Newsletter Meiocampo #195 — 04 de setembro de 2026
Mercado ainda é o principal assunto do futebol europeu. Depois da janela fechar nas maiores ligas, a hora é de fazer um balanço. Quem gastou mais? A Premier League. Claro que a Premier League gastou mais. Gastou mais do que nunca, o que pode ter sérias consequências porque, além de ter gastado meio mal, há algumas preocupações importantes.
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O preocupante mercado da Premier League
Por Bruno Bonsanti
Não ganha nada quem descobrir qual foi a liga que mais gastou na última janela de transferências da Europa. A mesma de sempre. A única que consegue brincar. Embora não seja novidade, nem o investimento e nem a preocupação com o que ele significa, há alguns sinais de alerta especialmente importantes no mercado de US$ 3 bilhões da Premier League - o mais caro da história.
Colocando em perspectiva, o gasto da Inglaterra foi equivalente ao das três outras ligas que mais pagaram taxas de transferências nos últimos meses - Itália (US$ 1,1 bilhão), Espanha (US$ 940 milhões) e Alemanha (US$ 904 milhões). A Turquia foi a liga que mais investiu fora das cinco grandes (US$ 514 milhões), e a Arábia Saudita (US$ 407 milhões), a líder fora da Europa. O Brasil gastou US$ 127 milhões em jogadores, um pouco abaixo dos EUA (US$ 167 milhões).
A bolha do crédito
A vírgula que parece mais relevante no momento saiu em uma matéria do jornalista Miguel Delaney, do Independent, e tem a ver com a estrutura dos negócios. Segundo suas fontes, muitas contratações foram feitas em parcelas ou pegando dinheiro emprestado. Nos dois casos, os vendedores ainda conseguiram colocar o valor completo em suas contas, permitindo o reinvestimento de acordo com as regras de fair play financeiro, mesmo sem receber todo o dinheiro.
Diante de valores cada vez mais absurdos, é comum a brincadeira, ou a crítica, de que o dinheiro no futebol não é de verdade, e no caso desta janela da Premier League, parece que não foi mesmo. A liga, de acordo com a reportagem, vive uma crise de liquidez. Essa movimentação foi alarmante principalmente porque o “próprio crédito privado está sob pressão, da percepção de uma bolha de inteligência artificial ao crescimento preocupante das taxas de rendimento de títulos globais”.
Executivos indicaram que este era exatamente o pior mercado para ser tão irracional. “Isso tudo vai desmoronar”, disse uma das fontes da matéria do Independent. “E quando isso acontecer…”
O imposto da Premier League
A BBC calculou o que ela chamou de “imposto da Premier League”. Em média, jogadores que trocaram de clube internamente - ou seja, de inglês para inglês - custaram quase o dobro dos que vieram de fora: £ 39,4 milhões x £ 20,2 milhões. Contratar de concorrentes diretos custa £ 20 milhões a mais na Inglaterra. Não é uma surpresa. Os clubes da Premier League são fortes financeiramente, o que os torna menos dependentes de vendas e mais aptos a acumular talento.
Ainda é interessante ver esse “imposto” quantificado e, principalmente, o aumento na quantidade bruta de transferências internas. Dois anos atrás, na janela do verão europeu de 2024/25, os ingleses fizeram 13 contratações de pelo menos £ 40 milhões, sete com colegas do exterior e seis internamente. O total subiu para 27 neste mercado, sendo apenas nove com o continente e 18 entre clubes da Premier League. O valor total das transferências domésticas mais do que dobrou.
Uma das explicações é que o avanço das técnicas de observação - ou o que o especialista em finanças do esporte Kieran Maguire descreveu como “a garotada do algoritmo” - tem levado os talentos mais cedo para a Inglaterra. Especificamente, clubes inteligentes e com poder de compra alto em relação ao resto da Europa, como Brighton, Brentford e Bournemouth, contratam antes, desenvolvem o jogador e os melhores saem para o Big Six por valores muito maiores.
O exemplo mais claro nesta janela foi o volante Carlos Baleba, contratado pelo Brighton, três anos atrás, por £ 23 milhões e vendido ao Manchester United por £ 70 milhões. “Isso efetivamente criou uma área de recrutamento para determinar quais jogadores do exterior conseguem produzir na Premier League e todo mundo sai ganhando”, disse Maguire.
“Estamos competindo com o Coventry”
André Villas-Boas tentou ser educado, mas disse à BBC que o clube que preside, o Porto, um dos maiores de Portugal, não compete mais por jogadores com Manchester City ou Liverpool. “Nós competimos com o Coventry e o Brentford, sem nenhum desrespeito”, afirmou. “O fato de que eles têm esse poder de compra dificulta as coisas para nós. A Premier League se separa de todo o resto”.
Isso ficou claro no relatório financeiro mais recente da Deloitte sobre os maiores faturamentos do mundo: 15 dos 30 primeiros estão sediados na Inglaterra, incluindo o West Ham, que nesta temporada disputará a segunda divisão. Os sete clubes que mais gastaram nesta janela, segundo dados do Transfermarkt, foram ingleses, com 12 entre os 20 primeiros, incluindo os recém-promovidos Ipswich, Hull City e Coventry City - que receberam uma injeção gigantesca de dinheiro e precisaram adequar seus elencos às exigências da elite.
E realmente, olhando para os negócios, o Bournemouth comprou um dos melhores zagueiros jovens do Benfica, o Brentford tirou jogador do Lens, vice-campeão francês, por quase € 50 milhões, e o Ipswich Town atraiu talentos de Bayer Leverkusen, Celtic e Ajax.
E ainda gastaram mal
O pior é que, apesar de tanto dinheiro, há negócios que não têm nenhuma chance de dar certo e muitos clubes que não parecem satisfeitos com os seus elencos - o Arsenal tem o mais completo da Inglaterra e ainda há um buraco na ponta esquerda; o Liverpool registrou o maior gasto líquido e continuou sem ponta direita, primeiro volante e profundidade na defesa; o Tottenham fez duas contratações de € 100 milhões e dá para projetar muito mais do que ser sexto ou sétimo colocado?
Os Spurs apresentaram um dos casos mais ilustrativos: os € 87 milhões em Savinho. Como o Manchester City conseguiu lucrar € 60 milhões com um jogador que passou dois anos quase sempre no banco de reservas? Ainda que tenha sido uma venda casada com Omar Marmoush, o valor é absurdo e desnecessário - não tinha ninguém mais barato em outro lugar? A mesma lógica pode ser aplicada a Liam Delap, que rendeu € 17 milhões ao Chelsea em apenas um ano, depois de ter marcado… três gols.
O Machester City colocou mais de € 500 milhões na mesa e basicamente só trouxe um novo meio-campo. O United também, mas pelo menos gastou bem menos (€ 173 milhões). Cada um dos três promovidos investiu pelo menos € 150 milhões e todos eles continuam extremamente favoritos para retornar à segunda divisão na próxima temporada.
O Aston Villa participou do início da inflação ao negociar Morgan Rogers com o Chelsea por € 138 milhões. Uma excelente venda. E aí pagou € 55 milhões por Nicolas Jackson e mais € 50 milhões em Alejandro Garnacho (empréstimo com obrigação de venda se algumas condições consideradas “fáceis” forem cumpridas). Na prática, trocou o seu principal jogador por dois que já tiveram suas chances na Premier League e não arrebataram o coração de ninguém.
Não está claro por que os valores de repente dispararam tanto. Não tem um evento específico. Foi provavelmente uma conjunção de fatores. As ramificações ainda estão por vir e podem ser severas. E tudo isso para, acima de tudo, gastar mal.
PODCAST MEIOCAMPO #260
Bruno Bonsanti e o convidado especial Victor Canedo - no lugar de Felipe Lobo, de folga - conversaram sobre os principais negócios do último dia do mercado europeu e fizeram um balanço das melhores (e mais caras) transferências dos últimos meses.
Giro
Por Bruno Bonsanti
- Gabriel Martinelli foi para o Al-Hilal. Um mercado que diminuiu as ambições do Campeonato Saudita se tornar a quinta maior liga do mundo. Ele foi o jogador mais famoso que peregrinou para Meca e, por alguns trocados, o mais caro, superando Crysenscio Summerville. O perfil desta vez foram jogadores do terceiro escalão para baixo que acharam que era a hora certa de fazer seu pé de meia. Porque suas carreiras oscilaram um pouco para baixo ou um pouco para cima. Tijjani Reijnders, Ollie Watkins e Francisco Trincão completam os cinco reforços mais caros do país. Três deles foram para o Al-Hilal e um, Reijnders, não foi para um dos quatro grandes. Acertou com o Al-Qadsiah.
- O Trabzonspor está tentando entregar um time melhor para Mohamed Salah. Usando uma tática comum na Turquia: como sua janela fecha um pouco depois, o país se torna atrativo a jogadores que não conseguiram sair dos seus clubes, mas realmente queriam. É o caso de Richarlison, que não parece ter ficado satisfeito por não ter retornado ao Everton. O outro é o jovem atacante Franculino, do Midtjylland (contratem-no no Football Manager). Fabinho já havia se reunido com Salah. O Trabzonspor não começou bem a temporada, com quatro pontos nas três primeiras rodadas da Süper Lig e derrota para o Ferencváros nos playoffs da Liga Europa. Disputará a Conference League.
- As quase duas décadas de Edin Dzeko a serviço da Bósnia chegarão ao fim. O atacante de 40 anos anunciou que a sua despedida será em 2 de outubro, contra a Suécia, pela Liga das Nações. Dzeko estreou em 2007 e se tornou o maior artilheiro da história da seleção, com 73 gols, e o jogador que mais vezes a representou, com 151 partidas. Classificou-a para suas duas primeiras Copas do Mundo e deixou seu nome registrado no maior palco do futebol ao marcar contra o Irã em 2014. Sua carreira segue na Alemanha. Ele tem contrato para defender o Schalke 04 nesta temporada da Bundesliga. “Nada na minha carreira se comparou ao orgulho que senti todas as vezes que vesti essa camisa”, disse.
- A Federação Ganense de Futebol ficou satisfeita com o trabalho de Carlos Queiroz. O veterano treinador português havia assumido os Estrelas Negras apenas meses antes da Copa do Mundo, com um contrato curto. Não foi a participação mais brilhante de Gana, mas Queiroz conseguiu orquestrar uma vitória (por 1 a 0, claro) sobre o Panamá e uma classificação aos 16 avos de final. O ponto alto da campanha foi o empate sem gols com a Inglaterra. Parece ter sido o suficiente. Queiroz foi recontratado para as Eliminatórias da Copa Africana de Nações de 2027. Gana estreia contra a Costa do Marfim, em setembro.
- Ahh… os podcasts. Existem alguns que deixam o entrevistado tão à vontade que ele conta coisas que não deveria contar. Ou que não se importa mais que as pessoas saibam. O ex-árbitro da Premier League Mike Dean disse ao programa de Jamie Vardy (“Having a Party”) que, entediado com a profissão que escolheu, às vezes se propunha alguns desafios. “Em alguns jogos, só para zoar, nós víamos quanto tempo conseguíamos passar sem apitar. Fiz isso algumas vezes na Premier League. Passei 20 a 25 minutos sem usar o apito”, disse. Ele também afirmou que de vez em quando tentava passar o máximo de tempo possível dentro do círculo central a partir do pontapé inicial. Depois admitiu que estava só brincando. Dá para notar que ele gosta disso.
NA EDIÇÃO ANTERIOR DA NEWSLETTER…
Passamos a régua nos principais negócios do último dia do mercado do futebol europeu, com foco na movimentação de brasileiros no radar da seleção de Carlo Ancelotti. Quem se colocou em uma posição melhor para brilhar no próximo ciclo? Ou, talvez, em uma posição pior? É só clicar aqui para descobrir.
Bom fim de semana!






