O dia em que Giovanni virou Messias
Trinta anos depois, analisamos como o camisa 10 reverteu o 4 a 1 e entrou para a história.
Newsletter Meiocampo #104 — 2 de janeiro de 2026
O ano de 2025 ficou para trás, mas uma efeméride de dezembro merece ser resgatada antes de seguirmos em frente. No último dia 10, a virada histórica do Santos sobre o Fluminense completou 30 anos. Aproveitamos este recesso do Meiocampo para mergulhar novamente na atuação messiânica de Giovanni, trazendo uma versão atualizada e definitiva dessa história. Mais do que rever gols, revisitar aquela tarde é entender como um jogador pode, sozinho, alterar a realidade de um clube. Voltemos a 1995.
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O dia em que Giovanni teve atuação de Pelé e virou Messias no Pacaembu
Era preciso um milagre. Aquele 10 de dezembro de 1995 exigia dos torcedores do Santos uma dose cavalar de fé. O time precisava reverter um cenário desastroso: havia perdido a ida da semifinal do Brasileiro por 4 a 1 para o Fluminense, no Maracanã, em um jogo que tudo desmoronou. Saiu na frente, teve dois jogadores expulsos (Robert e Jamelli) e viu a situação se tornar crítica. Para avançar à final, precisava vencer por três gols de diferença no jogo de volta. Pior ainda: perdeu também o volante Vagner, com terceiro cartão amarelo.
Parecia impossível. Mas aquele não foi um dia normal. Com os cabelos tingidos de vermelho, Giovanni teve uma atuação digna da camisa 10 que vestia, a de Pelé. Comandou uma virada improvável, transformou o Pacaembu em um caldeirão e fez a torcida santista batizá-lo de Messias.
O abismo financeiro
O contexto fora de campo tornava a missão ainda mais difícil. A Folha de S. Paulo da época destacava a disparidade salarial que separava as equipes. A folha do Fluminense girava em torno de R$ 600 mil mensais — cerca de R$ 5,1 milhões corrigidos pelo IPCA. O valor era quase três vezes superior aos modestos R$ 220 mil do Santos (aproximadamente R$ 1,9 milhão em valores atuais).
Além da vantagem financeira e técnica, o Fluminense de Joel Santana podia perder por até dois gols. O Santos de Cabralzinho, sem Jamelli e Robert (expulsos na ida), foi a campo em um esquema ousado, praticamente um 4-2-4. Macedo e Camanducaia abertos nas pontas, com Giovanni e Marcelo Passos pelo meio, deixando a proteção defensiva quase exclusivamente para Gallo e Carlinhos.
O início da reação
O Santos pressionou desde o início, mas o gol demorou 25 minutos. Camanducaia, infernizando a vida do lateral Ronald, sofreu pênalti. Giovanni cobrou com precisão. Quatro minutos depois, a genialidade começou a aparecer. O camisa 10 recebeu na entrada da área, enganou o marcador no domínio e, de bico, fez 2 a 0. Para quem assistia, a sensação era que o milagre tinha se tornado possível.
A vantagem do Fluminense balançava, mas o placar do intervalo ainda não era suficiente. Foi então que aconteceu o lance que selou a simbiose entre time e arquibancada: os jogadores do Santos não desceram para o vestiário. Ficaram no centro do gramado, ouvindo as instruções de Cabralzinho e sentindo o calor da torcida.
“Decidimos que se a gente estivesse ganhando por 2 a 0 no intervalo, ficaríamos em campo”, revelou Giovanni à época. A atitude incendiou o estádio.
O segundo tempo alucinante
A etapa final foi um teste para cardíacos. Logo aos 6 minutos, Giovanni serviu Macedo, que fuzilou de esquerda: 3 a 0. A vaga era do Santos. Mas, um minuto depois, Rogerinho descontou para o Fluminense. O Santos estava fora de novo.
A angústia durou pouco. Aos 16, Camanducaia aproveitou uma dividida na área para fazer 4 a 1. O placar devolvia a vantagem ao Peixe, mas o jogo ficou aberto. Joel Santana lançou o time ao ataque, e o Santos encontrou espaços para o contragolpe.
Foi quando Giovanni, atuando com liberdade total para flutuar entre o meio e o ataque — muitas vezes funcionando como um centroavante de referência na bola longa —, protagonizou o lance definitivo.
Aos 38 minutos, cercado por dois marcadores e de costas para o jogo, ele tirou um coelho da cartola: um passe de calcanhar que desmontou a defesa tricolor. Marcelo Passos recebeu livre, avançou e bateu colocado: 5 a 1. Rogerinho ainda descontaria dois minutos depois, mas já era tarde.
O legado
O Santos venceu por 5 a 2. Não levou o título daquele ano — perderia a final para o Botafogo em jogos marcados por polêmicas de arbitragem —, mas aquele 10 de dezembro entrou para a história.
Giovanni foi eleito o Bola de Ouro da Placar naquele campeonato. Renato Gaúcho, craque do outro lado, teve uma tarde para esquecer, errando tudo o que tentou. No fim, o que ficou foi a imagem de um camisa 10 que, por 90 minutos, jogou tanta bola que a única nota possível para sua atuação era o número de sua camisa.
Aquele ano, aliás, consagrou o meia com números de centroavante: foram 38 gols em 61 jogos (média de 0,62). O brilho seguiu no Paulista de 1996, quando foi artilheiro com 24 gols mesmo enfrentando a máquina do Palmeiras de Luxemburgo.
Em junho de 96, ele partiria para o Barcelona. Ainda voltaria à Vila Belmiro em 2005 e 2010 para encerrar a carreira, mas sua canonização já estava garantida muito antes. Para a torcida alvinegra, Giovanni será sempre o milagreiro de 1995.
O Santos não foi campeão em 1995, mas naquela tarde, Giovanni foi Pelé. E para a torcida, virou Messias.
FICHA TÉCNICA
Santos 5×2 Fluminense
Local: Pacaembu, São Paulo
Data: 10/12/1995 | Público: 28.090 pessoas
Árbitro: Sidrack Marinho dos Santos (SE)
Gols: Giovanni (25’ e 29’/1T), Macedo (6’/2T), Camanducaia (16’/2T) e Marcelo Passos (38’/2T) para o Santos; Rogerinho (7’ e 40’/2T) para o Fluminense.
SANTOS: Edinho; Marquinhos Capixaba, Ronaldo, Narciso e Marcos Adriano; Gallo e Carlinhos; Macedo, Giovanni, Marcelo Passos (Marcos Paulo, depois Pintado) e Camanducaia (Batista). Técnico: Cabralzinho.
FLUMINENSE: Wélerson; Ronald, Lima, Alê (Gaúcho) e Cássio; Vampeta, Otacílio e Aílton; Valdeir (Leonardo), Renato Gaúcho e Rogerinho. Técnico: Joel Santana.
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