Newsletter Meiocampo #210 — 23 de outubro de 2026
O Manchester United foi ao norte da Itália e retornou com uma goleada sonora contra o caçulinha Como. Uma derrota tão contundente contra um dos melhores projetos da Europa evidenciou o quanto um desses está em falta em Old Trafford. Nós também passamos brevemente pela final da Libertadores e pelos dois jogaços da semana na Champions League - que poderiam muito bem ser as semifinais -, além de um pouquinho sobre as outras partidas, Liga Europa e Conference League.
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O Manchester United não pode fazer o que o Como faz. Mas precisa
Por Bruno Bonsanti
Parece que acabou o dinheiro do Manchester United. O novo dono implementou cortes de gastos, sem almoços grátis na cantina, e o mercado mais recente foi tão modesto que Lisandro Martínez reclamou. O extraordinário é que um dos clubes mais ricos do mundo conseguiu esvaziar os seus cofres e ter um time tão claramente pior que o do Como.
Em 2021, o United estava a meses de demitir Ole Gunnar Solskjaer, enquanto o Como ainda militava na terceira divisão da Itália. Desde então, foram pelo menos quatro projetos: Ralf Rangnick seria o diretor de futebol, mas se desgastou tanto como interino que a ideia foi abortada; Erik ten Hag tentou implementar mais disciplina e mudar a cultura do vestiário; Rúben Amorim tentou inserir três zagueiros; e agora Michael Carrick tenta… se alguém souber, me conta?
Não preciso repetir os problemas do United. Deve ser o tema que mais abordei nos últimos anos. Cemitério de jogadores, etc, etc. Mas me parece relevante que não consigo imaginar Nico Paz se desenvolvendo da mesma maneira, e jogando a mesma bola, se ele vestisse a camisa vermelha.
Existe uma dose de sorte no que o Como conseguiu fazer. Não sei se eles sabiam o quão bom Cesc Fàbregas seria como treinador quando o contrataram como jogador em 2022, com a ideia de que virasse investidor. A sua passagem para o banco de reservas poderia ser enquadrada como um dos acionistas do clube ganhando um boquinha. Fàbregas, na verdade, é um dos técnicos mais promissores da Europa.
Há um investimento incomum para um clube do seu tamanho. O Como gastou € 350 milhões em suas três temporadas na elite, uma fortuna no futebol italiano. Para referência, no mesmo período, a Inter de Milão desembolsou menos em reforços (€ 280 milhões). O saldo líquido do Como - vendas menos compras - é de € 311 milhões negativos, o mais oneroso da Itália nesses três anos. O segredo está no perfil das contratações: uma mistura entre jovens com potencial e jogadores mais experientes que já prometeram mais, e por qualquer motivo estão um pouco em baixa, com uma pitada de veteranos, como Andrea Belotti, Diego Carlos e Álvaro Morata.
Como outros que adotam uma variação dessa estratégia, o Como se beneficia de não ter muita gente se importando com o que acontece com ele. Digamos que não tivesse cravado tantos reforços, que Fàbregas não fosse tão imediatamente bom, e, em vez de décimo e quarto colocado, suas duas campanhas na Serie A terminassem na parte de baixo da tabela. O mundo não acabaria. Talvez ninguém nem notasse. Jogadores com potencial ainda teriam tranquilidade para errar. Do Como, nada se espera. Qualquer coisa é lucro. Do Manchester United, tudo se espera.
Então não basta ao Manchester United copiar a receita do Como. Ao contrário de Fàbregas, Michael Carrick, apenas um pouco mais velho, não parece ter nada de especial. O seu sucesso no fim da temporada passada deixou a diretoria dos Red Devils em uma sinuca de bico: foi bem demais para não ser efetivado, mas não tão bem que passasse segurança. Agora ficou claro que ele fez o básico. Organizou um pouco o time, favoreceu contra-ataques e aproveitou as pernas frescas de um elenco que fez apenas 40 jogos na temporada. Foi o suficiente para ganhar alguns clássicos e somar os pontos necessários para se classificar à Champions League.
O básico não serve para o Manchester United. É fácil para um clube rico contratar jogadores melhores e colocá-los para correr em contra-ataque, mas não adianta. A maioria dos adversários não vai lhe dar esse espaço. Os grandes também precisam saber quebrar defesas fechadas, tentar recuperar a bola no campo de ataque, controlar o meio-campo, entre outras coisas. Bruno Fernandes disse com todas as letras que a estratégia contra o Como era não pressionar, o que, na sua avaliação, foi um erro: “Às vezes quando você dá espaço para esses times, eles ganham confiança”.
Foi assim que chegamos ao que vimos na última quarta-feira: o Como vencendo o Manchester United, não por sorte, não com uma estratégia cautelosa, mas por ser melhor. Isso não significa que, individualmente, seus jogadores são mais talentosos que os do United. Talvez se as camisas fossem trocadas, o placar tivesse sido ainda mais elástico. Mas são mais bem treinados, se encaixam melhor e executam, quase à perfeição, uma proposta mais ousada e sofisticada. Ainda que não consiga fazer exatamente o que o Como fez, é disso que o Manchester United precisa.
PODCAST MEIOCAMPO #273
O time de Gennaro Gattuso é o único que acompanha ponto a ponto a Inter e, de forma surpreendente, se coloca na disputa pelo título na Itália. Na França, CINCO times estão empatados com 14 pontos na liderança - incluindo o PSG. A Bundesliga agora volta a ter o Bayern na liderança. Na Espanha, goleadas de Barcelona e Real Madrid. Na Premier League, segue tudo como está.
Giro
Por Bruno Bonsanti
- Se na final do ano passado o Palmeiras não deu nenhum chute ao gol, corríamos o risco de nenhum dos dois fazê-lo desta vez. Tanto o time de Abel Ferreira quanto o Flamengo tiveram semifinais muito pobres. O Palmeiras, em casa, tentou administrar uma vantagem de apenas um gol desde o apito inicial e, surpresa, não conseguiu. Precisou dos pênaltis para avançar. O Flamengo disputou 180 minutos de esporte bretão contra Fernando Muslera, o frangueiro mais famoso do mundo, e o testou apenas três vezes. Precisou dos pênaltis para avançar. E não avançou. O Estudiantes, com uma atuação corajosa, em desvantagem numérica durante quase todo o segundo tempo, se transformou no primeiro clube não brasileiro e não River Plate ou Boca Juniors a chegar à decisão da Libertadores desde o Lanús em 2017. Em vez de uma reedição da final recente de Montevidéu, teremos uma revanche de 1968.
- O encontro entre dois dos melhores times do mundo não decepcionou. Chances para os dois lados, narrativas interessantes e belos gols. O PSG foi bastante superior no primeiro tempo e, ao longo de toda a partida, manteve as preocupações com a segurança da defesa do Barcelona para o mata-mata. Ela não parece ter melhorado. O primeiro gol saiu de um erro de Lamine Yamal, mais normal para um garoto de 19 anos do que a pintura que ele anotou para se redimir. Quem empatou foi Xavi Espart, um moleque pinçado de La Masia que tem se destacado nas duas laterais. O PSG, infelizmente, sofreu com lesões: Dembélé saiu logo no começo, depois Marquinhos e Kvaratskhelia. Os dois primeiros devem ficar afastados por semanas com lesões musculares. O problema de Kvara é mais sério: rompeu o ligamento cruzado do joelho e terá uma longa recuperação pela frente. O PSG pisou no acelerador depois do gol de Yamal e abriu 4 a 2 nos últimos dez minutos, com Vitinha e Fabián Ruiz. O resultado em si pouco importa para a classificação, mas o jogo foi uma amostra do que poderemos presenciar em março ou abril.
- A mesma coisa vale para Arsenal x Bayern de Munique. Outro jogaço. Menos aberto, pelas características do Arsenal, mas ainda cheio de lá e cá. O passe de Odegaard para Eze abrir o placar foi lindo. O de Harry Kane para Davies, pornográfico. Manuel Neuer e David Raya abriram o segundo tempo com excelentes defesas quando o ritmo subiu. O veterano continuou sendo decisivo. O Bayern passou à frente com um pênalti cobrado por Kane. O Arsenal, porém, empatou em um gol extremamente bem construído. Paciência na posse de bola até acelerar com Gyökeres que, se não sabe fazer mais nada, fez um bom trabalho de pivô para Declan Rice invadir a área e bater cruzado. De novo, uma amostra do mata-mata. Esse confronto pode muito bem ser uma das semifinais.
- Ronald Araújo não foi uma contratação super comemorada pela torcida do Liverpool. Parecia um curativo para um setor desfalcado. Um jogador experiente que poderia atuar tanto na lateral quanto na zaga. Três meses depois, caiu nas graças das arquibancadas, ajudando o time de Iraola a ter um pouco mais de equilíbrio na defesa e marcando gols decisivos. Também parece estar curtindo a experiência. O que eu não sei de verdade é como Mac Allister marca tanto de cabeça, do alto de seus 1,76 metros. O Liverpool teve maturidade e bola para virar um jogo complicado contra o Villarreal, que chegou a abrir 2 a 0 em Anfield. Também não inspira confiança ter levado três gols. De novo.
- O Bodo/Glimt tentou fazer mais uma vítima. Mas o Napoli não permitiu e venceu por 4 a 2 para somar seus primeiros pontos na Champions League. Golaço de Politano para abrir o placar e, em meio a discussões sobre a melhor maneira de encaixá-los, Kevin de Bruyne deu assistência para Scott McTominay, que acabou marcando duas vezes. Um gol solitário do brasileiro Carlos Augusto decidiu uma partida complicada contra o Shakhtar Donetsk, garantindo que a Inter de Milão também não chegasse ao fim da terceira rodada com a pontuação zerada. Os dois italianos precisavam dar um sinal de vida. E deram.
- Acabou o pesadelo. Julián Alvarez finalmente marcou. O atacante argentino ainda não havia feito gol desde que tentou forçar uma transferência para o Barcelona. Toda essa história (que ele próprio causou) parece tê-lo afetado. Diego Simeone tem adotado uma abordagem cautelosa. Alvarez ainda não foi titular em La Liga e passou algumas rodadas afastado por lesão muscular. Por outro lado, começou todos os jogos da Champions League e, depois de dar assistência na estreia contra o Liverpool, empatou contra o Stuttgart, arrancando pelo menos um pontinho para o Atleti, que está no meio da tabela com quatro.
- Um pênalti convertido por Isco garantiu ao Betis um começo perfeito na Champions League. É um dos cinco clubes com 100% de aproveitamento após três rodadas, ao lado de PSG, Aston Villa, Liverpool e Real Madrid. As próximas três partidas nem são impossíveis: visita o Borussia Dortmund e o Slovan Bratislava e recebe o Como. Apenas um jogo teoricamente fácil, mas nada o impede de somar pontos nos outros e chegar em ótima situação para os duelo mais difíceis contra Arsenal e Bayern de Munique. Na parte de baixo da tabela, Lille e Porto preocupam. Ainda zerados. O RB Leipzig tem três pontos e poderia estar até em 19º lugar pelo saldo de gols, mas como na outra vez que disputou a fase da liga sua campanha parou exatamente nessa pontuação, é bom reagir logo.
- O Bournemouth está curtindo muito sua primeira competição europeia. Chegou a nove pontos em três rodadas com uma vitória categórica sobre o Milan, que cometeu autosabotagem com um pênalti aos oito minutos e outro pênalti aos 32 minutos. O segundo foi cometido por Mike Maignan, que simplesmente empurrou o rosto de Tyler Adams enquanto esperava uma bola parada. Foi expulso. O Milan ficou com um a menos e teve que contar com o goleiro reserva Lorenzo Torriani. Torriani não comprometeu, e dadas as circunstâncias, o Milan se segurou. Apenas aos 39 minutos da etapa final, Amine Adli cobrou uma falta perfeita para dar números finais ao placar.
- Interessante thriller entre Juventus e Rennes. Os franceses chegaram a abrir 2 a 1 no primeiro tempo, mas a Velha Senhora reagiu. Buscou o empate e pressionou pela virada, que não saiu por impedimento em um gol marcado por Jhon Lucumí. Espírito de luta, mas não o resultado necessário para curar as feridas da derrota para a Lazio no fim de semana. Poucas surpresas nos outros jogos da Liga Europa. O Hoffenheim lidou facilmente com o Lyon, e o Sturm Graz bateu o Olympique de Marseille. A maldição do Celtic na Europa continua, com uma derrota em casa para o Celta de Vigo. E Mikel Oyarzabal deu três assistências só no primeiro tempo para liderar a goleada da Real Sociedad sobre o Lillestrom.
- Na Conference League, o resultado que mais chama a atenção é a vitória do Lugano sobre o Getafe. Só porque costuma ser bem difícil marcar cinco vezes em um time treinado por José Bordalás. Os suíços conseguiram sendo muito eficientes: converteram cinco dos seus sete chutes ao alvo e das suas 10 finalizações no total. O Getafe teve um volume ofensivo espetacular, aliás, com 26 batidas no gol. Em outros campos europeus, o Jablonec segurou o poderoso ataque do Brighton, e Mohamed Salah continua decidindo pelo Trabzonspor. Gol e assistência na vitória por 2 a 0 sobre o Hearts.
Até terça-feira!





