O ímã do rebaixamento puxa o Tottenham
E a culpa do desastre não está apenas no campo...
Newsletter Meiocampo #122 — 6 de março de 2026
Time grande, contratações que não funcionam, demissão de técnicos, diretoria perdida, protestos da torcida. Conhecemos esse cenário, né? Nesta edição, exploramos o que leva o Tottenham ao caos a uma impensável ameaça de rebaixamento na Premier League. Falamos ainda da criatividade dos dirigentes argentinos com regulamento, a Finalíssima em risco, Copas nacionais na Europa e mas.
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O que leva o Tottenham a flertar com a zona do rebaixamento?
Por Felipe Lobo
Terminar a Premier League em 17º na tabela parecia o fundo do poço do Tottenham, mas, como lembra a clássica lição de Homer Simpson, aquele era o pior cenário apenas até agora. Com mais da metade da atual temporada cumprida, a realidade é que o time pode cair mais uma posição e enfrentar um rebaixamento inacreditável. Parecia impensável, mas a cada rodada o Tottenham faz questão de provar que o desastre não só está próximo como já bate à porta pronto para sentar para tomar um chá.
É a primeira vez que o clube efetivamente briga contra a queda desde 1977. O cenário ganha contornos de tortura porque o Arsenal desponta como grande favorito a voltar a ser campeão após 22 anos. O abismo no norte de Londres nunca foi tão profundo.
Com o estádio mais moderno da Inglaterra e uma receita que o coloca como o nono clube mais rico do mundo, segundo a Deloitte, o Tottenham não deveria ocupar esse estrato da tabela. O clube acumula erros consistentes desde a saída de Mauricio Pochettino. Durante um breve período, a sensação era de uma mudança de patamar onde faltava apenas a taça. Hoje, a torcida trata uma vaga na Champions League como delírio.
Nos escritórios, o Tottenham vive um dilema financeiro crônico: é o primo pobre dentro do top six e o latifundiário diante do resto da liga. Precisa rivalizar com as potências bilionárias e, simultaneamente, justificar seu orçamento contra projetos organizados como Aston Villa e Brentford. Essa dinâmica inflaciona qualquer movimento de mercado em Londres, com a desvantagem da panela de pressão inerente ao grupo de elite.
A demissão do presidente Daniel Levy, em setembro, era vista como a cura que o clube precisava. Não foi. Vinai Venkatesham, o atual CEO, e o diretor esportivo Johan Lange assumiram o comando, e a crise apenas mudou de endereço. O problema da nova gestão não é a falta de currículo no esporte, mas a esquizofrenia no planejamento de futebol.
Ao final da temporada passada, a diretoria acertou ao demitir Ange Postecoglou. O técnico entregou um título, mas o fez sob a pior colocação do time na era Premier League, com um desempenho letárgico. A reposição com Thomas Frank, de excelente histórico no Brentford, tinha lógica, mas esbarrou na prática. Frank não dominou o vestiário, as ideias não funcionaram e os resultados levaram à sua demissão no início de fevereiro.
O mercado do Tottenham agrava a sensação de fracasso. O clube operou como gigante: buscou o meia Xavi Simons, o ponta Mohammed Kudus, o volante João Palhinha e o atacante Randal Kolo Muani. Em janeiro, adicionou Conor Gallagher. É um material humano vastamente superior ao da metade inferior da tabela. No entanto, Micky van de Ven, excelente na última campanha, tornou-se irreconhecível. A epidemia de lesões de líderes como James Maddison e Dejan Kulusevski, além de peças como Udogie, Betancur e o próprio Kudus, minou qualquer coesão tática.
Se a aposta em Thomas Frank representava um projeto frustrado, a chegada de Igor Tudor soa como puro pânico institucional. Em apenas três partidas, o croata já causou incêndios públicos. Após o jogo contra o Arsenal, declarou que a equipe precisava “ser séria” e expôs os “hábitos ruins” do grupo. No fim de semana, após a derrota para o Fulham, o diagnóstico do técnico foi de que a equipe tinha problemas na defesa, no meio-campo e no ataque. Questionar a inteligência e a habilidade do próprio elenco nas coletivas de imprensa expõe a total ruptura interna.
Tudor é um treinador de impacto imediato e pavio curto, cujo último trabalho na Juventus terminou em mediocridade após a perda do efeito choque. Sua contratação por uma diretoria desesperada é sintoma de um clube sem bússola, porque a ameaça do rebaixamento, que era uma piada dos rivais, começa a pintar como uma ameaça real e potencialmente desastrosa.
Da cadeira do CEO ao ponta-esquerda, o Tottenham cumpre metodicamente a cartilha do rebaixamento: demissões em cadeia, elenco caro e disfuncional, e um clube grande atraído pela zona de rebaixamento tal qual um metal ao chegar perto de um ímã. O time segue sem vencer em 2026.
A próxima rodada é contra o Liverpool, em Anfield. É incerto se Tudor resistirá no cargo até lá, visto que seu assistente sequer conseguiu a licença de trabalho britânica. O canto irônico da torcida do Crystal Palace, ao ver seu time despachar os Spurs por 3 a 1, resume a ópera trágica: “Say hello to Millwall“. O abismo da segunda divisão nunca esteve tão próximo.
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GIRO
Por Bruno Bonsanti
- Eu lembro quando a Federação Carioca era referência em criatividade para regulamentos. Faz tempo que ela foi ultrapassada pela Federação Argentina. A nova, sinceramente, é coisa de quem está no auge dos seus poderes. O negócio é o seguinte: na Argentina, os campeões do Clausura, do Apertura e da Copa da Argentina, além do primeiro e do segundo colocado da tabela geral, se classificam diretamente à fase de grupos da Libertadores. O terceiro colocado entra na segunda fase preliminar e uma coisa que tem acontecido bastante é ele ser eliminado. Aconteceu com Godoy Cruz (2024), Boca Juniors (2025) e recentemente com o Argentinos Juniors (2026). O cerne da questão é que os derrotados da segunda fase não são realocados à Copa Sul-Americana. Ficam sem competições continentais até o fim do ano - o que é de fato um problema. E aí o que os gênios da AFA inventaram? Para garantir calendário, classificar o terceiro colocado para a Copa Sul-Americana e jogar essa vaga na segunda fase preliminar da Libertadores para o nono. A medida, válida para competições sul-americanas a partir de 2028, foi aprovada por unanimidade, porque claro que foi, e o presidente do Argentinos Juniors nem escondeu o motivo. “É ruim que o terceiro ou quarto da tabela geral tenha que ocupar uma posição que não garante nada porque perdendo na primeira (segunda) fase da Libertadores você fica sem copas internacionais”. E que tal esta solução: tenta não perder?
- Eu sei que é por dinheiro. Apesar da aparência jovial, eu não nasci ontem. Mas existem justificativas plausíveis para ter uma pausa para hidratação na Copa do Mundo de Estados Unidos, México e Canadá. O calor da última edição do torneio na América do Norte foi lendário e, com base nas evidências do Mundial de Clubes do ano passado, continua firme e forte (com base em evidências científicas, ainda mais firme e ainda mais forte). Dois problemas. O primeiro é que o clima não está sendo necessariamente levado em conta: as paradas vão sempre acontecer, mesmo se ficar frio, na metade de cada tempo. Os jogos terão efetivamente quatro quartos, bem como americano gosta. O segundo é a caixa de pandora que se abre quando você envelopa a tela com propaganda do Gatorade enquanto os caras bebem água. Segundo o The Athletic, a Fifa decidiu permitir publicidade durante as paradas da Copa, como acontece no Paulistão, e se tem uma coisa que eu sei sobre a galera que toma decisões no futebol é que, uma vez que você dá dinheiro para eles, eles não costumam devolver.
- Eu não invejo a posição das entidades do futebol, que precisam convencer um público com spam de atenção de uma ervilha a suportar 90 minutos com poucos estímulos, pelo menos em comparação ao que se encontra nas redes sociais. Mesmo sem TikToks e Shorts, continuaria difícil se o espectador pudesse ligar O Poderoso Chefão ou o primeiro episódio de Game of Thrones a hora que quiser. No entanto, elas parecem ter uma compreensão completamente equivocada do que torna o futebol especial porque todas suas decisões se afastam da essência do jogo. As paralisações podem ser boas financeiramente, mas travam ainda mais um esporte que já anda bem travadinho, principalmente quando o Arsenal está em campo. Efetivamente teremos o momento-oficial-de-pegar-o-celular, prejudicando a imersão, diluindo o nervosismo. O mesmo se aplica ao que eles fizeram com a Champions. O novo formato multiplica confrontos entre grandes (talvez, nem sempre), mas cada um deles é menos significativo. O que acontece em campo importa menos do que o que a competição agora oferece para a máquina de produção de conteúdo.
- A Finalíssima está sob risco. A ideia era realizar o confronto entre campeões da Copa América (Argentina) e Eurocopa (Espanha) no Catar, mas quem diria que a tendência de realizar todas as competições de futebol do mundo em uma região tão estável quanto o Oriente Médio uma hora daria errado? As competições locais do Catar estão suspensas por causa da retaliação do Irã ao longo da península arábica, após os ataques de Estados Unidos e Israel. Não se sabe se haverá condições de segurança até a data da partida, e como ela está marcada para daqui a três semanas, a resposta é provavelmente não. A Uefa, uma das organizadoras do torneio, disse à Reuters que nenhum outro local foi discutido até agora e que uma decisão deve sair até o fim da próxima semana.
- O técnico do Brighton, Fabian Hurzeler, estava irritado com o estilo de jogo do Arsenal: “A Premier League precisa encontrar uma regra porque não é futebol o que o Arsenal fez aqui. Se a Premier League e o árbitro permitem qualquer coisa, fica difícil. Eles fazem suas próprias regras. Eu nunca serei o tipo de treinador que tenta ganhar desse jeito”. Ele foi específico sobre a cera do goleiro David Raya, mas, como mencionou a qualidade do jogo como um todo, provavelmente também estava se referindo à imposição física e as bolas paradas, o tema favorito desta temporada na Inglaterra. Eu compartilho de parte da frustração com as artes das trevas do Arsenal, e concordo que a Premier League precisa pelo menos atualizar suas instruções para o wrestling que eles praticam na pequena área, mas depois de 21 anos de seca, o Arsenal tem mesmo que fazer o que pode para ser campeão inglês. Mesmo se no processo ele destrua o futebol.
- A vitória por 1 a 0 que incomodou Hurzeler levou o Arsenal a 67 pontos e lhe deu um pouco de folga na ponta da tabela porque o Manchester City apenas empatou com o Nottingham Forest. Agora, mesmo se vencer o confronto direto no Etihad Stadium, os homens de Pep Guardiola dependeriam de um tropeço dos rapazes de Mikel Arteta. Em queda livre, o Aston Villa foi goleado no confronto direto com o Chelsea e o Manchester United foi derrotado pela primeira vez sob o comando de Michael Carrick. Uma vitória fundamental para o Newcastle, que vinha em péssima fase (5D, 1V). O Liverpool não conseguiu aproveitar os tropeços de dois dos seus concorrentes por vaga na Champions League porque teve as manhas de perder do Wolverhampton - que, sendo justo, tirou sete pontos em três jogos contra Arsenal, Villa e Liverpool. Cada vez mais próximo do apocalipse, o Tottenham levou 3 a 1 do Crystal Palace e está a apenas um ponto da zona de rebaixamento.
- Como alguém disse na internet, finalmente uma boa notícia para o Tottenham. Após uma assembleia-geral na quinta-feira (5), os clubes da Championship, segunda divisão do futebol inglês, aprovaram a expansão dos playoffs de acesso. Agora, terceiros e quartos colocados se classificarão às semifinais. Os quatro times seguintes (do 5º ao 8º) se enfrentarão pelo direito de enfrentá-los. É uma tentativa de aumentar o número de jogos que valem alguma coisa nas últimas rodadas de um longo torneio com 46 rodadas. “Após meses de discussão, estamos confiantes que essa mudança fortalecerá ainda mais a Championship e dará aos clubes e seus torcedores uma oportunidade genuína de conseguir a promoção”, comemorou o diretor executivo da Football League, Trevor Birch.
- Grande parte do sucesso do Arsenal nesta temporada tem a ver com o trabalho de Edu Gaspar, que conseguiu se livrar de jogadores que ganhavam demais e rejuvenescer o elenco. Alguém deveria contar isso para o dono do Nottingham Forest. Sem muitos bodes expiatórios sobrando (pegaria meio mal contratar um quinto treinador), parece que o próximo alvo de Evangelos Marinakis é o brasileiro. Segundo o The Athletic, seu futuro será decidido ao fim da temporada. Como ele parou de comparecer aos jogos do Nottingham Forest, a decisão provavelmente é que ele precisará procurar um novo emprego. Edu chegou com moral, um sinal de que o Forest não queria deixar aquele sétimo lugar ser uma exceção, mas realmente não brilhou em seu primeiro mercado. Foram 13 novos reforços, € 200 milhões em investimentos, e poucos realmente deram certo. Além disso, foram desavenças com Nuno Espírito Santo que levaram à saída do treinador. Mas, se técnicos de futebol precisam de tempo para trabalhar, diretores precisam ainda mais. É tudo no mínimo para o médio prazo.
- Se você tinha esperança de ver o Atlético de Madrid atacando o Barcelona no Camp Nou, quer comprar a Estátua da Liberdade? Com vantagem de quatro gols na semifinal da Copa do Rei, Diego Simeone mandou seus comandados defenderem. E defenderem. O Barcelona conseguiu 71% de posse de bola, mas teve muito chute de fora da área, cruzamentos e bola parada no seu volume de jogo. O Atleti até ameaçou no primeiro tempo. Griezmann, que parece ter adiado sua ida para os Estados Unidos para tentar ser campeão mais uma vez, teve duas boas oportunidades. Acertou a trave em uma delas. De qualquer maneira, o Barça teve 18 minutos mais acréscimos para marcar o gol que forçaria a prorrogação. Como não conseguiu, o Atlético de Madrid tentará ser campeão pela primeira vez desde 2021 e conquistar apenas a segunda Copa do Rei sob o comando de Simeone.
- A adversário da decisão será a Real Sociedad, que prevaleceu no dérbi basco da outra semifinal com vitórias por 1 a 0 sobre o Athletic em cada uma das partidas. Depois de anos de estabilidade, batendo na porta de classificação à Champions League, até finalmente consegui-la em 2022/23, a Sociedad parecia ter dado um passo atrás. Foi 11ª colocada na temporada passada e começou mal a atual edição de La Liga, com apenas uma vitória nas primeiras nove rodadas. Até se recuperou, mas emendou outra sequência negativa que culminou com a demissão do técnico Sérgio Francisco em meados de dezembro. O americano Pellegrino Matarazzo, ainda invicto em La Liga, foi quem a reergueu. A Real Sociedad disputará sua segunda final de Copa do Rei em sete anos.
- Aquele meme do sapinho, “Mesdames et messieurs, j’ai le plaisir de vous informer qu’une décision a été prise par les tribunaux pénaux” (acho que é isso), rolou à solta nos grupos de WhatsApp franceses nesta semana. Três dos quatro confrontos de quartas de final da Copa da França foram para os pênaltis, com exceção da vitória do Estrasburgo sobre o Stade Reims. O Toulouse (11º) despachou o Olympique de Marseille (4º), e o Nice (15º) derrotou o Lorient (10º). Nos dois duelos venceu o time menos bem colocado na Ligue 1 no momento. O confronto mais atraente foi entre Lens (2º) e Lyon (3º). Deu Lens, mas, se você só se importa com o Endrick, ele pelo menos acertou a sua cobrança. O Lyon não é campeão de alguma coisa desde 2012.
PODCAST MEIOCAMPO #211
O Tottenham empilha cinco derrotas consecutivas e o fantasma do rebaixamento deixa de ser uma piada de rivais para se tornar uma ameaça matemática. Enquanto o Arsenal abre vantagem na ponta , a briga pela Champions League se transforma em um engarrafamento que envolve United, Villa, Chelsea e Liverpool. No episódio de hoje, analisamos o colapso dos Spurs, a eliminação do Lyon de Endrick na França e a final definida na Copa do Rei entre Atlético de Madrid e Real Sociedad.
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Hora de sextar. Bom fim de semana!







O Tottenham sofre um problema de desorganização. O time não consegue mais engrenar dois anos seguidos.
Ano passado, também terminou na parte de baixo, mas conseguiu ganhar a Liga Europa.
Fez uma boa fase de liga da UCL de forma surpreendente
ótimo texto !