Newsletter Meiocampo #202 — 25 de setembro de 2026
O Brasil suou para empatar com a Austrália no primeiro amistoso depois da Copa do Mundo e exibiu uma deficiência conhecida: cadê o meio-campo, professor? Falando em professores, a semana na Europa foi de estreias de técnicos em algumas das principais seleções, de Jürgen Klopp e Xavi Hernández a Zinedine Zidane e Mark van Bommel.
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Sem Matheus Cunha, o Brasil de Ancelotti volta a ter um buraco entre defesa e ataque
Por Felipe Lobo
Durante a Copa, o Brasil de Carlo Ancelotti tinha um jogador que fazia a ligação que o esquema não previa: Matheus Cunha, camisa 9 no papel e terceiro meio-campista na prática. Sem ele, em Townsville, sobrou um time partido em dois, com um meio-campo vazio entre a defesa e o ataque e nenhuma ideia coletiva para preenchê-lo. O empate por 1 a 1 com a Austrália, arrancado no minuto final numa bola parada, retrata um problema que o tão criticado 4-2-4 explica só em parte.
A decepção da Copa do Mundo ainda está muito recente na memória. Os questionamentos aos jogadores e ao treinador ainda ecoam, o técnico é o mesmo e boa parte do elenco também. Seria natural esperar um recomeço hesitante. Mesmo levando tudo isso em consideração, foi uma atuação desanimadora.
Um time da defesa e um time do ataque
Danilo Santos foi titular, recebeu a camisa 5 e atuou ao lado de Bruno Guimarães. O problema é que os dois são mais de conduzir a bola do que de organizar o jogo. Ambos gostam de avançar com ela e, como essa era basicamente a única saída de jogo do Brasil, ficou fácil marcar.
Há outro problema, e esse é fundamental: o espaçamento do time em campo. Havia um time da defesa e um time do ataque. Danilo e Bruno Guimarães desciam para buscar a bola com os zagueiros, enquanto os jogadores ofensivos já estavam posicionados lá na frente. Havia um mundo de distância entre eles.
Para resolver, os dois avançavam com a bola – e facilitavam a marcação. O meio-campo, o lugar dos craques, como já nos dizia o Skank, continuava um latifúndio improdutivo. Deixar o setor vazio pode até ser estratégia, mas, para isso, defesa e ataque precisam estar tão compactos que a conexão aconteça naturalmente. Não era o que acontecia com o Brasil.
Essa desconexão levou muita gente a criticar o 4-2-4 – embora, na prática, seja um 4-2-3-1. O problema está na distância entre o 2 e o 3, grande demais. Raphinha, escalado como camisa 10 – no número e na função –, ficava muito mais perto de Endrick do que de Danilo e Bruno Guimarães.
O que Matheus Cunha fazia
Raphinha pode exercer a função de armador. Estêvão também. Rodrygo, quando voltar, é outra opção. Mas o que estamos vendo é um posicionamento que distancia demais os jogadores. Quem corrigia isso durante a Copa era Matheus Cunha. Embora usasse a camisa 9, atuava como meio-campista, mais perto de Bruno Guimarães do que dos atacantes. Na prática, era ele o terceiro homem do meio. Sem ele, o time não encontrou esse equilíbrio.
As características dos jogadores são diferentes – Raphinha e Matheus Cunha atuam até em faixas de campo distintas –, e é justamente por isso que encontrar esse equilíbrio é trabalho de Ancelotti. Contra a Austrália, não funcionou.
Raphinha tem feito gols de tudo quanto é jeito no Barcelona, mas lá o time funciona de forma completamente diferente: tem o núcleo no meio-campo, controla o jogo e, principalmente, se aproxima muito dos atacantes. No clube, Raphinha não precisa recuar tanto para se encontrar com os meio-campistas. Talvez por isso não tenha feito esse movimento tanto quanto a Seleção precisava.
Tocar para os pontas e torcer
Sem ligação pelo meio, restou o ataque. Endrick recebeu a camisa 9 e a posição de titular. Estêvão, talvez o de maior potencial entre todos, agora veste a 11 e atuou na ponta direita. Vinícius Júnior ficou na esquerda. Sendo rigoroso, nenhum deles se destacou. Estêvão foi quem mais tentou, especialmente no primeiro tempo, e chegou a ter um gol anulado. Raphinha mostrou confiança, mas desperdiçou a melhor chance que teve, no segundo tempo. Vinícius foi apagado, como tem sido no Real Madrid neste início de temporada.
Mais do que a formação, faltaram ideias. Faltou controlar o adversário, atrair a pressão para atacar as costas da defesa, balançar a linha para entrar em diagonal, enfim, algo que desse a sensação de que havia estratégias para além de tocar para Estêvão e Vinícius Júnior e torcer para que eles entortassem o marcador. O individualismo incomodou, e a falta de senso coletivo foi ainda mais irritante. Não por acaso, os dois gols saíram de bola parada: a Austrália marcou de falta com Irankunda, e o Brasil empatou com Rayan, de cabeça, num escanteio cobrado por Raphinha.
É um cenário que o time de Ancelotti vai encontrar constantemente: adversários fechados, que entregam a bola e esperam o erro. Contra eles, um time sem mecanismo de ligação depende do talento individual para sair do lugar. Espera-se mais de uma equipe de Carlo Ancelotti.
O que falta testar
Talvez fosse o caso de testar Breno Bidon e Gabriel Bontempo, dois jogadores de boa qualidade técnica que atuam ofensivamente em seus clubes – com Raphinha centralizado ou no lugar dele, e Endrick na frente. É o tipo de jogador que poderia ocupar o espaço que Matheus Cunha deixou. A ausência deles incomodou justamente porque representariam tentativas de ideias novas. Mas foi só o primeiro de três jogos, e é de se imaginar que Ancelotti teste mais meio-campistas – como o próprio Matheus Martinelli, do Fluminense, outro nome chamado para a meia-cancha.
A terça-feira oferece um teste raro: o mesmo adversário, agora em Brisbane. Não haverá surpresa sobre como a Austrália joga. Se o Brasil voltar a ter um time da defesa e um time do ataque, o problema deixa de ser falta de tempo e passa a ser falta de resposta. Como trabalho para 2030, ainda é cedo, e Ancelotti tem margem para insistir no que acredita que pode funcionar. Mas, até aqui, a avaliação do pós-Copa é negativa.
Fora de campo
Há ainda o que acontece antes de a bola rolar. O Brasil abre o ciclo em Townsville, num estádio de 25.455 lugares no nordeste da Austrália, volta a enfrentar os australianos em Brisbane e fecha a data Fifa contra a Índia, em Calcutá. São três jogos a milhares de quilômetros do torcedor brasileiro, reforçando um distanciamento que já é histórico. A Argentina mostra que havia alternativa: vai receber Bolívia, Burkina Faso e Benin em casa, com o último jogo, no dia 6 de outubro, marcado como a despedida de Lionel Messi no Monumental. Os adversários tampouco são de primeira linha, mas a Argentina joga diante da sua torcida.
Bruno Bonsanti levantou a bola no nosso podcast: não seria melhor para o Brasil jogar na América do Sul, um dos jogos contra a Argentina, no Monumental, na despedida de Messi? Talvez nem uma nem outra confederação quisesse. Mas seria melhor, para ambas, do que os adversários que escolheram.
PODCAST MEIOCAMPO #266
O 1 a 1 com a Austrália, arrancado por Rayan no último lance, não muda a avaliação sobre a primeira Seleção de Ancelotti depois da Copa: o problema não é o 4-2-4, é a falta de ideias. Felipe Lobo e Bruno Bonsanti discutem o time espaçado, o meio-campo sem quem organize o jogo, o encaixe de Rafinha e as novidades da lista. Também falam da estreia de Klopp na Alemanha contra a Holanda de Xavi e da primeira rodada da Liga das Nações.
Giro
Por Bruno Bonsanti
- Demorou um pouco para a partida tomar a cara que se esperava, dado o histórico dos técnicos. Mas a partir de certo momento, a Holanda de Xavi Hernández ficou com a bola e a Alemanha de Jürgen Klopp buscou as transições. Foram estreias distintas. Xavi manteve a base da Copa do Mundo, Klopp fez testes e promoveu novidades. Ainda tem muito chão pela frente na Alemanha, mas deu para ver um time agressivo para tentar recuperar a bola e contra-atacar. Quando a teve nos pés, buscou com frequência a inversão para o lateral direito Philipp… Treu, um dos estreantes da noite. Ele participou da jogada do gol de Felix Nmecha e teve outras boas subidas, embora tenha faltado capricho no toque final. É relevante porque Klopp (finalmente) tirou Kimmich da defesa e o colocou para orquestrar o meio-campo. Os holandeses foram superiores e não conseguiram vencer apenas porque Ter Stegen fez três grandes defesas no segundo tempo, depois de quase falhar várias vezes no primeiro. No outro lado, Karim Adeyemi perdeu um gol quase sem goleiro e mandou duas bolas no lustre. Foi uma boa partida, divertida, e apenas o começo de uma longa jornada para as duas seleções.
- Itália e Bélgica teve um estreante de cada lado. No caso da Itália, um reestreante. Roberto Mancini retornou à seleção depois de abandoná-la para ganhar dinhe… treinar a Arábia Saudita. Foi o resultado de toda aquela novela para contratar um novo treinador. Pela Bélgica, Mark van Bommel estreou mesmo. E levou a melhor sobre o seu colega. A Bélgica ganhou por 2 a 0 e exigiu um punhado de boas defesas de Donnarumma, embora os italianos tenham produzido o bastante para fazer pelo menos um gol. Van Bommel deu uma rejuvenescida no time. Kevin de Bruyne continuou no meio-campo, mas entre os jovens Mika Godts e Diego Moreira, com Nicolas Raskin mais atrás. A Itália teve Francesco Pio Esposito liderando o ataque e Alessandro Romano, meia de 20 anos da Roma, emprestado ao Cagliari, no meio-campo.
- Zidane foi especulado por tanto tempo que seu trabalho nasce velho. Parece que ele é técnico da França há mais tempo do que apenas um jogo. Sua estreia foi difícil. Embora a Turquia tenha sido uma das grandes decepções da Copa do Mundo, tem um time qualificado e bem organizado por Vincenzo Montella. Os números mostram que foi uma partida próxima: 12 finalizações para cada lado e um xG parecido (1.14 x 1.21). Zidane manteve grande parte da estrutura do time de Didier Deschamps, mas posicionada mais em um 4-3-3, com Rayan Cherki mais à direita e mais na altura de Adrien Rabiot que como camisa 10. O gol, como sempre, foi com assistência de Michael Olise para Kylian Mbappé, que parece ter machucado o joelho. Foi uma hiperextensão na hora do chute, segundo Zidane. Ele voltará a Madri para tratamento.
- Quem também estreou foi Jorge Jesus. E com Cristiano Ronaldo liderando o ataque, apesar de ele ter admitido que pensou em se aposentar da seleção. A maior novidade na escalação foi a entrada de Rúben Neves no lugar de João Neves para auxiliar Vitinha na saída de bola. Pedro Neto foi a flecha pela direita e Bruno Fernandes jogou mais aberto pelo outro lado. O único gol foi marcado por João Félix, de fora da área, e Portugal escapou do empate em um lance incrível no qual Lewis Koumas e Daniel James tentaram finalizar a mesma bola, com o gol vazio, e nenhum deles conseguiu. Ronaldo deu sete finalizações. Nenhuma muito boa. Também perdeu um gol difícil de acreditar, principalmente para os seus padrões.
- A talvez ótima, mas ainda jovem geração grega conseguiu uma grande vitória em Belgrado. Pelas estatísticas, o que se seguiu ao gol de Andrija Zivkovic, aos quatro minutos, foi um amasso da Grécia: 61% de posse de bola, 26 finalizações, sete defesas de Milinkovic-Savic e 2.51 de xG. Teve bola na trave, bola que o goleiro foi buscar no ângulo e inúmeras chances criadas por Christos Tzolis (quatro passes para finalização) antes dos gols do ponta do Arsenal e de Anastasios Douvikas, aos 49 minutos do segundo tempo. A badalação com a Grécia tem a ver com a quantidade de promessas interessantes que têm pintado em clubes grandes, como o a dupla do Borussia Dortmund, Konstantinos Karetsas (18 anos) e Giannis Konstantelias (23), o atacante do Brighton Charalampos Kostoulas (19) e o zagueiro da Roma Konstantinos Koulierakis (22), além do próprio Tzolis, um pouco mais velho (24). Se todos emplacarem, reforçarão uma espinha dorsal que tem caras competentes como Vangelis Pavlidis, Konstantinos Mavropanos e Kostas Tsimikas. É para ficar de olho.
- Adivinha quem fez gol? É assustador que uma pessoa tenha 64 gols em 56 partidas pela sua seleção. Erling Haaland se tornar o recordista do futebol internacional masculino parece depender de quanto tempo ele aguentará jogar. O clássico nórdico foi divertido. Oscar Bobb abriu o placar com um belo tapa, antes de Haaland começar sua contagem. A Dinamarca reagiu com uma cobrança de falta perfeita de Mikkel Damsgaard e um gol de Rasmus Hojlund, o Haalandzinho. O centroavante do Manchester City desempatou com uma bomba após jogada ensaiada de escanteio e manteve as boas vibes da Noruega após a grande campanha na Copa do Mundo com uma vitória na sua estreia na Liga das Nações.
- Demorou mais de três anos, mas finalmente saiu um veredito sobre as 115 acusações de irregularidades financeiras contra o Manchester City, considerado culpado em 114 delas. E eu vou ser sincero com vocês: se os melhores e mais caros advogados da história do planeta conseguiram refutar apenas uma das acusações, imagina as provas? A decisão não foi oficializada e o processo ainda não acabou porque cabe recurso. A punição, naturalmente, não foi anunciada, mas pode variar de dedução de pontos e rebaixamento a multas compensatórias e até anulação dos títulos conquistados no período, entre 2009/10 e 2017/18.
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José Mourinho voltou ao Real Madrid em um estilo paz & amor que todos nós sabíamos que não ia durar muito. Bastou uma derrota para o rival Atlético de Madrid que o homem arranjou até uma impressora dentro do estádio para levar fotos para a coletiva. Falamos sobre isso e sobre a fase do Tottenham, com Roberto De Zerbi desanimando. LEIA AQUI!
Bom fim de semana!





