Newsletter Meiocampo #192 — 21 de agosto de 2026
O Guia Meiocampo desta edição mapeia a Serie A que abre neste fim de semana: a Internazionale como favorita isolada, mas o enredo real passa pela contabilidade — fundos que administram clube para vender, famílias que bancam projeto industrial e a Lazio, refém da própria dívida. No Giro, movimentações de transferências na Premier League, os primeiros resultados dos playoffs europeus e o tabuleiro institucional que move Fifa e Uefa.
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Guia Meiocampo da Serie A 2026/27
Por Felipe Lobo
A Serie A 2026/27 já tem favorita definida — a Internazionale busca o bicampeonato e ninguém no campeonato parece páreo. O que ainda está em aberto é outra disputa, menos visível na tabela: qual modelo de propriedade sobrevive ao contato com a Europa e com a Squad Cost Ratio da Uefa, a nova regra que limita a 70% da receita o gasto de um clube com elenco.
De um lado estão os fundos que administram clube como ativo a valorizar. A Oaktree comanda a Inter sem investir pesado, mantendo um time que mais vende jogadores para o exterior do que compra. O RedBird faz o mesmo cálculo no Milan, que aposta tudo na reconstrução de Rúben Amorim. A Friedkin Group testa a própria paciência na Roma, dando a Gian Piero Gasperini o tempo que a instituição raramente concedeu aos antecessores dele.
Do outro lado estão famílias que tratam o clube como projeto industrial ou pessoal, não como ativo a liquidar — a Exor mantém a Juventus competitiva por prestígio, não por retorno financeiro, enquanto a família Percassi sustenta a Atalanta com o modelo de compra e revenda mais equilibrado da Itália, e a família Commisso segue investindo na Fiorentina mesmo depois de perder, em sequência, o diretor Joe Barone e o próprio proprietário.
No meio desses dois modelos está o Como, que estreia na Champions League financiado por capital indonésio sem histórico de sustentabilidade numa competição desse porte. E no extremo oposto está a Lazio, o único clube da Serie A em que a propriedade não escolhe modelo nenhum — Claudio Lotito segue sob restrição da Covisoc por descumprir o índice de liquidez, e o mercado ficou bloqueado nos dois sentidos.
Embaixo dessa disputa por sustentabilidade, corre outra: pelo menos seis times entram na temporada como candidatos ao rebaixamento, e clubes como Bologna e Parma vendem justamente as peças que os levaram a boas campanhas recentes. As duas brigas — a de cima, por modelo de propriedade, e a de baixo, por sobrevivência — organizam o resto deste guia.
Internazionale
A Inter chega para defender o título sendo, ao mesmo tempo, a favorita isolada da Serie A e um clube que, na Europa, exporta mais talento do que compra. É essa contradição que explica a temporada da Inter melhor do que qualquer lista de reforços: sob controle da Oaktree desde 2024, o clube opera como um fundo administra um ativo, não como um investidor disposto a competir por preço com os grandes do continente. Cristian Chivu venceu o título na primeira temporada completa no cargo; o desafio agora é sustentar o topo com o mesmo modelo financeiro que o levou lá.
A prova está na própria janela. Depois de investir pesado na temporada passada em nomes como Bonny, Sucic, Luis Henrique e Diouf, a Inter fez negócios de reposição neste verão: o lateral Djed Spence, do Tottenham (€ 30 milhões), o meio-campista Aleksandar Stankovic, recomprado do Brugge (€ 23 milhões), o zagueiro Manuel Akanji, que já estava emprestado e foi adquirido em definitivo (€ 23 milhões), o goleiro Ivan Provedel (€ 3 milhões) e o zagueiro John Stones, sem custo de transferência.
Nenhuma dessas operações compete, em valor, com o mercado dos rivais continentais — e o clube sentiu isso na prática ao perder a disputa por Marco Palestra, revelação da última Atalanta, para o Chelsea, que pagou mais tanto ao clube quanto ao jogador, numa operação de € 55 milhões. Do lado das saídas, a Inter perdeu Denzel Dumfries (Real Madrid), Davide Frattesi (Lazio), Matteo Darmian, Stefan de Vrij, Yann Sommer e Francesco Acerbi — e Luis Henrique, reforço da temporada passada que não convenceu, é dado como certo na Roma.
O ponto mais frágil do time está no meio-campo, e é uma questão de idade: Hakan Çalhanoglu (32 anos) e Piotr Zielinski (32) dividem espaço com Nicolò Barella (29) e o veterano Henrikh Mkhitaryan (37), enquanto os nomes mais jovens — Stankovic (21), Petar Sučić (22) e Andy Diouf (23) — ainda não entregam o mesmo nível de decisão em campo, mesmo com Sučić despontando como o de maior potencial entre eles.
Falta também um meia criativo puro: ninguém no elenco cobre de fato a função do camisa 10 brasileiro, o trequartista italiano, e Zielinski ocupa esse espaço só parcialmente. Na lateral direita, Spence é o único nome da posição — Dumfries e Darmian saíram e só um chegou, o que deve obrigar Chivu a improvisar ali em caso de lesão ou suspensão, como Luis Henrique fazia na temporada passada antes de ser reaproveitado como atacante. O gol também é dúvida: Josep Martínez é o titular anunciado, mas não convence, e Provedel, aos 32 anos, parece reforço de curto prazo mais do que solução definitiva.
O contraponto é o ataque, que segue sendo o setor mais completo do elenco. Lautaro Martínez e Marcus Thuram formam a dupla titular, mas atrás deles a Inter tem duas opções de nível: Pio Esposito, que despontou como reserva de peso capaz de substituir qualquer um dos dois sem perda de qualidade, e Ange-Yoan Bonny, contratado na janela passada, que já mostra utilidade em campo. É a única linha do time em que a Inter parece, de fato, coberta para o nível de competição que quer sustentar.
Napoli
Depois do ciclo Conte — dois anos de sucesso, mas de carteira aberta —, De Laurentiis trocou de estratégia de um jeito que também é uma aposta arriscada: contratou Massimiliano Allegri, que acabou de viver a pior segunda metade de temporada da carreira recente, no Milan. O time chegou a brigar pela liderança e desabou até ficar fora da Champions, jogando mal o tempo inteiro — o gosto amargo que sobrou para o torcedor rossonero é exatamente o risco que De Laurentiis está comprando junto com o técnico. Allegri é conhecido por um futebol mais físico e defensivo; o elenco que ele herda foi montado para o oposto, um Napoli que jogou em velocidade e posse de bola até o título.
A folga salarial aberta pela saída de Lukaku — o maior salário do elenco — financiou um mercado de consolidação, não de reforço: o Napoli comprou em definitivo três jogadores que já estavam emprestados. Rasmus Hojlund, do Manchester United (€ 44 milhões), Alisson Santos, do Sporting (€ 16,5 milhões), e Vanja Milinkovic-Savic (€ 6 milhões). A única contratação nova de fato é Constantino Favasuli, de 22 anos, emprestado do Catanzaro por € 1 milhão com obrigação de compra; Miguel Gutiérrez também saiu, para o Bayer Leverkusen. O Napoli comprou o que já tinha, não o que faltava.
E o que falta é justamente o problema. O meio-campo depende demais de Scott McTominay, com Frank Anguissa — um dos melhores jogadores do título passado — precisando recuperar aquele nível, Billy Gilmour lesionado com frequência alta demais para contar, e Stanislav Lobotka como volante confiável, mas sem substituto à altura para Kevin De Bruyne, que joga cada vez menos por lesão e idade — Antonio Vergara desponta como opção, mas ainda é aposta, não solução. No ataque, Hojlund comanda, mas nem Lorenzo Lucca nem Giovane, de perfil diferente, entregam o nível esperado como alternativa a ele.
Na defesa, Alessandro Buongiorno tem talento de sobra, mas não sustenta presença constante em campo; Amir Rrahmani segue confiável, e as laterais são ponto positivo. No fim, são dois problemas empilhados um sobre o outro: um elenco pouco profundo tentando se encaixar num estilo — mais físico, mais defensivo — que não é o dele. Resta saber se é o elenco que vai se adaptar a Allegri, ou Allegri que vai ceder ao que já funcionava.
Roma
A Roma entra na segunda temporada de Gian Piero Gasperini com uma cobrança que não é sobre resultado, é sobre paciência — e paciência é justamente o que a Friedkin Group tem errado em conceder. Da lista de técnicos que passaram pelo clube desde 2020, só um saiu com a sensação de injustiça: De Rossi, demitido depois de um começo ruim mesmo tendo crédito com a torcida e um bom trabalho na temporada anterior. Os outros — Fonseca, Mourinho, Ivan Juric — desgastaram-se ou entregaram trabalhos ruins o suficiente para justificar a saída. Gasperini fez uma primeira temporada boa. A pergunta da Roma em 2026-27 não é se o time vai brigar mais de perto com a Inter, é se a Friedkin Group vai dar a ele o tempo que negou a antecessores.
A resposta, pelo menos em investimento, parece ser sim: a Roma gastou cerca de € 143,5 milhões nesta janela — Donyell Malen comprado em definitivo (€ 45 milhões), Santiago Castro, do Bologna (€ 36 milhões), Rodrigo Mora, do Porto (€ 25 milhões), Konstantinos Koulierakis, do Wolfsburg (€ 16,5 milhões), Nahuel Molina, do Atlético de Madrid (€ 13 milhões), e Daniele Ghilardi, do Verona (€ 8 milhões). Saíram Artem Dovbyk (emprestado ao Bologna), Stephan El Shaarawy (fim de contrato) e Zeki Çelik (para a Juventus).
O ponto fraco do time não é técnico, é físico, e afeta justamente os dois jogadores mais determinantes tecnicamente. Paulo Dybala aceitou reduzir o próprio salário para permanecer no clube, mas joga pouco: sua condição física está bem abaixo da média do elenco. Lorenzo Pellegrini tem o mesmo problema por trás de um nível técnico alto — irregular, também sofrendo fisicamente. Some-se a isso uma carência histórica de centroavante confiável (Dovbyk nunca convenceu de fato), resolvida em parte por Malen e reforçada por Castro nesta janela.
Falta também profundidade no meio-campo. Manu Koné é um jogador excelente e tecnicamente perfeito para o estilo de Gasperini, mas não tem substituto à altura; Niccolò Pisilli tem potencial para ser titular, mas ainda é jovem; Bryan Cristante é confiável sem ser determinante; Neil El Aynaoui é um bom nome com espaço para crescer, e Muhammad Bah, da base, carrega boas expectativas. É um setor que depende de uma peça só entregando o nível ideal — exatamente o tipo de dependência que a fragilidade física de Dybala e Pellegrini já expõe em outras posições do time.
Como
A pergunta mais interessante sobre o Como vai além de saber se repete a quarta colocação — é quem está pagando a conta, e até quando. O clube é controlado pelos irmãos indonésios Robert Budi Hartono (51%) e Michael Bambang Hartono (49%), donos de fortuna estimada em mais de US$ 50 bilhões combinados, originada do conglomerado Djarum — tabaco, bancos, imóveis e tecnologia — e administrada por uma holding sediada em Londres, a Sent Entertainment. Em dois anos e meio, os irmãos injetaram € 328 milhões no clube. No último balanço fechado, em 30 de junho de 2025, o Como registrou prejuízo de € 105 milhões — quase o dobro do próprio faturamento, de € 55 milhões.
Até aqui, a Hartono family bancou esse rombo sem cobrar plano de pagamento nem exigir contrapartida esportiva imediata. O problema é que a Champions League muda o tamanho da fiscalização: a Uefa aplica ao Como, pela primeira vez, a regra de perdas acumuladas (limite de € 60 milhões em três anos) e o índice de custo de elenco, que trava gastos com salários, contratações e agentes em 70% da receita a partir desta temporada. As apostas do clube pra se equilibrar são três: a própria receita da Champions (algo como € 40 milhões entre premiação e cota de TV), a valorização do elenco, que abre espaço pra vender com lucro. Se nada disso bastar, um acordo de conformidade negociado direto com a Uefa. Ou seja: a temporada que valorizou o elenco a ponto de o Como superar Milan e Juventus na tabela é uma faca no pescoço que pode fazer o clube ter que vender seus destaques na próxima temporada para que o clube continue dentro das regras.
No campo, o projeto seguiu o roteiro até aqui: Cesc Fàbregas recusou a Inter na temporada passada para continuar no comando, e o clube manteve praticamente todo o time titular, com reforços pontuais — o zagueiro Trevoh Chalobah, do Chelsea, chega pronto para jogar; Yan Couto (emprestado pelo Dortmund) e Kaiki (comprado do Cruzeiro) reforçam as laterais, ambos brasileiros com potencial de seleção; e Álvaro Morata, aos 33 anos, foi comprado em definitivo e segue como opção de banco. O nome que segura tudo isso continua sendo Nico Paz, mantido apesar do interesse de clubes maiores.
A lacuna do time é o centroavante: hoje a posição é de Anastasios Douvikas, com Morata como alternativa, e nenhum dos dois é solução definitiva. Repetir o quarto lugar da temporada passada parece difícil. É mais realista esperar o Como no meio da tabela, ainda mais tendo que dividir atenção com a estreia na Champions.
Milan
O Milan aposta em Rúben Amorim depois do fracasso no Manchester United — um clube cujo caos recente serve mal de parâmetro pra julgar qualquer técnico —, mas monta o projeto em cima de uma contradição que o próprio Amorim ainda não resolveu: o sistema 3-4-2-1 que ele sempre jogou depende de alas, e a lateral direita do Milan não tem sequer um titular natural na posição, quanto mais um reserva. A solução até aqui tem sido improvisar um atacante ali ou puxar um zagueiro pra função — remendo, não resposta.
A janela custou caro: Gonçalo Ramos, do PSG (€ 74 milhões, a contratação mais cara da história do clube), Diego Moreira (€ 50 milhões), Mario Gila (€ 30 milhões) e Sankhoun Diawara (€ 2 milhões) — quase € 156 milhões investidos, a maior parte concentrada num único setor do campo, o ataque. Rafael Leão e Santiago Giménez estão no mercado — Giménez porque rendeu mal desde que chegou, Leão porque perdeu a versão que ajudou o Milan a ser campeão.
A lateral direita é o problema mais grave, mas não o único: o meio-campo é consistente na base titular, mas não tem profundidade — os reservas não entregam o mesmo nível de Ricci, Rabiot e Modrić, e qualquer lesão ali expõe o time. Ardon Jashari e Yunus Musah (que voltou de empréstimo) e Ruben Loftus-Cheek (que ainda pode sair) são as opções no setor.
O ataque concentra o maior paradoxo do elenco: talento de sobra, mas quase ninguém entregando o esperado em sequência. Christian Pulisic, o jogador tecnicamente mais capaz de liderar o time, fez a primeira metade de 2025/26 em nível altíssimo e depois caiu de rendimento e virou refém de lesões físicas recorrentes. Christopher Nkunku jogou pouco pelo mesmo motivo e, quando jogou, não mostrou a qualidade esperada. Gonçalo Ramos é, em tese, a solução pro centroavante, mas ainda é uma incógnita real, não uma certeza. É um time montado com nomes de nível europeu que, individualmente, quase nenhum sustentou a temporada inteira em 2025/26 — o desafio de Amorim vai além da questão tática e será fazer esse elenco jogar o quanto ele é capaz de jogar.
Juventus
A Juventus é o único dos grandes clubes até aqui que não pertence a um fundo de investimento — é controlada pela Exor, a holding industrial da família Agnelli, dona também da Fiat/Stellantis, da Ferrari e de outros negócios italianos, incluindo jornais. A lógica de dono é outra: não é valorizar o clube pra revender mais adiante, é mantê-lo competitivo como ativo de prestígio da família. E é uma lógica que já custou caro: nos últimos anos, a Juventus tentou competir financeiramente com clubes-Estado como PSG e Manchester City, maquiou contas pra sustentar esse padrão de gasto e foi punida por isso — o escândalo que ainda pesa sobre o processo de reconstrução em que o clube está agora.
A reconstrução tem preço alto. O balanço mais recente (2024/25) trouxe prejuízo de € 58,1 milhões — mais que reduzido pela metade frente ao ano anterior, mas prejuízo mesmo assim —, e a Exor aprovou aumento de capital de até € 110 milhões pra sustentar o clube. Ainda em outubro, a demissão de Igor Tudor custou outros € 7,6 milhões em rescisão. Tudor sempre foi uma aposta emocional — interino, ídolo do clube, promovido ao cargo definitivo depois de um começo de bons resultados — e o contraste com a contratação seguinte não podia ser maior: Luciano Spalletti é nome pesado, e em dois meses de trabalho já convenceu o clube a antecipar conversa de renovação até 2028.
Mesmo prejudicada, a Juventus foi ao mercado gastar cerca de € 104 milhões nesta janela: Randal Kolo Muani, do PSG (€ 38 milhões), Jhon Lucumí, do Bologna (€ 19,5 milhões), Kerim Alajbegović, do Bayer Leverkusen (€ 30 milhões), e Jeff Ekhator, atacante de 19 anos revelado pelo Genoa (€ 16,5 milhões) — mais Guglielmo Vicario emprestado do Tottenham, com opção de compra, e Zeki Çelik, que chegou livre da Roma. Saíram Dusan Vlahovic e Filip Kostic, por fim de contrato, e Lois Openda, emprestado à Lyon.
O ponto fraco da temporada passada foi a falta de constância — e, dentro disso, a falta de um artilheiro de verdade: nem Jonathan David nem Openda entregaram gols suficientes. Kolo Muani deve resolver isso, com Ekhator como reserva de longo prazo e espaço aberto pra negociar Arkadiusz Milik e o próprio David. O time também segue sem um meia criativo de ofício — resolve isso de forma indireta, com Kenan Yildiz armando saindo de ponta (o jogador mais decisivo do elenco), além de Francisco Conceição, Alajbegović, Jérémie Boga e Edon Zhegrova dando profundidade ao setor ofensivo.
No meio-campo, Douglas Luiz voltou de empréstimo e tem se mostrado bem na pré-temporada — se ganhar espaço de fato, é reforço pra essa carência, e ajudaria também a seleção brasileira a ter mais um nome em condição de jogo. Nico González também voltou de empréstimo, mas parece sem espaço e pode ser negociado.
Atalanta
A família Percassi comanda o clube há 16 anos com um modelo que já gerou quase € 800 milhões em mais-valias de venda de jogadores e fecha o décimo balanço seguido no azul — o oposto de tudo que vimos até aqui, uma máquina financeira que não depende de fundo nem de acionista bancando prejuízo.
A pergunta desta temporada é de identidade: Sarri chega com um estilo, em tese, mais próximo do de Gasperini do que os antecessores tiveram, mas “em tese” é a palavra certa — o motor de dinheiro sobrevive a qualquer técnico, a pergunta é se o motor de jogo sobrevive à saída do único que o construiu.
O mercado confirma o modelo: a única contratação de peso foi Gianluca Gaetano, do Cagliari (€ 12 milhões), mais Thomas Kristensen, emprestado sem custo pela Udinese. Do lado das vendas, veio o lucro — Marco Palestra para o Chelsea (€ 55 milhões), Marco Brescianini em definitivo para a Fiorentina (€ 10 milhões) e Berat Djimsiti para o Al-Diriyah (€ 3 milhões).
A defesa é o ponto frágil — Giorgio Scalvini é muito bom, mas lesiona-se com frequência, e Kristensen ajuda a dar profundidade ali. O meio-campo e as alas estão bem cobertos; as pontas, menos, mas há opções pra evitar depender delas, como De Ketelaere, Samardzic e Raspadori. No fim, é elenco bom o bastante pra brigar por vaga europeia.
Fiorentina
A Fiorentina entra na temporada tentando provar que o investimento sobrevive à tragédia. Depois das mortes do diretor Joe Barone, em outubro, e do proprietário Rocco Commisso, em janeiro, a família Commisso manteve o aporte financeiro no clube — mais de € 120 milhões em contratações neste mercado, a continuidade de um projeto que já passou de € 600 milhões desde a chegada do grupo.
O dinheiro nunca foi o problema da Fiorentina nos últimos anos; o problema foi transformar investimento em resultado. Na temporada passada, o time entrou na briga direta contra o rebaixamento com um elenco que, no papel, deveria estar brigando por vaga europeia. Fabio Grosso assume agora com a missão de resolver essa distância entre orçamento e tabela.
O mercado reforça a leitura de reconstrução ampla: Christ Inao Oulai (meio-campista, ex-Auxerre, € 26 milhões), Arthur Atta (€ 25 milhões), Mateo Pellegrino (ex-Parma, centroavante, € 22,5 milhões), Viery (zagueiro, vendido pelo Grêmio, €15 milhões), Giovanni Fabbian (€ 13 milhões), Marco Brescianini (comprado da Atalanta, que já o tinha emprestado ao clube, € 10 milhões) e Víctor Valdepeñas (zagueiro canhoto, comprado do Real Madrid, € 8 milhões) somam € 120,8 milhões, e ainda chegaram Radu Dragusin (zagueiro, emprestado do Tottenham, €1,5 milhão) e João Mário (emprestado, € 1,8 milhão) — total de €122,8 milhões. Fecham a lista os empréstimos sem custo de Franco Mastantuono e Álex Jiménez.
Lazio
Gennaro Gattuso assume a Lazio três meses depois de deixar a seleção italiana, em abril, no rescaldo da eliminação nas eliminatórias da Copa do Mundo — a terceira vez seguida que a Itália fica fora do Mundial. Ele tenta reconstruir a própria imagem justamente num clube travado pela própria contabilidade: a Lazio de Claudio Lotito segue sob restrição da Covisoc por descumprir o índice de liquidez, e neste mercado o bloqueio pesou nos dois sentidos, barrando contratações e travando até a saída de Alessio Romagnoli, negociação que não avançou.
O mercado andou dentro desse limite. A Lazio vendeu Mario Gila ao Milan por €30 milhões e usou parte do dinheiro para tapar dois buracos: comprou em definitivo Boulaye Dia, que já estava emprestado (€11,3 milhões), e trouxe Davide Frattesi por empréstimo do Inter, com cláusulas de compra (€5 milhões de fee), para ser titular no meio-campo.
Completam a lista Alfonso Pedraza, lateral esquerdo livre do Villarreal, Danilho Doekhi, zagueiro livre do Union Berlin como substituto direto de Gila, e Bruno Galassi, meio-campista de 19 anos que sai da base do Real Madrid como aposta de baixo custo. Gasto confirmado: €16,3 milhões — modesto até para o padrão contido que o próprio clube se impõe.
O elenco tem um desenho claro: o ataque é o ponto forte, com o capitão Mattia Zaccagni, Matteo Cancellieri e o próprio Dia; o meio-campo ganha profundidade real com Frattesi ao lado de Nicolò Rovella e Kenneth Taylor. O problema é a defesa — Romagnoli carrega histórico de lesões e Doekhi ainda não provou nada na Serie A — e a falta de opções por trás dos titulares em praticamente todas as posições. O time terminou a Serie A passada em 9º lugar, com 54 pontos, e Gattuso herda um elenco que resolve bem no ataque e improvisa no resto.
Briga contra o rebaixamento
Venezia, Frosinone e Monza sobem sem fazer nenhuma contratação de peso, e a Serie A tem histórico recente de punir promovidas que tentam se manter sem reforçar o elenco à altura da elite. As três se encaixam nesse padrão e devem sofrer.
Lecce, Genoa e Cagliari carregam o mesmo problema por outro caminho: perderam jogadores importantes no mercado e não repuseram com qualidade equivalente. Nenhum dos três chega mais forte do que terminou a temporada passada, e os três seguem na lista de candidatos ao rebaixamento.
O Bologna é o caso mais complexo do grupo. Terminou em 8º e tem elenco para brigar pelo meio da tabela, com meio-campo decente e ataque interessante, mas vendeu Santiago Castro e Jhon Lucumí justamente para Roma e Juventus, dois concorrentes diretos, e a defesa segue como ponto fraco. A dúvida é sobre Domenico Tedesco: o trabalho de Thiago Motta levou o clube à Europa e o de Italiano levou à conquista da Copa da Itália, e ainda não está claro se o sucessor sustenta esse patamar.
O Parma perdeu o goleiro Zion Suzuki, vendido ao Aston Villa, e o centroavante Mateo Pellegrino, negociado com a Fiorentina — as duas peças mais valiosas do elenco. A resposta veio modesta: José David Romero, centroavante argentino comprado do Tigre por € 7 milhões, chega como aposta direta para substituir Pellegrino, e El Bilal Touré desembarca por empréstimo da Atalanta como o reforço mais interessante da janela. Fora isso, o clube manteve Franco Carboni, lateral esquerdo que já estava emprestado pelo Inter e virou contratação definitiva, e aposta no que vem da base para completar o time.
PODCAST MEIOCAMPO #256
A Serie A, na Itália, e a Premier League, na Inglaterra, começam no fim de semana e fazemos uma prévia dessas duas competições. Tem ainda a estreia de Real Madrid e Barcelona em La Liga, que só começam na segunda rodada. e ainda tem competições europeias em fases preliminares.
Giro
Por Bruno Bonsanti
- O Manchester City contratou nove jogadores nas duas janelas de 2025. O começo de uma reformulação cuja necessidade ficou clara durante a pior temporada sob o comando de Pep Guardiola. E para um clube que construiu seu sucesso com uma política de mercado implacável, a taxa de acerto não foi alta. Do primeiro pacote, o que ajudou a estancar a sangria em janeiro daquele ano, Vitor Reis fez quatro jogos, Nico González é reserva, Abdukodir Khusanov deveria ser reserva e Omar Marmoush está prestes a ir embora. Do segundo, apenas Gianluigi Donnarumma e Rayan Cherki têm um papel relevante. James Trafford foi repassado e às vezes é difícil lembrar que Rayan Aït-Nouri continua por lá. Até Tijjani Reijnders, que teve bons momentos, não emplacou. O alento é que o City não tem precisado pagar pelos seus erros. Vendeu Reijnders para o Al-Qadsiah, da Arábia Saudita, por mais do que havia pagado para tirá-lo do Milan.
- O Arsenal poderia usar o jovem Cristhian Mosquera enquanto William Saliba se recupera de uma lesão nas costas, ou alguns dos laterais que têm passado como zagueiros. Mas um time pronto pode se dar alguns luxos. O campeão inglês pagou € 60 milhões por Ezri Konsa, do Aston Villa, exatamente o perfil que tem buscado no mercado: jogadores prontos e com experiência de Premier League para deixar o melhor elenco da Inglaterra ainda mais completo. No outro lado do negócio, estamos perto do ponto em que dá para falar de desmanche. Além de Konsa, o Villa perdeu Morgan Rogers, Youri Tielemans, Lucas Digne e deve negociar Emiliano Martínez, todos pilares do time de Unai Emery. O futuro do artilheiro Ollie Watkins também é incerto.
- O que sugere a saída de Emiliano Martínez é que o Aston Villa trouxe o seu substituto. É curioso o quanto um goleiro desse calibre ficou disponível nos últimos anos, e em meio a tantas saídas, talvez fosse importante manter um dos líderes de vestiário. O clube, porém, preferiu rejuvenescer a posição com a contratação do japonês Zion Suzuki, que fez uma boa Copa do Mundo e tem apenas duas temporadas como titular em uma das grandes ligas. Aos 24 anos, ainda é jovem para goleiro e pode evoluir, mas é mais uma incerteza para o Villa.
- Curtis Jones nunca encontrou o seu espaço no elenco do Liverpool. Entrou e saiu do time, foi testado em várias posições, nunca pareceu uma solução. A temporada passada foi a em que teve mais minutos na Premier League. Também foi a em que recebeu mais críticas. Protagonizou um episódio estranho na pré-temporada, aparentemente insatisfeito por não ter recebido a braçadeira de capitão quando Szbosozlai foi substituído em um amistoso. Aos 25 anos, estava na hora de mudar de ares e tentar encontrar um clube que lhe desse mais estabilidade. Ele tem qualidade e aprendeu a ser versátil. Tem experiência em todas as posições do meio-campo, como ponta esquerda e até como lateral direito. Por € 30 milhões, uma barganha para a Internazionale.
- Os jogos de ida dos playoffs da Champions League, a última fase preliminar, foram realizados nesta semana. O confronto que mais chama a atenção é entre Fenerbahçe e Lyon, que empataram por 1 a 1 na Turquia, gols de Mason Greenwood e Loïs Openda. Sensação da última temporada, o Bodo/Glimt encaminhou sua vaga na fase da liga batendo o NEC Nijmegen, da Holanda, por 3 a 1 fora de casa. O Celtic fez a mesma coisa abrindo a eliminatória com o Lask, da Áustria, com um 3 a 0 em Glasgow. O único outro time que venceu foi o Hapoel Be’er Sheva, que bateu o Sabah, do Azerbaijão, por 2 a 1. Dínamo Kiev e Viking empataram por 2 a 2, Slovan Bratislava e Celje, por 1 a 1, e Levski Sofia e AEK Atenas, por 0 a 0.
- Também tivemos os primeiros jogos dos playoffs da Liga Europa, com a presença do Benfica. Os portugueses não tomaram conhecimento do AGF, da Dinamarca, e abriram os trabalhos vencendo por 3 a 1 em Lisboa. Anderlecht, Red Bull Salzburg, Besiktas e Estrela Vermelha também começaram em vantagem. O placar mais chamativo foi a goleada de 7 a 0 do Lech Poznan em cima do Thun, da Suíça. O Trabzonspor perdeu em casa do Ferencváros por 1 a 0 e terá trabalho para colocar Mohamed Salah, titular naquela partida, na fase da liga. Na Conference, Monaco, Ajax, Freiburg, Rangers, Getafe e Braga ganharam os jogos de ida, mas Brighton e Atalanta ficaram apenas no empate.
- A Fifa divulgou a tabela da Copa do Mundo Feminina do ano que vem. Confirmou o Estádio do Maracanã como palco da partida de abertura, com presença da seleção brasileira, de uma das semifinais e da grande decisão, marcada para 25 de julho. O país-sede, cabeça de chave do Grupo A, fará seu segundo jogo da fase de grupos na Neo Química Arena, em São Paulo, e o terceiro no Mané Garrincha, em Brasília. O estádio do Corinthians será o mais utilizado. Deve receber dez jogos, à frente do Maracanã e do Castelão, cada um com nove.
- A Uefa e a Concacaf começaram a conversar para formar uma Liga das Nações que uniria as 96 filiadas das duas confederações que se opuseram aos planos de privatização de Gianni Infantino. A ideia seria montar um torneio combinado, que poderia começar ainda em 2028, com fase de grupos, mata-mata e um final four. A Liga A, equivalente à primeira divisão, teria os principais times europeus jogando contra México, Estados Unidos e Canadá. Comercialmente, o novo campeonato juntaria o apelo de seleções como Espanha e Inglaterra com o mercado americano, incluindo partidas realizadas na sede da última Copa do Mundo. A organização seria facilitada pelas duas confederações já terem suas versões da Liga das Nações. A matéria do Guardian diz que não está claro se a Fifa teria que ratificar o torneio, mas alerta que, em um momento de fragilidade de Infantino, qualquer resistência provavelmente seria fútil.
NA EDIÇÃO ANTERIOR DA NEWSLETTER…
Na edição passada, fizemos uma prévia da Premier League. Alguém vai conseguir parar o Arsenal na temporada? Os atuais campeões começam com tudo para conquistar novamente a taça. Confira a prévia de Bruno Bonsanti.
Bom fim de semana!











