Por que Salah escolheu o Trabzonspor?
Depois de semanas de incertezas, descobrimos a próxima casa de Mohamed Salah, e para a surpresa de muitos, será o Trabzonspor, da Turquia. Mas até que faz sentido.
Newsletter Meiocampo #188 — 07 de agosto de 2026
Havia a expectativa de que Mohamed Salah jogasse na Arábia Saudita, ou na Major League Soccer, ou continuasse em um grande centro europeu. Em vez disso, o maior artilheiro estrangeiro da Premier League decidiu que seguirá a sua carreira no Trabzonspor, se juntando a nomes como Roberto Carlos, Didier Drogba, Wesley Sneijder e Gheorghe Hagi entre os maiores que desfilaram pelo futebol turco. Como isso aconteceu? É o que explicamos a seguir, antes de dar um giro por algumas notícias, como a renovação de contrato de Vinicius Jr. e a treta política sem fim que tomou conta da Fifa.
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Por que Salah escolheu o Trabzonspor?
Por Bruno Bonsanti
O futebol turco muitas vezes pega a gente de surpresa. Grandes nomes da Europa, às vezes ainda com mercado em grandes ligas, de repente aparecem no aeroporto de Istambul, com um cachecol no pescoço, cercado por milhares de torcedores enlouquecidos. Mesmo sabendo que esse é o modus operandi dos principais clubes daquele país, ainda foi um choque a confirmação de que a próxima casa de Mohamed Salah será o Trabzonspor.
Principalmente por ser o Trabzonspor, o quarto colocado da hierarquia da Superliga Turca. Talvez causasse menos estranhamento se ele se juntasse a Victor Osimhen no Galatasaray ou ao Fenerbahçe de N’Golo Kanté, Marco Asensio e Anderson Talisca. O Besiktas chegou a se reunir com o estafe do jogador, mas, com um impasse financeiro, se recusou a tomar uma decisão que seu diretor de futebol, Önder Özen, disse que teria sido “populista”.
Quando Salah anunciou que deixaria o Liverpool, a Arábia Saudita parecia o destino óbvio. Tentou contratá-lo no passado e há uma afinidade religiosa. No entanto, desta vez, ele nunca pareceu entusiasmado com a ideia, no momento em que o projeto ambicioso da sede da Copa do Mundo de 2034 está perdendo fôlego. Surgiu a possibilidade do Sporting Kansas City, da Major League Soccer, mas o egípcio aparentemente queria continuar no futebol europeu.
A última temporada de Salah no Liverpool não foi boa. Estava um passo mais devagar em todos os seus movimentos, ainda que os problemas mais amplos do time de Arne Slot também o tenham prejudicado. De qualquer maneira, não faz muito tempo que marcou 29 gols em um título da Premier League e era de se esperar que atraísse o interesse de clubes importantes das grandes ligas.
Ao contrário, foi para o Trabzonspor, e a pergunta é: por quê?
Dinheiro, claro
Sempre tem a ver com dinheiro. Quando você ficar confuso com alguma contratação, o primeiro elemento a observar é quanto o jogador ganhará, não apenas isoladamente, mas dentro do contexto do mercado. Entre salário e luvas, Salah receberá € 17 milhões em cada uma das duas temporadas do seu contrato com o Trabzonspor, além de 20% das receitas dos produtos vendidos com o seu nome e algumas variáveis de desempenho.
Ele ganhava cerca de € 23 milhões por ano no Liverpool, um valor que provavelmente não encontraria em lugar nenhum, exceto a Arábia Saudita. Como referência, estima-se que o vencimento mais alto da Internazionale - que adora contratar jogadores de mais de 30 anos que estão livres no mercado - seja o de Lautaro Martínez, mais ou menos no mesmo patamar de Salah na Turquia.
Apesar de o Liverpool ter concordado em abrir mão do último ano do seu contrato, deixando-o livre para escolher seu destino sem exigir taxa de transferência, a operação Salah ainda seria cara. Ele provavelmente se tornaria um dos maiores salários, ou até mesmo o maior, de muitos grandes clubes do futebol europeu, que talvez tenham hesitado em concedê-lo a um jogador de 34 anos após uma temporada de baixa.
Ainda dá para jogar a Champions League
O futebol turco oferece um meio-termo interessante para estrelas que querem desacelerar um pouco. Além dos altos salários, geralmente com ajuda de patrocinadores e às vezes até do governo, oferece um nível de exigência menor que uma Premier League, mas ainda entre as dez melhores ligas do continente, e a chance de continuar a disputar competições europeias.
Em outras palavras, uma estrela na Turquia ganha menos que o craque do Liverpool, mas ainda ganha muito bem; não está no mais alto nível, mas ainda em um campeonato competitivo; e se não tem possibilidades reais de conquistar a Champions League, pode pelo menos disputá-la ou beliscar uma campanha longa na Liga Europa e na Conference League.
É o cenário perfeito para quem percebeu que ficou um pouco para trás, mas ainda não quer parar de competir para valer.
Os turcos são apaixonados
O bônus é a relação que um jogador como Mohamed Salah pode criar com a torcida turca - entre as mais fanáticas do mundo inteiro. Ele teve uma amostra disso ao ser recebido por milhares de pessoas quando chegou ao país. Sabe que atuará em estádios lotados e com um clima eletrizante. Há uma abundância de histórias de caras desse calibre que viraram quase deuses na Turquia, do brasileiro Alex e Wesley Sneijder a Victor Osimhen mais recentemente.
O dinheiro e a chance de permanecer na Europa provavelmente foram os fatores preponderantes, mas, se der para tê-los com a chance de escrever mais um capítulo bonito em um país tão apaixonado por futebol, melhor ainda.
Afinidade cultural
O que tornava tão provável a transferência para a Arábia Saudita é que Salah está entre os maiores jogadores muçulmanos do planeta - se não for o maior - e o PIF (o fundo soberano do reino que financiou aquela leva de contratações badaladas) parecia determinado a contratar todos eles: Riyad Mahrez, Karim Benzema, Sadio Mané e N’Golo Kanté, entre outros.
No entanto, o projeto da Arábia Saudita perdeu fôlego. O atual mercado tem sido bastante modesto, liderado pelo holandês Cyrencio Summerville e pelo português Francisco Trincão. Alguns destaques daquele primeiro pacote de reforços já foram embora e não parece, neste momento, que a profecia de que se tornaria a quinta maior liga do mundo se concretizará.
A justificativa da ambição esportiva para assinar com os clubes sauditas sempre foi contestável, mas agora não dá nem para fingir que existe. Daria para contornar esse obstáculo com uma proposta financeira obscena, mas como os torcedores do Newcastle sabem muito bem, o PIF fechou as torneiras do investimento em futebol. Estima-se que estaria disposto a pagar entre € 20 e € 25 milhões de euros por Salah, próximo do que ele receberá no Trabzonspor.
E se Salah quiser mesmo a experiência de atuar em um país muçulmano - o que nunca foi realmente confirmado - a Turquia é uma boa pedida. Embora seja oficialmente secular, quase toda a população segue a mesma religião do maior artilheiro estrangeiro da história da Premier League.
Turquia ok, mas por que o Trabzonspor?
A resposta aqui é bem simples: Galatasaray e Fenerbahçe não pareceram interessados e o Besiktas não quis pagar o que Salah pediu. Então, descendo na hierarquia de clubes grandes da Turquia, chegou o Trabzonspor, em quarto lugar na lista de títulos, com sete. O último nem faz tanto tempo. Foi campeão em 2021/22, antes do tetracampeonato do Galatasaray.
Na última temporada, o Trabzonspor foi terceiro colocado e enfrentará o Ferencváros ou o Górnik Zabrze, da Polônia, por uma vaga na fase da liga da Liga Europa. Salah terá que impulsionar seu novo clube a uma das duas primeira posições para retornar à Champions League.
O elenco não tem tantas figurinhas carimbadas. O nome mais famoso é o goleiro camaronês André Onana, ex-Manchester United. Salah contará com o ucraniano Ruslan Malinovskyi para ser acionado na ponta direita e tentará dar assistências para o atacante nigeriano Paul Onuachu - um dos artilheiros da última temporada da Süper Lig, com 22 gols. Ele também estará ao lado de dois heróis de Cabo Verde na Copa do Mundo: os laterais Wagner Pina e Sidny Lopes Cabral, autor daquele golaço contra a Argentina.
Giro
Por Bruno Bonsanti
- A novela da renovação de Vinicius Jr. com o Real Madrid terminou. E com o final mais esperado: o clube merengue anunciou que o brasileiro assinou um novo contrato, com validade até 2032. O suficiente para extinguir a boataria, pelo menos em um futuro próximo. O interesse do Arsenal, preparado para embarcar em uma operação cara e dificílima para contratá-lo, acabou acelerando o processo, o que era sempre uma possibilidade. Para um craque desse tamanho deixar o Real Madrid, precisa haver mais do que um encaixe estranho com Kylian Mbappé e uma negociação arrastada. Geralmente exige uma ruptura irremediável. Nunca pareceu que era o caso, e Vinicius terá a oportunidade de continuar a sua linda história no Santiago Bernabéu.
- O Real Madrid também confirmou a contratação de Yan Diomandé, que se arrastava há algumas semanas. O valor - que pode chegar a € 140 milhões com as variáveis, segundo o The Athletic - é assustador para um jogador de 19 anos que tem apenas uma temporada pelo Leganés e uma pelo RB Leipzig no currículo, por mais promissor que seja. Torna-se mais um jogador do elenco do Real Madrid (o quarto) que prefere jogar pela esquerda, mas terá que se adaptar ao outro lado do esquema de José Mourinho. Diminui um pouco mais o espaço para Endrick, avaliando onde prefere morar na próxima temporada, e também para Rodrygo, que terá que pensar a sério sobre o que quer para a sua carreira quando voltar de lesão.
- Gianni Infantino parece ter conseguido controlar a dissidência no seu círculo mais próximo. Alguns dirigentes haviam levado a público seu descontentamento com a proposta de vender parte dos direitos comerciais das competições da Fifa. A entidade emitiu um comunicado reiterando apoio ao seu presidente e disse que ele até escreveu uma carta pedindo desculpas às 211 federações por não tê-las consultado durante o processo. No entanto, não foi suficiente para aplacar a ira da Uefa. Havia duas condições para os europeus abandonarem a ideia de boicotar os torneios da Fifa: que o plano fosse arquivado, o que aconteceu, e que houvesse garantias de que “tentativas como essa de desfigurar o jogo” nunca mais fossem feitas, o que não aconteceu. A Uefa reforçou que perdeu confiança na presidência de Infantino.
- O presidente da CBF, Samir Xaud, afirmou que é “um pouco contra” o plano de Gianni Infantino. Um posicionamento forte e contundente, depois de uma semana de silêncio e da ideia já ter sido abandonada. Surpreendentemente, foi a Conmebol quem subiu o tom. Em um comunicado, afirmou que está preocupada com “repetidas ações unilaterais tomadas sem recorrer ao diálogo ou aos mecanismos estabelecidos para lidar com situações dessa natureza” por parte da Fifa. Embora tenha sido vaga no parágrafo em que menciona a próxima eleição presidencial, é uma declaração até que bem forte de uma entidade que sempre foi próxima de Infantino.
NA EDIÇÃO ANTERIOR DA NEWSLETTER…
Na edição anterior da newsletter, listamos algumas histórias que aconteceram, estão prestes a acontecer ou simplesmente merecem um pouco de atenção no mercado de transferências da Europa, a cerca de duas semanas do começo da próxima temporada. A principal delas era a novela de Vinicius Jr., já resolvida, mas ainda tem várias pendências para acompanhar.





