Por que Michael Olise é o melhor ponta do mundo hoje
Atuação de gala no Bernabéu foi apenas uma terça-feira comum na temporada do craque do Bayern de Munique
Newsletter Meiocampo #131 — 10 de abril de 2026
Nas quartas de final da Champions League, o Bayern de Munique foi ao Bernabéu e venceu o Real Madrid pela primeira vez em 25 anos. O PSG venceu com facilidade o Liverpool. O Barcelona perdeu um jogador e o jogo em casa para o Atlético de Madrid. E no meio de tudo isso, Michael Olise foi simplesmente o melhor jogador em campo. Esta edição começa por ele.
AVISO: Se você é assinante do plano Centenário no Youtube e seu plano de assinatura aqui no Substack expirou, nos avise para podermos renovar! Pode responder a este e-mail que já serve.
Vale lembrar: as edições de terça-feira e eventuais extras são exclusivas para assinantes. Às sextas-feiras, continua o conteúdo gratuito aberto ao público. Sugestões, críticas, elogios, quer só mandar um abraço: contato@meiocampo.net.
Por que Michael Olise é o melhor ponta do mundo hoje
Por Felipe Lobo
O Bayern de Munique venceu o Real Madrid no Bernabéu pela primeira vez em 25 anos. Contou com uma atuação monumental de Manuel Neuer, mas também com o brilho de quem tem sido um dos melhores jogadores do mundo nesta temporada: Michael Olise. A atuação de gala do ponta francês não foi exceção — é o padrão.
Nenhum ponta das cinco grandes ligas europeias se envolveu em mais gols do que Olise nesta temporada, e nenhum jogador distribuiu mais assistências. Na Bundesliga, são 11 gols e 18 assistências em 25 jogos. Ele está a três assistências do recorde em uma única temporada nas cinco grandes ligas, que pertence conjuntamente a Thomas Müller e Lionel Messi. Na Champions League, são oito assistências — mais do que qualquer outro jogador na competição, inclusive Vinícius Júnior, o segundo na lista, que tem sete.
Os números tradicionais já impressionam, mas há uma métrica que vai além deles e que coloca Olise num patamar ainda mais exclusivo. O Expected Threat, ou xT, é um indicador desenvolvido pela análise de dados do futebol moderno para medir o perigo gerado por um jogador cada vez que toca na bola — independentemente de o lance terminar em gol ou assistência. Ele calcula a probabilidade de uma jogada resultar em gol a partir da posição em que a bola se encontra e do que o jogador faz com ela: conduz, passa ou finaliza. Em outras palavras, captura a ameaça que um jogador representa antes que ela se concretize nas estatísticas convencionais. Nesta temporada, Michael Olise lidera esse indicador entre todos os jogadores das principais ligas europeias. Não entre os pontas. Entre todos os jogadores.
A trajetória até aqui ajuda a dimensionar o salto. No Crystal Palace, Olise acumulou 31 participações em gols em 90 jogos — números que já chamavam atenção numa equipe sem grandes ambições europeias. No Bayern, em praticamente o mesmo número de partidas, 92 no total, já são 84.
Quando o clube bávaro pagou €60 milhões por ele em 2024, havia ceticismo: ele vinha de uma temporada marcada por lesões. Mesmo assim, naquela temporada encurtada pelo Palace, foram 10 gols e oito assistências em apenas 18 jogos — o melhor índice de participação por minuto da história do clube na Premier League. Thierry Henry, que o treinou na seleção olímpica da França em Paris-2024 e é hoje um dos comentaristas mais respeitados do mundo, foi taxativo antes mesmo de Olise disputar um minuto pelo Bayern: “Ele tem qualidades incríveis, e vocês ainda não viram nada — isso é só o começo.” Não era entusiasmo de técnico. Era diagnóstico.
Na primeira temporada pelo Bayern, 2024/25, foram 20 gols e 23 assistências em 55 jogos. Já era uma temporada notável. Olise esteve entre os 30 indicados à Bola de Ouro — e ficou em 30º, o último da lista. Nesta temporada, está ainda melhor: 16 gols e 26 assistências em todas as competições até aqui. Como disse o ex-jogador alemão Sami Khedira, campeão mundial e ex-Real Madrid e Juventus: Olise é “provavelmente o melhor ponta do mundo neste momento”.
No Bernabéu, o lateral Álvaro Carreras sofreu para acompanhar o francês sem qualquer apoio. Uma das vezes em que Olise escapou resultou no gol de Harry Kane — uma cena recorrente na temporada. Mas o jogo de terça-feira foi apenas mais um dado numa série consistente. Essa é a parte mais importante: não foi uma noite especial na carreira de Michael Olise. Foi uma terça-feira normal.
MEIOCAMPO COMPLETO.
Você já está aqui. Sabe o que o Meiocampo faz — e o que não faz. O que vem a seguir é só para membros: análise mais funda, sem o ritmo de notícia, sem corte. O arquivo completo, disponível. A assinatura não é apoio ao projeto: é o Meiocampo sem interrupção.
PODCAST MEIOCAMPO #220
O Bayern venceu no Santiago Bernabéu pela primeira vez em 25 anos, com Michael Olise fazendo mais uma grande partida numa temporada em que já se consolidou entre os melhores do mundo. O Real Madrid criou chances, Vinicius e Mbappé desperdiçaram o que esse time não pode desperdiçar, e o confronto segue aberto — mas o Real precisará jogar muito mais em Munique. Também discutimos Barcelona x Atlético de Madrid, PSG x Liverpool e Arsenal x Sporting, além de um olhar sobre a abertura da fase de grupos da Libertadores e Sul-Americana. E Paulo Júnior é nosso convidado para falar sobre o podcast Amarelo Ouro.
Ouça também no Spotify, iTunes ou no seu tocador de preferência.
GIRO
Por Bruno Bonsanti
- Não dá para considerar o PSG super, hiper favorito e criticar o Liverpool por ter ido ao Parque dos Príncipes apenas para sobreviver. Dá para questionar por que essa foi a única opção que sobrou. Sem necessidade de ser político, provavelmente nenhum dos dois terá residência inglesa em agosto, Arne Slot deixou Mohamed Salah no banco de reservas e entrou com três zagueiros. Até fiquei em dúvida se era isso mesmo porque Joe Gomez geralmente é lateral direito e Frimpong gosta da ponta. Era isso mesmo: linha de cinco, três meias e dois atacantes. O PSG dominou totalmente as ações, mas não foi avassalador. Dadas as circunstâncias, o Liverpool se defendeu bem e teve o mérito de não desabar pelo azar do primeiro gol. Faltou planos melhores para atacar. A bola parada parecia um deles. Muitas foram desperdiçadas. Florian Wirtz, mais pela direita, tentou algumas tramas com Frimpong. Sem sucesso. O Liverpool não finalizou no primeiro tempo e não finalizou no alvo a partida inteira. Wirtz voltou do intervalo pela esquerda e, durante cerca de 20 minutos, parecia que o Liverpool estava melhor. O PSG havia baixado a intensidade. O problema é que aquele badalado mercadão, intencionalmente ou não, trocou potência por técnica no campeão inglês. E se a aposta é em técnica, fica difícil quando o centroavante tropeça na bola nas poucas vezes em que a recebe em boas situações. Um passe brilhante de João Neves quebrou as linhas e o otimismo vermelho. Kvaratskhelia driblou todo mundo e dobrou a vantagem francesa, que poderia ter sido maior. Ibrahima Konaté atravessou a corda bamba do desarme brilhante ou do pênalti imprudente, como o de Van Dijk contra o Manchester City no sábado. Se o Liverpool pode lamentar o azar naquela finalização de Desiré Doué no primeiro gol, tem que comemorar a sorte do PSG não ter convertido todas as chances que criou, principalmente nos minutos finais, quando estava encaixando contra-ataques com facilidade. O Liverpool queria sair da França vivo e conseguiu. Mas parece uma questão de tempo para anunciarem que não está mais.
- Hansi Flick propõe uma troca: diminuir o campo do adversário e ficar vulnerável a bolas lançadas nas costas da sua defesa alta. Deveria fazer um trabalho melhor de conscientização no vestiário de que muitas vezes é preferível levar o gol a ser expulso. O Atlético de Madrid havia conseguido encaixar alguns ataques nos primeiros 10 minutos, mas, depois, o controle foi todo do Barcelona. Até pareceu maior do que as estatísticas indicaram, embora tivesse problemas de criação, com Eric García ao lado de um apagado Pedri no setor de volantes. Como de costume, basta Lamine Yamal. Deixou Marcus Rashford na cara do goleiro e quase marcou um gol antológico em jogada individual. Fazia tempo que o Atlético não escapava quando Julián Álvarez lançou Giuliano Simeone nas costas da defesa. Nepotism is ok if the babies are talented: Simeone foi derrubado por Pau Cubarsí na entrada da área. Cartão vermelho e uma falta que Álvarez mandou no ângulo para abrir o placar. Lewandowski saiu no intervalo, talvez porque Flick prefira atacantes que tocam na bola, e a partida entrou em um impasse. O Barcelona tentava, mas, com um a menos, estava difícil. De novo, contou com Yamal para lançar Rashford com uma linda trivela. Rashford driblou Musso, mas perdeu o ângulo. O Atlético não tentava. Com um a mais, chegar aos 20 minutos com 37% de posse de bola e zero finalizações foi um desperdício. Tanto que bastou apertar por cerca de cinco minutos para criar a jogada do gol de Alexander Sorloth, cortesia de um dos últimos tapas brilhantes de Antoine Griezmann com a camisa listrada. O Atleti não chega a ser a criptonita do Barça de Hansi Flick porque apanhou mais vezes do que bateu (3V, 1E, 5D), mas inegavelmente sabe encará-lo.
- Como podemos ter não a sensação, mas a certeza, de que o Bayern de Munique foi muito superior ao Real Madrid se Manuel Neuer foi o melhor em campo? Nove defesas, algumas delas fantásticas. Nem entra nessa conta o que foi quase uma defesa com os olhos quando Vinicius Jr. o driblou e bateu para fora. Essa é a armadilha do Real Madrid. Não precisa de controle da posse de bola, não precisa nem defender bem. Seria interessante conseguir se defender um pouco melhor. Mas quando Vinicius Jr. e Kylian Mbappé têm espaço para correr, coisas com certeza acontecerão. A partida poderia ter terminado tanto com goleada do Bayern, principalmente se Luis Díaz tivesse caprichado um pouco mais no segundo tempo, quanto com uma vitória espanhola que ninguém conseguiria entender de onde saiu. Não saiu porque Neuer encaixou uma atuação clássica para lembrar que um dos melhores goleiros da história ainda não acabou. Às vezes parece que está acabando: ele teve uma lesão séria há alguns anos, aposentou-se da seleção alemã e ainda não teve seu contrato renovado. A partida expôs algumas fragilidades do Real Madrid. Laterais perdidos na defesa, ainda que o passe de Alexander-Arnold para o gol de Mbappé tenha sido preciso. Éder Militão no lugar de Dean Huijsen e Jude Bellingham no de Thiago Pitarch, um desses jovens espanhóis que ganham mais tempo de jogo do que a bula recomenda, foram um claro upgrade. Difícil comemorar uma derrota em casa, mas dadas as circunstâncias, pelo menos a temporada do Real Madrid ainda não acabou. O problema é que ficou claro qual é o melhor time do mundo e qual acabou de perder do Mallorca.
- O Arsenal estava no confronto mais desequilibrado das quartas de final. Com certeza em termos financeiros. Ao mesmo tempo, não tem como característica passar por cima dos seus adversários. Nem quando eles estão na terceira divisão. Criou-se um paradoxo. O cenário mais provável é que vencesse e que o placar ficasse próximo durante a maior parte do confronto, abrindo a porta para o Sporting surpreender caso conseguisse infiltrar a melhor defesa da Europa. O curioso foi que até conseguiu. Teve volume, exigiu cinco intervenções de David Raya, de volta após Kepa Arrizabalaga testar o coração dos Gunners nas copas inglesas, e poderia ter aberto o placar com um pouco mais de capricho e/ou sorte no último terço. O Arsenal, sem Bukayo Saka e Eberechi Eze, levou pouco perigo, com exceção da bola parada, o equivalente a dizer que aquele exército é inofensivo. Tirando os tanques. O Sporting estava conseguindo levar um empate igualmente interessante e um pouco decepcionante para Londres, quando Gabriel Martinelli tirou um coelho da cartola, e Kai Havertz fez seu terceiro gol em quatro jogos e 100 minutos nesta Champions League. Esses são os predicados do Arsenal. Quase ninguém consegue quebrá-lo. Mas como previsto, o confronto continua aberto o suficiente para o Sporting sonhar.
- O Aston Villa passou por apuros em Bologna, onde os donos da casa exigiram uma grande defesa de Dibu Martínez, tiveram um gol anulado e acertaram o travessão nos primeiros 30 minutos. Mas as falhas do goleiro Federico Ravaglia em cobrança de escanteio e do zagueiro Tobjorn Heggem na saída de bola abriram caminho para os ingleses marcarem no fim do primeiro tempo e no começo do segundo. As estatísticas indicam domínio do Bologna: 58% de posse, 19 finalizações a 8. O Villa estava se segurando, apesar de mais uma bola na trave, até Jonathan Rowe, um raro inglês que não joga na Inglaterra, descontar com um belo chute colocado. A derrota por 2 a 1 parecia pesada para o que foi a partida. Então imagina a frustração do Bologna com o segundo gol de Ollie Watkins, no último lance, que deixou o campeão europeu bem posicionado para chegar às semifinais da Liga Europa.
- Talvez não tanto quanto Unai Emery, mas o Braga também gosta da Liga Europa. Começou a sua terceira quartas de final em dez anos marcando um gol de letra aos cinco minutos, mas não conseguiu segurar o Betis, que empatou de pênalti e agora precisa apenas vencer em casa para avançar. É a mesma situação do Nottingham Forest, beneficiário de um dos gols contra mais bizarros da temporada. Do meio-campo, Martim Fernandes recuou com excesso de força e pegou Diogo Costa no contrapé, empatando para os ingleses dois minutos depois de William Gomes abrir o placar. O último confronto está praticamente decidido. Vincenzo Grifo, que eu tenho a impressão que passou a vida inteira no Freiburg, abriu o placar com uma linda finalização colocada da entrada da área, antes de Jan-Nilkas Beste e Matthias Ginter ampliarem a vantagem dos alemães para 3 a 0. Boa sorte, Celta de Vigo.
- O sonho da Fiorentina de ser vice-campeã da Conference League pela terceira vez sofreu um forte baque. O Crystal Palace passeou no Selhurst Park, com dois gols em 30 minutos e oportunidades para fazer mais. Construiu um xG de 3.05. Ainda assim, a história do confronto poderia ser diferente se o chute de Giovanni Fabbian tivesse saído um pouco mais baixo. Como pegou no travessão, e Ismaïla Sarr fechou a vitória inglesa por 3 a 0 nos acréscimos, a situação da Viola ficou complicada. A Conference League era a salvação da sua temporada. Depois de quatro temporadas entre os oito primeiros, a Fiorentina sofreu uma pane na máquina e ainda briga contra o rebaixamento na Serie A. Não deve cair, mas não sobrou nada além disso.
- O Shakhtar Donetsk encontrou a melhor forma de homenagear Mircea Lucescu: vencer um jogo de mata-mata de competições europeias por 3 a 0, com gols exclusivamente brasileiros. Pedrinho abriu o placar contra o AZ Alkmaar com uma linda finalização de fora da área, antes de Alisson Santana marcar duas vezes. O 3 a 0, aliás, foi o resultado favorito da tarde de Conference League, também a vantagem que o Rayo Vallecano construiu sobre o AEK Atenas. O gol mais bonito, talvez de toda a semana, foi do Mainz. Kaishu Sano tabelou no meio-campo, foi até a entrada da área, levou para a perna direita e acertou um chute perfeito no ângulo contra o Chelsea B. Desculpa, Estrasburgo. O Mainz acabou vencendo por 2 a 0.
- O clima ficou ruim no Benfica, depois do empate com o Casa Pia na última segunda-feira. Foi uma oportunidade desperdiçada de encostar no Porto e manter uma esperança, ainda que pequena, de brigar pelo título. José Mourinho não ficou satisfeito e fez o que José Mourinho faz: colocou a boca no trombone. Reclamou de jogadores que “não comem e não respiram futebol” e que às vezes “se esquecem da realidade”. Até, segundo ele, mostrou contas para lembrá-los que um tropeço acabaria com a briga pelo título e complicaria o segundo lugar. “Não há gente má ali, desrespeitosa. O que existe são determinados perfis que, independentemente da conta bancária e dos títulos, têm fome, e outra gente que parece que leva esta vida de uma forma leve. Isso me entristece”, afirmou. O curioso é que o Benfica continua invicto no Campeonato Português. O problema é que empatou pela nona vez.
- O que falta para você ser rico é não ignorar nenhuma oportunidade de maximizar receitas. Como a Uefa. Não sei quanto dinheiro ela ganha licenciando bolas de futebol, mas a parceria de 25 anos com a Adidas está próxima de acabar, após a Nike entrar em negociações para ser fornecedora da Champions League, da Liga Europa e da Conference League. É um contra-ataque da empresa americana, que recentemente perdeu contratos ovais com Copa América, Premier League e Serie A. A Nike fazia as bolas da Champions League, antes da Adidas ganhar esse privilégio em 2001. A joint venture formada entre a Uefa e a Associação Europeia de Clubes para administrar os direitos comerciais das competições europeias não tem dado bola para tradições. Também está negociando para substituir a Heineken como a cerveja oficial e se dispôs a começar a negociar direitos de televisão globalmente.
NA EDIÇÃO ANTERIOR DA NEWSLETTER…
A Newsletter Meiocampo conta com duas edições fixas semanais: às terças, exclusiva para assinantes, e às sextas, gratuita para o público em geral. Ocasionalmente, nossos assinantes também ganharão textos extras. Na terça-feira, falamos sobre como o Arsenal vive um momento decisivo na temporada para, enfim, virar o fio e ser o que almeja a tanto tempo: ser campeão inglês.
Bom fim de semana!







