Newsletter Meiocampo #212 — 30 de outubro de 2026
A CBF deixou Flamengo e Palmeiras fora da convocação, admitiu que a viagem a Singapura é incompatível com a rodada seguinte do Brasileirão e prometeu que, em 2027, o problema estará resolvido. Já ouvimos essa promessa em 2019 e em 2023, e jogar no dia seguinte continua sendo a forma como a CBF diz respeitar a data Fifa. No Giro, falamos sobre as novidades da lista de Ancelotti, o Arsenal eliminado da Copa da Liga pelo Fleetwood, 18º colocado da quarta divisão, a paixão de Sir Patrick Stewart pelo Huddersfield e o melhor da rodada na Itália e nas copas nacionais.
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Jogar no dia seguinte não é respeitar a data Fifa
por Felipe Lobo
A convocação da seleção brasileira na reta final do Campeonato Brasileiro sempre vem acompanhada de uma discussão que ouvimos há muitos anos: não pode atrapalhar os clubes. O pedido é justo, mas esconde uma pergunta mais grave: por que o trabalho de resolver o calendário recai sobre o técnico da seleção, e não sobre os dirigentes que o desenharam?
A data Fifa de novembro tem jogos desimportantes para o Brasil: dois amistosos em Singapura, contra o Japão (este, um bom adversário tecnicamente) e contra a seleção da casa. A CBF vende há anos, em mais de uma gestão, a ausência de jogos do Brasileirão durante a janela como prova de que respeita a data Fifa. Nem isso é verdade.
Chapecoense x Vasco, jogo atrasado do Brasileirão, está marcado para 14 de novembro, no meio da janela, no mesmo dia de Japão x Brasil. No ano passado, foi pior: a CBF colocou Sport x Flamengo e Santos x Palmeiras durante a data Fifa de novembro, com os dois candidatos ao título desfalcados de seus convocados.
São os mesmos clubes que, neste ano, a entidade diz proteger em caráter excepcional. E, mesmo quando a janela fica livre, ela termina na terça, o jogo em Singapura acaba na manhã de Brasília, e a rodada seguinte do Brasileirão começa na quarta. Não jogar durante a data Fifa e jogar no dia seguinte não é respeitá-la, nem na teoria, nem na prática.
Quando a CBF diz que o calendário respeita a data Fifa, ela desrespeita a nossa inteligência. Ora, não somos palhaços. Como o jogador que atuou, ou esteve no banco, do outro lado do mundo na terça pode jogar no Brasil na quarta à noite? Na Europa, nenhum clube aceitaria esse calendário: as ligas voltam no fim de semana seguinte à janela, nunca na quarta.
Até a regra que a própria CBF criou em 2023, de 48 horas entre o fim da data Fifa e o jogo de quem tem convocados, conta o prazo a partir do fim da janela, e não do desembarque. Para quem volta de Singapura, boa parte dessas 48 horas se passa dentro de um avião. E 48 horas já é menos do que a própria CBF exige entre dois jogos de clube. Desde 2018, por um acordo com a federação dos atletas homologado na Justiça do Trabalho, o regulamento geral de competições fixa um intervalo mínimo de 66 horas entre partidas, o tempo que, segundo o sindicato, os pareceres de fisiologia indicam para a recuperação. O jogador que volta da seleção tem direito a menos descanso do que qualquer outro.
Quem confirmou o problema foi a própria CBF. Na coletiva de convocação, Rodrigo Caetano, coordenador executivo geral de seleções masculinas, admitiu que a viagem é “extremamente desgastante e difícil com uma rodada no dia seguinte”. Daí o critério imposto a Carlo Ancelotti: até um jogador de cada clube brasileiro, e nenhum de Flamengo e Palmeiras, que disputam o título. Os clubes com convocados foram consultados e concordaram. Flamengo e Palmeiras, não: segundo Caetano, não fazia sentido consultá-los, porque não teriam ninguém convocado. A CBF decidiu por eles. Caetano chamou a medida de excepcional e anunciou que, em 2027, não haverá rodada do Brasileirão logo depois da data Fifa de novembro. É a confissão de que o problema existe, e de que tinha solução.
Na mesma tarde, Caetano disse que a prioridade “sempre vai ser a seleção brasileira”. Ancelotti, perguntado sobre o desgaste de Raphinha, que preocupa o Barcelona, foi além: a seleção não precisa de pedido de ninguém e vai chamar os jogadores de que precisa. Vale para o Barcelona. Não vale para Flamengo e Palmeiras. A explicação veio em outra frase de Caetano, dita quase de passagem: o Brasileirão é “também um produto da CBF”. Quando a seleção e o campeonato disputam os mesmos jogadores, a CBF protege o próprio produto, e quem paga a conta é o técnico da seleção.
Ancelotti, aliás, não parece incomodado com a conta. Perguntado sobre Gabigol, explicou que ele nem estava na pré-lista, mas que o critério tinha de ser o mesmo para todos: um jogador do Santos, e o escolhido foi Gabriel Bontempo. O técnico, que tem peso para cobrar a entidade, preferiu defender a restrição a questioná-la.
O detalhe é que a viagem que torna a rodada seguinte inviável foi escolha da própria CBF. É a segunda janela seguida na Ásia ou na Oceania, depois de Austrália e Índia. Na coletiva, um repórter lembrou que só três dos 20 jogos de Ancelotti foram no Brasil e mencionou o peso da receita desses amistosos. Caetano respondeu que de nada serve trazer qualquer adversário para cá. O adversário de 17 de novembro é Singapura, em Singapura.
Nada disso é novo, e a desculpa também não. Em abril de 2019, Rogério Caboclo tomou posse prometendo que o Brasileirão pararia nas datas Fifa. Meses depois, ao lançar o calendário de 2020, a CBF disse ter conseguido “definitivamente liberar” as datas Fifa, num calendário que tinha jogo do Brasileirão um dia depois do fim da janela em junho, outubro e novembro. A pandemia apenas enterrou uma promessa que já tinha nascido furada.
Em 2023, Ednaldo Rodrigues parou o Brasileirão nas datas Fifa e criou as 48 horas de intervalo, uma “antiga demanda dos clubes, que a CBF finalmente vai atender”. Agora, Caetano garante que, em 2027, o problema certamente não vai se repetir. Definitivamente, finalmente, certamente: os advérbios mudam a cada presidente, e o truque continua o mesmo. A ausência de jogos durante a janela, quando existe, vira sinônimo de respeito, e o jogador que volta da seleção continua entrando em campo antes de se recuperar da viagem.
É justo separar as gestões. Samir Xaud assumiu em 2025 e só pode responder pelo que fez desde então, e fez bastante: a profissionalização da arbitragem, o Fair Play Financeiro, a criação da Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (Anresf), a articulação por uma liga unificada e um calendário com menos datas para os estaduais. Elogiamos cada um desses avanços. Mas a promessa sobre a data Fifa não é de Xaud. É da CBF, a instituição, que a renova a cada ciclo com a mesma convicção e o mesmo desfecho. E o nó de sempre continua lá: enquanto os estaduais ocuparem o começo do ano, o Brasileirão terá de se espremer em volta das janelas da Fifa.
Por enquanto, limitar a convocação é fácil, porque são amistosos desimportantes. Mas, segundo o próprio Caetano, as Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2030 devem começar na super data Fifa de setembro e outubro de 2027. Aí não haverá excepcionalidade possível: ou a promessa terá sido cumprida, ou o técnico da seleção vai escolher o time pensando na tabela do Brasileirão. Os clubes não devem pagar essa conta. Ancelotti também não. A conta é da CBF.
A imprensa também tem a sua parte, a começar por não repetir que o calendário respeita a data Fifa só porque a CBF diz. Na coletiva, a pergunta sobre o critério foi feita, e Caetano respondeu. Faltou a pergunta seguinte: se em 2027 dá para não ter rodada depois da data Fifa, por que em 2026 não deu? Ninguém perguntou. Depois, as manchetes se repetiram em torno de um mesmo verbo: Caetano explica. Explicar não é justificar, e transcrever não é apurar. Dirigente que promete tem de ser confrontado com a promessa anterior na mesma coletiva, e não só depois que a nova também vencer.
Há mais de 15 anos cobramos a CBF para que resolva esse problema, e vimos cada presidente prometer o que o anterior não cumpriu. Quando o calendário de 2027 for divulgado, vamos conferir se há espaço para que os clubes recebam seus jogadores e retomem a temporada normalmente. Se não houver, vamos cobrar de novo, com a mesma dureza.
Até lá, vamos aos jogos, com as restrições na convocação. Prepare um café, porque serão jogos matutinos:
Japão x Brasil – 14 de novembro (sábado), 7h15 (horário de Brasília)
Singapura x Brasil – 17 de novembro (terça-feira), 7h (horário de Brasília)
PODCAST MEIOCAMPO #276
Carlo Ancelotti convocou a seleção brasileira para a última data Fifa do ano, que não deve ser das mais empolgantes para os brasileiros de novo. Com limitações em relação a convocados do Brasil, o técnico italiano trouxe algumas novidades. Tem ainda Harry Kane Bola de Ouro, primeiro inglês desde Michael Owen a levar o troféu. E resultados deste meio de semana na Europa.
Giro
Por Bruno Bonsanti
- Sir Patrick Stewart amava futebol. Ou, pelo menos, amava bastante o Huddersfield, clube da região de Yorkshire onde nasceu. Um dos maiores atores de todos os tempos, ele foi levado ao estádio pela primeira vez pelo tio, aos sete anos, e nunca esqueceu a sensação de subir os degraus de uma arquibancada. Precisou ter paciência para sair do purgatório. Os Terriers retornaram à primeira divisão apenas em 2017, 45 anos depois de sua última participação, comandados por David Wagner. Stewart adorava Wagner. Uma das passagens que eu mais gosto foi ele, tão acostumado às câmeras e aos palcos quanto qualquer outra pessoa, admitindo ter ficado intimidado quando teve 15 minutos de conversa com o técnico do Huddersfield. O clube, infelizmente, não teve mais do que dois anos de destaque, entre o acesso e uma salvação na Premier League. Foi rebaixado na temporada seguinte e ficou um tempo na Championship antes de cair para a terceira divisão. O último registro da imprensa inglesa de Stewart em um estádio dá o tom do tamanho da sua paixão: um jogo da League One, em novembro, contra o Crawley, fora de casa.
- Carlo Ancelotti continua garimpando. Sua lista para os amistosos contra Singapura e Japão trouxe mais novidades, começando pelo gol. Bento (27) e Lucas Perri (28) foram convocados, dois goleiros com idade para estarem e chegarem à Copa do Mundo no auge. O primeiro, por jogar na Arábia Saudita, aparece no imaginário do povo brasileiro apenas quando vídeos de suas falhas viralizam nas redes sociais. O segundo está começando sua passagem pelo Torino. Na defesa, destaque para Carlos Augusto, que pode ser uma solução para a lateral esquerda. Ele terá 31 anos no próximo Mundial, tem experiência de altíssimo nível jogando regularmente pela Inter de Milão e a capacidade defensiva de dar equilíbrio à seleção brasileira dos quatro atacantes.
- Do meio para a frente, temos o retorno da Cota Shakhtar. O meia Marlon Gomes, ex-Vasco, e o atacante Alisson Santana, ex-Galo, ganharam suas primeiras chances. João Gomes começou sua carreira pelo Aston Villa de uma maneira meio estranha. Foi expulso na primeira rodada da Premier League e cumpriu três jogos de suspensão. Desde então, porém, tem sido titular da retomada do time de Unai Emery, inclusive em vitórias sobre Tottenham, Newcastle e Manchester City. Allan é a principal novidade na frente. Em parte porque ele tem jogado muito pouco. Foi titular contra o AEK Atenas na Champions League e em duas rodadas da Copa da Liga. Pelo Campeonato Inglês, disputou apenas 10 minutos na vitória sobre o Liverpool.
- Em uma rodada cheia da Serie A, a Lazio manteve seu ritmo impressionante. Goleou o Sassuolo, fora de casa, por 6 a 2, e continua colada na Inter de Milão, que precisou de dois gols contra para bater o lanterna Venezia. Ambas têm 25 pontos. A Roma também achou que deixaria pontos pelo caminho contra o Cagliari quando Daniel Maldini empatou a nove minutos do fim. Rodrigo Mora e Donyell Mallen, porém, arrancaram a vitória. Mais um show de Nico Paz, com gol e assistência, ajudou o Como a superar o Torino fora de casa. Os quatro primeiros colocados ganharam, ao contrário do Milan, que levou uma virada em casa do Bologna, com hat-trick de Samuel Mbangula, e da Juventus, que perdeu do Genoa e parece doidinha para demitir Luciano Spalletti. A Fiorentina chegou a cinco jogos sem vitória, embora não dê para reclamar de um empate com a Atalanta.
- O Fleetwood Town, para os padrões ingleses, é um clube novo. Nasceu em 1908 e conseguiu ingressar na Football League, onde o profissionalismo começa na pirâmide do país, apenas em 2012. Nunca foi além da terceira divisão e, no momento, está na quarta. Na última terça-feira, foi responsável por eliminar o atual campeão inglês da Copa da Liga. O fascinante é que nem se trata da uma potência das divisões inferiores, um Wrexham da vida. O Fleetwood é o 18º colocado da League Two. O Arsenal, claro, usou time misto, cheio de garotos, como os grandes costumam fazer nessa competição. Bateu 26 vezes para gol, teve 78% de posse de bola e criou um xG de 4.94. Então foi uma zebra clássica, embora o goleiro do Fleetwood tenha feito apenas cinco defesas. Nos pênaltis, Bruno Guimarães foi o único que errou. Não zoa. “Vou ser honesto: não treinamos pênaltis nenhuma vez”, reconheceu o técnico do Fleetwood, Matt Lawlor. “Não vou dizer que tínhamos um plano meticuloso para os pênaltis porque não tínhamos. Os rapazes se viraram”.
- Nos outros jogos das oitavas de final da Copa da Liga, destaque para as disputas de pênaltis. Elas foram necessárias para que o Manchester City superasse o Brighton e para que o Liverpool passasse pelo Chelsea. Um momento curioso foi quando Jordan Henderson, capitão de um título de Premier League pelos Reds, atravessou o gramado com a bola nas mãos, dando a impressão de que cobraria o pênalti, sob forte reação de Anfield. Ele até deu uma risadinha antes de entregar a redonda para Morgan Rogers abrir o placar. Ótimas vitórias de Bournemouth e Everton sobre Aston Villa e Newcastle, respectivamente. A próxima rodada terá Crystal Palace x Sunderland, Fleetwood Town x Everton, Manchester City x Bradford City e o dérbi Iraola entre Liverpool e Bournemouth.
- Harry Kane foi merecidamente ovacionado pela Allianz Arena. Exibiu a sua bola de ouro, recebeu aplausos, guarda de honra e depois ficou sentadinho bem confortável no banco de reservas enquanto o Bayern de Munique goleava o Magdeburg, da segunda divisão. Freiburg e Borussia Dortmund precisaram de gols nos acréscimos para avançar à terceira fase com vitórias por 3 a 2 sobre Wolfsburg e Werder Bremen. Com um jogador a menos no segundo tempo, o RB Leipzig sofreu para virar contra o Rot-Weiss Essen, da terceira divisão. A maior zebra foi provavelmente a vitória do Dynamo Dresden sobre o Schalke 04.
- A Copa do Rei realizou sua primeira rodada. Poucas surpresas em uma fase em que times de La Liga encaram alguns amadores, como o Sevilla que venceu o Sporting Hortaleza, que disputava essa fase da competição pela primeira vez em seus 52 anos de história. Todos os clubes dos quais você já ouvi falar avançaram, com exceção do Espanyol, derrotado por 4 a 3 pelo Sestao River, da quarta divisão, e o Oviedo, eliminado pelo Numancia nos pênaltis. Você provavelmente já ouviu falar do Numancia também, então não sei se esse conta. Os jogos de quarta-feira foram adiados por causa de um acidente de trem em Toledo que deixou pelo menos 69 pessoas mortas.
NA EDIÇÃO ANTERIOR DA NEWSLETTER…
Na edição exclusiva para assinantes da última terça, Bruno Bonsanti mostrou como José Mourinho, em poucos meses, montou um Real Madrid melhor que o da temporada passada: mais organizado na defesa, mais disposto a pressionar e tirando um futebol fenomenal de Arda Güler. Ainda não é favorito, mas voltou a ser ameaça nos jogos grandes. Para ler este texto e todas as edições de terça, assine o Meiocampo.
Bom fim de semana!






