O dia em que o Equador fez o impossível
O Equador chegou à última rodada precisando derrotar a Alemanha para passar de fase, o que até o seu treinador considerava quase impossível - e, no fim, não foi
Newsletter Meiocampo #163 — 26 de junho de 2026
Esta é a maior Copa do Mundo da história. Não é um juízo de valor, é uma constatação: com 48 seleções, temos muito mais jogos. E era de se esperar que batesse o recorde de público também, que foi o que aconteceu. O recorde de mais público em uma Copa era da última edição nos Estados Unidos. E foi batido no jogo que é destaque nesta edição: Equador x Alemanha. Os equatorianos fizeram o impossível e estarão nos 16 avos de final. Falamos dos jogos do dia também, com diteito à definição do adversário do Brasil nos 16 avos de final.
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O dia em que o Equador fez o impossível
Por Bruno Bonsanti
Sebastián Beccacece, espero que tenha acertado onde ficam todos os c’s, havia classificado como impossível o que o Equador precisava para continuar na Copa do Mundo. Talvez estivesse em posse desta estatística: a Alemanha nunca tinha sido derrotada por uma seleção sul-americana na fase de grupos e, no geral, perdera apenas duas vezes - nas decisões de 1986 e 2002 para Argentina e Brasil. Logo, historicamente, ele tinha razão, embora tenha acrescentado que “talvez o seu time conseguisse tornar o impossível possível”.
Àquela altura da sua participação na Copa do Mundo, mesmo essa dose moderada de otimismo era um corpo estranho em meio ao clima negativo que tomou conta do Equador após as duas primeiras rodadas. As expectativas eram altas. Havia chegado ao seu quinto Mundial após se classificar em segundo lugar, com dois titulares da final da Liga dos Campeões na defesa e uma sequência de 19 jogos de invencibilidade, durante a qual empatou com o Brasil e venceu a Argentina.
Tudo isso se dissipou quando o Equador terminou uma das melhores partidas da primeira rodada derrotado pela Costa do Marfim, embora fosse tão plausível quanto que vencesse, e transformou o goleiro de Curaçao no recordista de defesas em uma partida de Copa do Mundo em que não houve prorrogação. Quando descrevo dessa maneira, talvez as críticas tenham sido um pouco exageradas. Os resultados foram ruins, e a dificuldade de colocar a bola na casinha preocupava, mas havia elementos para acreditar que faltava apenas um pouco de sorte e/ou capricho para a maré virar.
Se era uma crença que Beccacece compartilhava, ele escondeu muito bem. Com exceção do breve trecho em que sugeria ser capaz de fazer o impossível, suas declarações eram em tom de despedida. “Sinto muito não ter conquistado o coração dos torcedores equatorianos. Não cliquei com eles. Tem algo em mim que eles não gostam e tudo bem. Preciso aceitar”, disse, acrescentando que preferiria que os insultos fossem direcionados a ele e não aos jogadores. “Ainda temos uma possibilidade de avançar. Se as coisas não acontecerem, eu terei que ir embora. Eu gosto daqui, mas sei que futebol é feito de resultados”.
O problema da minha sugestão de manter a calma até a maré virar era que o tempo estava acabando. O Equador precisava da vitória para avançar em terceiro lugar e não contaria nem com a benevolência de Julian Nagelsmann, que entrou com força máxima para tentar manter o embalo da fase de grupos no mata-mata e logo abriu o placar com Leroy Sané, após um controverso chapéu de Pavlovic.
Depois de Beccacece, o principal para-raio das críticas ao Equador era o veterano Enner Valencia, que tem um bom histórico em Copas, com três gols em 2014 e três em 2022. Mas, aos 36 anos, está na fase final da sua carreira, como o torcedor do Internacional teve o privilégio de testemunhar em primeira mão antes da sua transferência para o Pachuca, do México. A chance que desperdiçou logo no começo do empate com Curaçao - composto, na marca do pênalti, sem pressão, de frente para o gol - o perseguirá por muito tempo. Mesmo assim, foi mantido como titular para fazer seu nono jogo em Mundiais e se isolar como o equatoriano com mais partidas na história da competição
Perdeu a posse de bola sete vezes, não acertou um drible e deu apenas duas finalizações, uma delas até que perigosa. Saiu na metade da etapa final, com o placar empatado, porque, na ausência da velha guarda, foi a juventude quem assumiu a responsabilidade. Nilson Angulo, garoto de 23 anos do Sunderland, acertou um chute de fora da área, apenas sete minutos depois do gol de Sané.
O primeiro tempo foi lá e cá, mas o Equador subiu muito de nível depois do intervalo, em parte porque, como dizem os comentaristas de basquete dos EUA, não dá para fingir desespero. As antigas dúvidas sobre a segurança da defesa da Alemanha retornaram - o último jogo de Copa que a tetracampeã não foi vazada foi a final de 2014 -, enquanto os equatorianos tentavam de tudo para concretizar a virada, ainda que as estatísticas não reflitam: apenas sete finalizações no total.
Manuel Neuer chegou à Copa do Mundo de última hora. Estava aposentado da seleção desde a Eurocopa, mas, após um final forte de temporada pelo Bayern de Munique, aceitou a convocação de Nagelsmann. Justo e, ao mesmo tempo, nem tanto, porque tirou a oportunidade de Oliver Baumann, titular ao longo do ciclo. A ideia era que a qualidade de um dos melhores goleiros da história compensaria. No entanto, mesmo nas partidas anteriores, o veterano pareceu hesitante, com o poder de reação um pouco lento, e depois de pular estranho no gol de Angulo, virou estátua diante de Gonzalo Plata, que marcou o segundo do Equador.
E transformou o impossível em possível.
“Agora é a hora de comemorar”, disse Beccacece, com a felicidade e o alívio de quem visitou o inferno e conseguiu voltar. “Hora de compartilhar o sentimento com a família, com os amigos, de tomar uma cerveja”.
“Futebol é assim: um dia você ganha, no outro você perde. Não acho que éramos melhores que Curaçao, nem sentimos que éramos inferiores à Alemanha. Vamos seguir em frente, com humildade e prudência”.
Boletim da Copa
Por Felipe Lobo
A Copa do Mundo de 2026 bateu o recorde de público da história do torneio: 3,6 milhões de pessoas. Era um recorde óbvio de ser batido porque a Copa aumentou significativamente de tamanho. O recorde anterior, curiosamente, era justamente da edição de 1994, a anterior a acontecer nos Estados Unidos. O recorde foi batido no jogo entre Equador e Alemanha, na terceira rodada do Mundial, que foi jogada para 80.663 pessoas. Como ainda temos metade da Copa pela frente, o recorde será muito maior do que o anterior. A Copa de 1994 era significativamente menor, com apenas 24 seleções e, portanto muito menos jogos, 52. A atual Copa já passou desse número com sobras. Apesar dos ingressos caros, os estádios enormes tem uma influência nisso. Veremos qual será a marca final deste mundial.
Equador 2x1 Alemanha: Se para o Equador a vitória foi histórica, para os alemães é um sinal de alerta. Um dos motivos para isso acontecer foi o meio-campo: Felix Nmecha não fez uma partida tão boa quanto vimos nos outros dois jogos desta Copa. A formação com três zagueiros escolhida por Julian Nagelsmann não funcionou tão bem. O gol logo no começo mascarou isso, com Sané abrindo o placar. O gol de empate também veio rápido, com Nilson Ângulo. Só um dos dois times precisava vencer e a Alemanha nunca pareceu motivada o suficiente para fazer mais do que vimos em campo. Jonathan Tah teve um jogo muito ruim e mesmo com um time recheado de jogadores criativos com o trio formado por Florian Wirtz, Jamal Musiala e Kai Havertz, o time sofreu para criar chances. Quando sofreu um gol, a Alemanha não pareceu ter a mesma motivação para buscar o gol. Na próxima fase, o time não terá essa opção. E talvez seja hora de colocar Deniz Undav desde o começo do jogo – ele só entrou no segundo tempo. Nos 16 anos de final, a Alemanha deve ter um adversário acessível. Nas oitavas de final, nem tanto. O Equador ainda espera para ver quem será o adversário, mas é provável que seja adversário do México, em um duelo latino-americano.
Curaçao 0x2 Costa do Marfim: Os marfinenses tinham uma missão que não era tão complicada assim. Curaçao, porém, foi uma equipe digna. Pouco conseguiu fazer para causar problemas no ataque, mas resistiu o quanto pôde na defesa. Não foi suficiente. O primeiro gol saiu logo a sete minutos, depois de excelente jogada de Yan Diomandé, que rolou para Nicolás Pépé no meio da área finalizar para marcar. No segundo tempo, Ibrahim Sangaré foi quem acionou Pépé, que chutou bonito para marcar 2 a 0. Os gols vieram naturalmente para um time que era claramente superior. Mesmo assim, Curaçao deixa a Copa tendo feito um papel digno, mesmo em último lugar, com um ponto. Os Elefantes avançam à fase eliminatória pela primeira vez em sua história, depois de cair na fase de grupos nas suas três participações. Os marfinenses esperam a definição do seu adversário, que será Noruega ou França, quem ficar em segundo no grupo I.
Japão 1x1 Suécia: Os japoneses eram favoritos pelo futebol apresentado nas suas primeiras rodadas, diante de uma Suécia que foi do céu ao inferno – goleou a Tunísia por 5 a 1 e tomou 5 a 1 da Holanda. O time do Japão é coletivamente muito maduro, mas não cria tantas chances de gol quanto poderia. O primeiro tempo foi dos Samurais Azuis, mas foram poucas chances. Só no segundo tempo que o placar foi aberto. Aos 55 minutos, uma linda troca de passes pelo meio que Daizen Maeda completou para o fundo da rede. Só que Anthony Elanga empataria, em um belo chute de fora da área. Depois disso, os japoneses passaram a tentar controlar o jogo e os suecos foram para uma tentativa de abafa. Segundo o repórter da Globo, Marcelo Courrege, tanto japoneses quanto suecos queriam evitar a França e preferiam o Brasil. Bom, os japoneses vão poder realizar a vontade, porque será o adversário do Brasil.
Tunísia 1x3 Holanda: Os neerlandeses precisavam apenas fazer o seu papel. A Tunísia se mostrou um time terrível nas duas primeiras rodadas e a Holanda era, na teoria, o mais forte. E em 10 minutos, a Holanda resolveu o jogo com gols de Ellys Skhiri, contra, e Brian Brobbey. No começo do segundo tempo, Hazem Mastouri diminui, dando alguma cor ao jogo, mas rapidamente Jean Paulvan Hacke marcou o terceiro para fechar o placar em 3 a 1. A Oranje dominou as ações e controlou o jogo até o fim. Garantiu a primeira posição na chave e enfrentará Marrocos nos 16 avos de final, em Monterrey.
Paraguai 0x0 Austrália: Os dois times chegaram a última rodada sonhando com a segunda posição do grupo. Quem vencesse ficaria com a posição e o empate favorecia a Austrália. O empate até poderia classificar os dois times, mas o Paraguai ficaria pendurado: os resultados até o fim da fase de grupos deixariam a equipe correndo risco de eliminação. Por isso, se contentar com o empate era perigoso. Tudo isso era teoria, porque na prática os dois times fizeram um jogo bastante ruim. Foi um jogo de pouquíssimas chances e que, no fim, o placar não saiu de um parco 0 a 0. Os australianos se classificaram, os paraguaios ainda não, mas a chance de estarem na próxima fase é muito grande. E o adversário deve ser a Alemanha nos 16 avos de final.
Turquia 3x2 Estados Unidos: A Turquia chegou a este jogo eliminada e como uma das maiores decepções do torneio. Mesmo assim, conseguiu sair de campo com a vitória por 3 a 2 diante dos reservas dos Estados Unidos, que já estavam classificados e pouparam jogadores. Arda Güler foi o grande nome do jogo, liderando o time turco para uma virada diante dos americanos. Logo a três minutos, Auston Trusty marcou 1 a 0, em um escanteio, dentro da área. Arda Güler empatou aos 10. Depois, Baris Alper Yilmaz virou o jogo aos 31. No segundo tempo, Sebastian Berhalter empatou, mas, nos acréscimos, Kaan Ayhan aproveitou uma bola na área para colocar na rede. Uma vitória que, na prática, não vale nada, mas ao menos resgata uma parte da honra do time. E carimba a campanha dos Estados Unidos, que decidiu poupar jogadores. Agora, os americanos se preparam para enfrentar a Bósnia nos 16 anos de final e precisam voltar a apresentar o bom futebol que vimos nos outros dois jogos se não quiser ficar pelo caminho. A Itália que o dia.
PODCAST MEIOCAMPO #243
O Brasil terminou a fase de grupos em alta: depois de uma estreia assustadora contra Marrocos e a melhora contra o Haiti, a Seleção fez seu melhor jogo contra a Escócia e se classifica com autoridade, com um time atuando bem coletivamente e um craque como protagonista: Vini Jr. Que venha os 16 avos de final!
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Até amanhã!






