphinha na seleção em relação aos clubes. O jogo contra a França mostrou que essa diferença existe e é grande. Mas a frase do técnico pode ser lida de outro ângulo: primeiro, como uma tentativa — talvez questionável — de defender seus jogadores publicamente. Mas principalmente como uma aposta no que o Brasil precisa se tornar, não uma descrição do que é hoje.
No Real Madrid, Vini não é o único protagonista — é uma peça decisiva de um sistema que cria os espaços antes de ele receber a bola. Valverde chega, Mbappé atrai marcação, Bellingham aparece entre as linhas. Na seleção, o Brasil ainda não construiu esse coletivo. Vini fica isolado, esperando o espaço que o sistema não cria.
Se Ancelotti conseguir que o Brasil reproduza essas condições — e ele tem três meses e mais um amistoso para isso —, então a frase dele deixa de ser uma contradição e vira um diagnóstico preciso do que falta. Um Brasil que faz Vini e Raphinha funcionarem como fazem em seus clubes é um time capaz de competir com qualquer adversário na Copa. O problema é que, hoje, esse Brasil ainda não existe. E Marrocos não vai esperar.
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PODCAST MEIOCAMPO #217
Brasil perdeu para a França por 2 a 1 jogando com um a mais durante quase todo o segundo tempo. O placar já seria ruim; a incapacidade de aproveitar a superioridade numérica é pior. Vini Jr. foi um dos piores em campo — e ele não é o único problema. O Brasil ainda não sabe construir um coletivo que funcione sem um protagonista absoluto, e Ancelotti tem menos de três meses para resolver isso antes da Copa. O que esse teste revelou? O que esperar do jogo contra a Croácia, último amistoso antes da lista final? E na repescagem: Itália está a uma vitória de voltar à Copa depois de 12 anos, Bolívia pode encerrar jejum de 32 anos e Jamaica também briga por vaga. As finais são na terça.
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GIRO
Por Bruno Bonsanti
- Como esperado, a Itália entrou em um 3-5-2, com Mateo Retegui e Moise Kean no ataque. Francesco Pio Esposito, destaque da Internazionale, começou no banco de reservas. Foi importante o retorno do centroavante da Fiorentina. Embora sua temporada não seja das melhores, Kean conseguiu levar algum perigo à bem fechada Irlanda do Norte antes e depois de Sandro Tonali aliviar toda uma nação. Era outra coisa esperada: os norte-irlandeses sabem defender e jogar a responsabilidade para o adversário. Por um pulo alguns segundos atrasado, quase fez mais do que isso. Esta é uma Itália que, antes de mais nada, precisa lidar com essa responsabilidade para evitar a terceira tragédia seguida. Conseguiu fazê-lo em Bergamo. Agora terá que fazê-lo fora de casa contra a Bósnia na próxima terça-feira.
- Não foi o dia mais inspirado das seleções britânicas. Edin Dzeko, 40 anos, empatou em Cardiff a quatro minutos do fim e forçou a disputa de pênaltis contra Gales. A Bósnia até perdeu a sua primeira cobrança, mas Brennan Johnson e Neco Williams, entre os melhores jogadores galeses, erraram as suas. Gales não vai para a Copa do Mundo, nem a Irlanda, que não é britânica, mas não quero abrir uma pílula só para falar dela. Havia chegado empolgada pela vitória sobre Portugal e os cinco gols de Troy Parrott. Chegou a abrir 2 a 0, com mais um do seu artilheiro, e por essas coincidências da vida, também levou o empate a quatro minutos do fim. A coincidência seguiu na disputa de pênaltis porque, como se fosse o mesmo roteiro, Mojmír Chytil errou sua cobrança antes de Finn Azaz e Alan Browne partirem o coração da Irlanda.
- O thriller do dia foi em Bratislava, onde o Kosovo venceu a Eslováquia por 4 a 3. David Strelec descontou para os donos da casa aos 49 minutos do segundo tempo, então não foi tão próximo assim. Atuação eficiente dos kosovares que marcaram quatro vezes em nove finalizações, contra 20 dos eslovacos. Dez anos depois de se filiar à Uefa, Kosovo está a apenas uma vitória da Copa do Mundo, mas não terá vida fácil. A Romênia chegou a assustar, mas a Turquia confirmou o seu favoritismo. A favor de Kosovo, o mando de campo. A partida será em Pristina. Contra Kosovo, a ausência de um jogador com a qualidade de Arda Güler (ou Yildiz). A sua assistência foi mesmo de quem tem bola para o Real Madrid.
- Parecia que o professor Sylvinho seria responsável pela grande surpresa do dia quando a Albânia abriu o placar em Varsóvia. Teve a oportunidade de ampliar em um contra-ataque, mas Nedim Bajrami perdeu um gol incrível. E teve a chance de voltar à frente após o empate de Robert Lewandowski, mas Stavro Pilo perdeu outro gol incrível. Os albaneses acabaram sucumbindo à pressão polonesa. Não é toda seleção que tem um cara com Zielinski para acertar aquele chute. A Albânia disputando a sua primeira Copa do Mundo seria uma história legal. Não acontecerá, mas pelo menos podemos ter mais uma com Robert Lewandowski.
- Depois da Itália, é provável que Dinamarca e Suécia sejam as duas seleções que mais atraem as atenções na repescagem europeia. A Dinamarca, pela sua tradição. A Suécia, por contar com alguns jogadores muito badalados. Dois deles, Alexander Isak e Dejan Kulusevski, não estavam em campo, mas Viktor Gyökeres compensou. Com contas a acertar nesta temporada de difícil adaptação ao Arsenal, marcou três vezes e até sofreu o pênalti que ele próprio converteu. A Dinamarca fez o que a Itália não conseguiu fazer: goleou a Macedônia do Norte sem sustos e agora precisa apenas passar pela Tchéquia.
- O gol de Suriname estava amadurecendo antes de sair no começo do segundo tempo. Mesmo com pouca posse de bola, os caribenhos estavam perigosos, principalmente com Joël Piroe, que acabou de trocar a Holanda pelo Suriname no futebol internacional. A melhor oportunidade, porém, caiu nos pés de Myenty Abena, que exigiu uma grande defesa à queima-roupa de Guillermo Viscarra. A Bolívia empatou com um toquinho de bico de Moisés Paniagua e virou com um pênalti cobrado pelo santista Miguelito. Ficou a uma vitória de disputar sua primeira Copa do Mundo desde 1994. Precisará passar pelo Iraque. No outro jogo, a Jamaica foi econômica. Passou pela Nova Caledônia por apenas 1 a 0 e agora terá que enfrentar a República Democrática do Congo. Será mais difícil.
- Algumas seleções candidatas ao título, ou pelo menos tradicionais, realizaram amistosos nesta sexta-feira. Destaque para a Espanha, que passeou em Villarreal contra a Sérvia, com mais dois gols de Mikel Oyarzabal. O ponta explodiu como centroavante improvisado no último ano, marcando 11 vezes em 11 jogos desde março de 2025. Na Basiléia, Florian Wirtz comeu a bola e conduziu a Alemanha a uma vitória por 4 a 3 sobre a Suíça. Seus dois gols foram bonitos, principalmente o primeiro (se ele tentou mesmo chutar). A Holanda bateu a Noruega, mas, sem Erling Haaland, não sei o quão importante foi como teste, e Federico Valverde cobrando pênalti nos últimos segundos arrancou o empate para o Uruguai contra a Inglaterra em Wembley.
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Bom fim de semana!







