Virada já foi sinônimo de concentração à Seleção
Houve uma época que o período era de preparação e até de jogos de torneios sul-americanos, com direito a craques concentrados e até algumas polêmicas
Em meio às festas de fim de ano, trazemos a história da Seleção concentrada em pleno momento festivo, mais um renascimento de Diego Simeone no Atlético de Madrid e classe média com aspirações na Premier League.
Boas festas para todos!
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Quando os craques da Seleção passavam as festas de fim de ano dentro da concentração
Por Leandro Stein
Num período de peladas infestadas por subcelebridades e intermináveis especulações no famigerado “mercado da bola”, as festas de fim de ano são sinônimo de vazio existencial no futebol brasileiro. Nem sempre foi assim, porém. Décadas atrás, Natal e Ano Novo eram épocas sem descanso até para os maiores craques do Brasil. Não foram poucas as vezes em que a Seleção atravessou a virada em concentração para competições ou até mesmo disputando campeonatos.
Diferentes edições da Copa América, então chamada de Campeonato Sul-Americano, foram realizadas entre janeiro e dezembro. A escolha deste período era um tanto quanto compreensível, por causa do intervalo entre temporadas nos principais campeonatos ao redor do continente – ainda que muitos clubes sequer parassem totalmente e agendassem amistosos na virada do ano.
Em tempos nos quais o dinheiro da bilheteria era fundamental, o período de recesso se tornava ideal para fisgar bilheterias maiores, especialmente quando os jogos noturnos eram raridade. No fim das contas, os principais talentos sul-americanos é que pagavam o pato, atravessando as festividades fora de casa.
A primeira vez que tal situação aconteceu com a Seleção foi em 1925, ano em que o Campeonato Sul-Americano foi realizado no mês de dezembro, em Buenos Aires. Aquela edição contou com a participação apenas de Argentina, Brasil e Paraguai. A rodada final do triangular em dois turnos foi marcada exatamente para 25 de dezembro, com um clássico natalino entre argentinos e brasileiros. Mais de 30 mil pessoas encheram as arquibancadas do Estádio Sportivo Barracas. O empate daria o troféu aos albicelestes, e foi o que aconteceu, num 2 a 2 marcado pelo clima bélico em pleno Natal.
O Brasil chegou a flertar com a vitória, o que forçaria um jogo-extra. Dois de seus principais astros fizeram a diferença, com os gols de Arthur Friedenreich e Nilo logo na primeira meia hora de partida. Contudo, distante do espírito natalino, uma confusão ocorreu. O zagueiro Ramón Muttis deu uma entrada desleal em Friedenreich, que revidou a agressão. O embate descambou para uma briga generalizada entre os jogadores, com invasão de campo da torcida. Os brasileiros precisaram ser protegidos pela polícia local.
Apaziguados os ânimos, a final logo seria retomada. A Argentina aproveitou o clima intimidatório e reagiu. O primeiro gol, no fim do primeiro tempo, veio com Antonio Cerotti. Já na segunda etapa, o astro Manuel Seoane garantiu a igualdade em 2 a 2 e o título para a Albiceleste. Na saída de campo, os brasileiros ainda receberam de "presente do Papai Noel" pedras e sacos cheios de água atirados pela torcida. No Rio de Janeiro, posteriormente, torcedores brasileiros fizeram passeatas em protesto nas ruas. Aquele jogo ficou conhecido como 'A Guerra de Barracas' – uma guerra ironicamente natalina.
O clássico contra a Argentina em 1925 foi a única partida na história da Seleção disputada no dia de Natal. Isso não quer dizer que os jogadores do Brasil tivessem sempre a data disponível para aproveitar com a família. A partir dos anos 1930, a realização do Campeonato Sul-Americano se deu diversas vezes na virada do ano. A começar por 1935, com a primeira rodada em 6 de janeiro. O Brasil se ausentou da edição realizada no Peru, mas os jogadores não tiveram escapatória rumo ao Sul-Americano de 1937.
A estreia do Brasil naquele Campeonato Sul-Americano aconteceu em 27 de dezembro de 1936. A delegação brasileira, assim, precisou partir do Rio de Janeiro rumo a Buenos Aires em 17 de dezembro. Numa época na qual as viagens de avião não eram opção, não houve solução para o Natal longe de casa.
O desembarque do navio Oceania na Argentina, ao menos, permitiu que os astros passassem a virada do dia 25 em terra firme – mas restritos ao hotel. O elenco incluía uma série de talentos da Seleção que logo faria história na Copa do Mundo de 1938. Para aquele Campeonato Sul-Americano, o técnico Adhemar Pimenta convocou figuras como Tim, Jaú, Jurandyr, Carvalho Leite, Patesko e Niginho.
O Brasil estreou com vitória diante do Peru, por 3 a 2, dentro do Viejo Gasómetro de Boedo. A primeira folga da Seleção veio só depois desse compromisso, mas ainda antes do Ano Novo, em 28 de dezembro. Os jogadores puderam sair à noite de Buenos Aires, mas "foi recomendado, com certa insistência, a absterem-se terminantemente de bebidas alcoólicas” – relatava o jornal A Noite, na época. Por outro lado, os boêmios ganharam permissão para ficar na rua até de madrugada.
Passado o Ano Novo, o Brasil voltou a campo em 3 de janeiro. Foi um movimentado triunfo por 6 a 4 sobre o Chile, na Bombonera. A boa campanha do Brasil no Sul-Americano de 1937 levou à realização de um jogo-extra ao final das cinco rodadas, diante da igualdade em pontos com a Argentina na tabela. Melhor para os anfitriões, que contaram com dois gols de Vicente de la Mata numa tumultuada partida para vencer por 2 a 0 na prorrogação e levar a taça.
O Brasil voltou a se ausentar do Campeonato Sul-Americano em 1939 e em 1941. Já na virada rumo a 1942, os brasileiros foram privados das festas de fim de ano em seu retorno ao torneio. A edição sediada em Montevidéu teve seu pontapé inicial em 10 de janeiro de 1942. Bem antes disso, a Seleção iniciou sua concentração na cidade mineira de Caxambu. A bagunça imperou por lá desde as vésperas do Natal. Minou as chances do forte elenco treinado por Adhemar Pimenta – que reunia figuras como Domingos da Guia, Zizinho, Sylvio Pirillo, Patesko, Tim, Servílio, Cláudio e Caju.
Em 24 de dezembro, parte do elenco convocado já estava concentrado. O Jornal dos Sports, no entanto, registrava ausências de atletas – inclusive algumas sem explicação. O próprio massagista Johnson ainda não estava presente, ao receber uma passagem errada da CBD para o Rio de Janeiro, e não para Caxambu. Pior, os primeiros treinos sequer tinham material esportivo, já que as chaves para abrir as malas onde estavam guardados os itens não haviam sido levadas à cidade mineira.
As condições melhoraram um pouco depois disso, permitindo os treinamentos, mas o clima instável se seguiu. O elenco ganhou folga em 31 de dezembro, mas estava em campo para atividades logo na manhã de 1° de janeiro. Os jornais relatavam insatisfações com o tratamento conferido pelo técnico Adhemar Pimenta e ainda havia incerteza sobre como a viagem ao Uruguai se daria, com a possibilidade de irem até de navio.
No fim, a delegação voou para Buenos Aires e só então seguiu a Montevidéu. Na estreia, a vitória por 6 a 1 sobre o Chile dentro do Centenario animou. Porém, as derrotas para Argentina e Uruguai custaram as chances de título, com a taça erguida pela Celeste.
Se não houve Campeonato Sul-Americano nos dois anos seguintes, as festas de fim de ano dos craques mesmo assim não foram tranquilas: o Campeonato Brasileiro de Seleções de 1943 teve suas finais em dezembro, com os dois últimos duelos entre Rio de Janeiro e São Paulo realizados nos dias 23 e 30.
Já na virada de 1944 para 1945, a rotina voltou a ser preenchida pela Seleção. O Sul-Americano de 1945, em Santiago, começou em 14 de janeiro. O Brasil estreou no dia 21 de janeiro, mas novamente a concentração se iniciou no mês anterior.
Outra vez não foi simples reunir os melhores jogadores do país em Caxambu, mesmo que o Natal tenha sido de folga, com a apresentação posterior. A chegada à cidade mineira foi gradual e provocou o descontentamento da comissão técnica – o jornal A Noite acusava o “pouco caso dos clubes e o relaxamento dos craques”.
Conhecido por sua severidade, o técnico Flávio Costa estabeleceu uma data limite em 30 de dezembro. O comandante ameaçou dispensa sumária e até mesmo penas mais duras, como multas e suspensão. Na véspera do dia 30, oito atletas não tinham chegado, entre aqueles que justificavam lesão e outros sem explicação. De Zizinho, por exemplo, ninguém sabia o paradeiro.
"O nosso trabalho está sendo inteiramente prejudicado, pois não sei com quem posso contar ao certo para formar os dois quadros que irão a Santiago. O tempo que nos resta é exíguo e por esse motivo serei obrigado a utilizar apenas os players que aqui estão", afirmou o técnico Flávio Costa, ao Jornal dos Sports. Zizinho apareceu na concentração no dia 31 e ganhou o indulto.
Entretanto, a firmeza do treinador resultou em dispensas estelares. Leônidas da Silva desembarcou em Caxambu só em 2 de janeiro e não foi aceito no grupo por Flávio Costa. Recebeu uma suspensão, assim como outros três companheiros do São Paulo (Remo, Luizinho e Noronha) que não cumpriram os prazos. Até o final de dezembro, o Tricolor excursionava pelo Uruguai fazendo amistosos.
Nem todos os que estiveram em Caxambu durante as festas de fim de ano em 1944 foram ao Campeonato Sul-Americano de 1945. O técnico Flávio Costa ainda realizou alguns cortes, durante os últimos treinos no Rio de Janeiro, antes da viagem ao Chile. Era um grupo fortíssimo que reunia um quinteto ofensivo formado por Tesourinha, Zizinho, Heleno de Freitas, Jair Rosa Pinto e Ademir de Menezes, além de figuras em outros setores como Domingos da Guia, Danilo Alvim e Oberdan Catani. A derrota por 3 a 1 para uma potente Argentina, todavia, abriu caminho para a conquista dos rivais.
O desafio de Flávio Costa se repetiu na virada de 1945 para 1946. Novos compromissos da Seleção ocupavam as festas de fim de ano. E com um detalhe: o Brasil jogou a Copa Roca contra a Argentina até 23 de dezembro, enquanto em 5 de janeiro disputou a Copa Rio Branco contra o Uruguai. A estreia no Campeonato Sul-Americano de 1946, em Buenos Aires, ocorreu em 16 de janeiro.
Apesar do calendário apertado, os jogadores ainda puderam passar o Natal com suas famílias. A conquista da Copa Roca sobre a Argentina no dia 23 se consumou com a vitória por 3 a 1 em São Januário. Em uma convocação que concentrava atletas de Rio e São Paulo, os jogadores foram liberados para folgar nos dias seguintes. A reapresentação aconteceu em 27 de dezembro, com grupos divididos no Pacaembu e em São Januário, antes que todos se juntassem no Rio de Janeiro. Só não tiveram o Ano Novo livre, com a viagem para Montevidéu em 2 de janeiro.
O Uruguai conquistou a Copa Rio Branco, com vitória por 4 a 3, antes do empate por 1 a 1 – ambos os jogos foram realizados no Centenario. Por fim, a estreia do Brasil no Campeonato Sul-Americano rendeu a vitória por 3 a 0 sobre a Bolívia. A equipe de Flávio Costa tinha qualidade para mirar a taça. Nomes como Ademir, Domingos, Danilo, Heleno, Jair, Tesourinha e Zizinho seguiam no grupo, reforçados por Leônidas. Conseguiram a revanche por 4 a 3 sobre o Uruguai de Obdulio Varela, mas não superaram a Argentina de Adolfo Pedernera e Ángel Labruna. Em mais um clássico repleto de entreveros, a Albiceleste venceu por 2 a 0, dois gols de Norberto Méndez, e foi campeã.
O Natal de 1947 também poderia estar em risco para os jogadores da Seleção. Para alívio dos astros, a CBD abriu mão de disputar o Campeonato Sul-Americano realizado no Equador. Aquela edição, inclusive, teve dois jogos em 25 de dezembro: Argentina 2x0 Equador e Uruguai 1x0 Peru. Lendas como Alfredo Di Stéfano, José Manuel Moreno e Schubert Gambetta passaram as festas bem longe de casa.
Em 1949, o Campeonato Sul-Americano aconteceu no Brasil. As datas mudaram, com a competição organizada entre abril e maio. Foi o momento em que o calendário do torneio deixou de emendar com a virada do ano. Em 1956, apesar do início do Sul-Americano no fim de janeiro, o técnico Oswaldo Brandão só convocou o time após o Ano Novo.
Já uma exceção natalina ocorreu em 1959, na edição extra realizada em dezembro, no Equador. O Brasil encerrou sua participação no dia 22, contra a Argentina, e terminou em terceiro. O time dirigido por Gentil Cardoso reunia apenas jogadores do futebol de Pernambuco. Alguns atletas retornaram a tempo do Natal em Recife, mas parte do grupo ampliou a turnê, em preparação da equipe pernambucana para o Campeonato Brasileiro de Seleções.
O último jogo daquele Sul-Americano Extra de 1959 inclusive foi marcado para 25 de dezembro. Num duelo entre os dois últimos colocados, o Equador de Alberto Spencer venceu o Paraguai por 3 a 1. O artilheiro equatoriano foi o presente de Papai Noel para o Peñarol, logo se consagrando na conquista da primeira edição da Copa Libertadores em 1960 – da qual também foi o artilheiro inaugural.
O Campeonato Sul-Americano de 1967, outra vez sem o Brasil, teve uma fase preliminar realizada no fim de dezembro. Depois disso, o torneio não mais atrapalhou as festas. O modelo atual da Copa América, concentrada em sede única entre junho e julho, passou a vigorar a partir de 1987.
Já em 2025, os mais ávidos por futebol voltarão a contar com uma competição continental no período da virada: a Copa Africana de Nações começará em 21 de dezembro, no Marrocos, com jogos da fase de grupos na época do Natal e do Ano Novo. Ter partidas nestes dias em países muçulmanos, como no próprio Campeonato Marroquino, é bastante comum. Num torneio internacional de tanto peso, porém, não se vê há décadas.
Simeone reinventa o Atleti (de novo)
Por Bruno Bonsanti
Entre os principais clubes da Europa, nenhum técnico se aproxima da longevidade de Diego Simeone no Atlético de Madrid: 13 anos completos na última segunda-feira. Ninguém está isento de momentos de instabilidade durante tanto tempo, aparentemente nem Pep Guardiola, e o outro lado da moeda é que, quando eles chegam, fica inevitável se perguntar se o ciclo chegou ao fim.
Uma eliminação precoce na fase de grupos da Champions League de 2022/23, em último lugar, sem acesso nem à Liga Europa, atrás de Porto, Club Brugge e Bayer Leverkusen, gerou aquele que talvez tenha sido o principal momento externo de dúvida sobre o futuro de Simeone no Civitas Metropolitano.
O Atlético de Madrid terminou aquela temporada com uma arrancada que quase tirou o vice-campeonato do Real Madrid em La Liga e as especulações se dissiparam.
Por acaso, acabamos de descobrir qual foi o principal momento interno de dúvida. Em uma entrevista recente, Simeone contou que, depois da segunda derrota na final da Champions League para o Real Madrid, em 2016, ponderou se “ainda tinha força para continuar liderando o grupo para um lugar ao qual é difícil de chegar”.
Dois anos depois, foi campeão da Liga Europa.
Houve uma experiência similar e menos intensa entre setembro e outubro. Após uma derrota para o Betis, o Atlético de Madrid havia conseguido apenas duas vitórias em oito partidas por todas as competições em um intervalo de um mês. Levou 7 a 1 no agregado para Benfica e Lille.
Dois meses depois, derrotou o Barcelona no Camp Nou, pela primeira vez com Simeone fora de casa, chegou a 12 vitórias seguidas por todas as competições e virou líder de La Liga.
A esta altura, temos um roteiro pronto quando o momento do Atlético de Madrid é ruim:
A defesa parou de funcionar com a excelência exigida pelo seu estilo.
Ele está tentando armar um time mais ofensivo, ou deveria estar, para que o processo de vencer um jogo de futebol não se assemelhe tanto a arrancar um dente.
Alguns jogadores estão dando sinais de que não suportam mais o desgaste físico e mental.
Errou no mercado.
Qualquer outra coisa relacionada a Simeone porque, depois de tanto tempo de casa, tudo naturalmente gira em torno dele.
Pode ser que um ou outro desses problemas, brevemente talvez até todos eles, sejam verdadeiros, mas às vezes é apenas uma questão de ajustes.
Houve uma significativa reformulação. Mario Hermoso e Stefan Savic foram responsáveis por cerca de 6.000 minutos defensivos na última temporada e agora estão em outros clubes. Gabriel Paulista e Caglar Söyüncü foram opções bastante periféricas para a zaga, mas também saíram. O Atleti finalmente desistiu de João Félix e cansou de reclamar dos gols perdidos por Morata. Saúl Ñíguez, em certo momento a grande esperança para o futuro colchonero, foi respirar novos ares em Sevilha.
Simeone e a diretoria adotaram o caminho da consolidação. Investiram alto em quatro jogadores, além de Clément Lenglet por empréstimo. Ele e Robin Le Normand compuseram a zaga, Conor Gallagher reforçou o meio-campo, e Julián Álvarez e Alexander Sorloth, o ataque. Mudanças importantes em posições fundamentais. O maior desses investimentos, Álvarez, também é a maior decepção até agora, e é provável que ele precise de um bom tempo de adaptação.
Talvez não esteja claro para todo mundo o que aconteceu com ele: trocou Guardiola por Simeone. Em vez de participar de todas as fases da criação, cair pelas pontas, jogar até como meia e ter 25 chances de gol por partida, agora ele precisa ser mais objetivo e contundente em suas ações, aproveitar as duas ou três bolas que caem no seu pé por jogo. É como se o baterista do Pink Floyd fosse para o Motorhead. Ainda é rock and roll, mas, sabe, diferente.
Simeone precisou de um minuto para entender o que precisava fazer. O 3-4-1-2, a tática dominante, embora não exclusiva, desde o título espanhol de 2020/21 ficou para trás. Eles voltaram a praticar o bom e velho 4-4-2 em quase todas as partidas. Maior bandeira do clube no elenco, Koke perdeu espaço. O seu filho, Giuliano Simeone, sobe e desce pela meia-direita, que costumava ser o reino de Marcos Llorente, agora lateral direito. Ele varia um pouco no outro lado, entre Gallagher, mais meia, ou Samuel Lino, mais ponta. O ataque é Álvarez e Griezmann.
Curioso como um técnico considerado ortodoxo como Simeone ficou tão bom em reinventar o seu time com a temporada em andamento. Sempre dentro de moldes parecidos, é verdade, e passou da hora de desistirmos de tentar mudá-los. O Atlético de Madrid é o que é. Simeone declaradamente prefere o 1 a 0 - “porque trabalhamos bem na defesa e tivemos contundência no ataque” - ao 4 a 3 - “se vencemos por 4 a 3, temos que revisar algumas coisas”.
Não dominará a posse de bola com tanta frequência, não terá 30 finalizações com tanta frequência e conta mais com sua defesa que com seu ataque. Mas quando está jogando bem, é equilibrado como qualquer outro time. E quando está jogando mal, suas fragilidades ficam mais ressaltadas. Como qualquer outro time.
Pode ser que não seja suficiente para realmente ser campeão espanhol, mas nunca podemos esquecer a realidade financeira de La Liga. Apesar de 12 anos consecutivos na Champions League e de ser um clube relativamente bem gerido, o Atlético de Madrid ainda trabalha com um faturamento menor do que a metade dos de Real Madrid e Barcelona - € 365 milhões contra cerca de € 800 milhões, segundo o último estudo da Deloitte, sobre a temporada 2022/23, sem contabilizar vendas de jogadores.
O normal é que seja difícil. O normal é que não dê.
Mas deu mais vezes do que o torcedor mais otimista esperava, e talvez dê mais algumas até o fim do contrato de Simeone em 2027, porque o Atlético de Madrid sempre terá a cara do seu treinador: intenso, apaixonado, às vezes (esportivamente) traiçoeiro, irredutível, incapaz de desistir.
E quando está acuado, às vezes tão acuado quanto no último sábado, tanto o Atleti quanto Diego Simeone adotaram o hábito de dar a volta por cima e surpreender todo mundo.
Classe média ataca o Big Six
Por Felipe Lobo
A classe média da Premier League anda com uma estabilidade enorme. E com isso, tem conseguido campanhas que permitem até desbancar clubes do Big Six envoltos em problemas dos mais variados.
O Aston Villa foi o exemplo na temporada passada. Fez uma grande campanha e acabou na Champions League, superando Tottenham e Chelsea, além do cambaleante Manchester United. Na temporada atual, o Nottingham Forest briga no alto da tabela e times como Bournemouth e Fulham estão na disputa por vagas europeias.
Há razões para isso. Em uma liga que se tornou tão rica, os clubes fora do Big Six conseguem atrair talentos de grandes times de outros países e isso nem é uma novidade. Mais recentemente, é possível observar um outro fenômeno: a combinação de estabilidade na primeira divisão, trabalhos de longo prazo e bom mercado de transferências.
Mais do que atrair uma estrela, os clubes estão aprendendo a montar elencos mais completos, mais capazes de brigar no longo prazo. Trazer a estrela de um time do exterior pode ser bom, mas trazer vários jogadores que não são estrelas, mas são competentes para montar um bom time pode ser ainda melhor.
Isso só é possível com um trabalho estável, que mantenha o time na primeira divisão. Clubes como Brentford, Brighton, Fulham e Bournemouth têm conseguido fazer isso.
O Brighton trocou de treinador apenas porque Roberto De Zerbi quis sair, enquanto o Brentford mantém Thomas Frank desde 2018 e o Fulham tem Marco Silva desde 2021. Ainda tem o Bournemouth de Andoni Iraola, no cargo desde 2023, outro clube que consegue um trabalho estável para se manter na primeira divisão.
Esses times estão aprendendo a competir com times mais robustos para encarar a temporada e, ainda que não tenham a mesma profundidade de elenco dos clubes do Big Six, conseguem ser competitivos semana a semana.
Na atual temporada, conseguem ter elencos mais equilibrados que times como Manchester City, Arsenal, Tottenham e Manchester United, que têm times titulares fortes, mas um elenco que nem sempre está à altura para o nível de competição que se espera deles.
Liverpool e Chelsea são exceções, por motivos diferentes. O Liverpool se montou com precisão ao longo dos anos, com muitos acertos e poucos erros no mercado. Tem um elenco hoje que é muito mais completo do que a maioria dos rivais e têm flexibilidade para mudanças.
O Chelsea chegou ao mesmo resultado por um caminho diferente, contratando um enorme número de jogadores e peneirando até chegar ao que tem hoje. Graças também ao bom trabalho do novo técnico, que finalmente parece conseguir extrair bom futebol dos ótimos jogadores que o clube tem.
Os times médios conseguem melhorar o nível e aproveitar as baixas de times como Manchester United, Tottenham e até o Manchester City nesta temporada, mas mesmo isso parece ter um teto.
O Aston Villa está sofrendo com o calendário com Champions League, algo que acontece também com outros times. Os elencos robustos para a Premier League se tornam mais exigidos com as competições internacionais e manter o nível na disputa doméstica se torna um grande desafio. Vimos isso com o Newcastle, anteriormente.
Eventualmente times com essa estabilidade também sofrem, como o Wolverhampton, Everton e Crystal Palace. O Everton viveu um caos nos últimos anos com a gestão de Farhad Moshiri e espera melhorar com o Friedkin Group, o mesmo da Roma; o Crystal Palace tem um dono que quer vender o clube, o Eagle, de John Textor; o Wolverhampton tem sido errático em sua gestão de futebol. Todos eles, porém, são clubes estáveis na primeira divisão e tentando sobreviver a esses momentos de crise administrativa.
É quando a classe média da Premier League passa por esses problemas que fica mais evidente um abismo entre eles e os times que sobem da segunda divisão. Se a Premier League já é muito rica em relação até a grandes ligas de outros países, em relação à sua segunda divisão o abismo também é grande. E os times que sobem têm sofrido para evitar o rebaixamento. Ao mesmo tempo, esses times se tornam fortes demais para a segunda divisão, por vezes aproveitando o dinheiro da passagem na primeira divisão.
Há uma espécie de elite da segunda divisão, que sempre bate à porta da primeira, mas sofre para permanecer por lá. O Leicester é um exemplo: o time caiu da primeira divisão e foi arrasador na segunda. Agora, na sua temporada de retorno, está na zona de rebaixamento e é um grande candidato a cair.
Do outro lado, o Fulham é um exemplo de quem ascendeu de um time iô-iô para ser um clube estável, em parte graças ao ótimo trabalho de Marco Silva à frente da equipe. Uma vez estabilizado na primeira divisão, o time tem conseguido força para se afastar da parte de baixo e deixar mais difícil para novos postulantes a essa situação.
Encontrar uma forma de evitar esse abismo entre primeira e segunda divisão é um grande desafio que a Premier League precisará pensar como resolver. Porque a combinação de dinheiro, estabilidade e competência tem tornado a tarefa de quem está embaixo cada vez mais difícil para entrar nessa roda gigante.
Giro
- Uma das ações de Natal mais bonitas de 2024 foi garantida por Alex Iwobi. O meia do Fulham nasceu na Nigéria, mas mudou-se para a Inglaterra com a família aos quatro anos de idade e foi criado na periferia de Londres. Às vésperas das festas de fim de ano, Iwobi abriu na vizinhança de Canning Town o “Alexpress”, um mercadinho para ajudar famílias carentes da região. O centro de distribuição ofereceu uma variedade de alimentos gratuitamente aos visitantes, incluindo generosos perus. O vídeo produzido pela BBC News é comovente, em especial pela emoção de um dos beneficiados que não tinha condições para uma ceia farta. É o espírito natalino em seu mais puro estado.
- O Atlético Nacional terminou o ano de maneira espetacular. Na mesma semana, os Verdolagas conquistaram a Copa Colômbia e o Torneio Finalización do Campeonato Colombiano. O técnico mexicano Efraín Juárez contou com vários jogadores rodados no elenco, um deles com protagonismo especial: David Ospina, de volta ao clube após 16 anos. O goleiro deixou os paisas como uma promessa, aos 20 anos, e retornou em julho, trazido do Al-Nassr. Pode não ser um arqueiro impecável, mas sua história é respeitável, entre as passagens por grandes clubes da Europa e o recorde de jogos pela seleção. Apesar dos problemas de lesão, Ospina fez a diferença no momento decisivo e pegou um pênalti na volta da final do Finalización, contra o Tolima. Foi seu quarto título de liga pelo Atlético Nacional, os três primeiros quando ainda era um adolescente. Curiosamente, seu filho, Max, também foi campeão pela base Verdolaga no final de semana. Na equipe principal, vale mencionar ainda Edwin Cardona e Alfredo Morelos, outros dois medalhões que fizeram a diferença no ataque.
- O Campeonato Boliviano instaurou playoffs de acesso/rebaixamento nesta temporada. O vice-lanterna da primeira divisão ganhou o direito de disputar sua permanência na elite contra o vice-campeão da Copa Simón Bolívar, a segunda divisão local. E, em pleno 23 de dezembro, o que menos prevaleceu foi o espírito natalino na decisão. O Royal Pari se aproximou da permanência logo na partida de ida, ao vencer por 4 a 0 o Totora Real Oruro, que buscava a promoção. A bagunça, todavia, se deu na volta, quando o Real Oruro abriu 3 a 0 diante de sua torcida em 38 minutos e vislumbrou a reviravolta. Diante da marcação de um pênalti para os adversários no final, o Royal Pari resolveu abandonar a partida aos 36 do segundo tempo. A justificativa do clube foi “falta de segurança”, após um enfrentamento com a polícia em meio à confusão que se armou, embora tenha soado como tentativa de melar a virada dos anfitriões. No fim das contas, a definição do duelo caberá ao comitê disciplinar da federação boliviana. O primeiro acesso à elite havia sido conquistado pela Academia del Balompié Boliviano, que estreará na primeira divisão.
- Alguns treinadores são melhores em superar expectativas do que em cumpri-las. A estratégia que leva a vitórias surpreendentes às vezes não é tão boa para conseguir as esperadas. Nuno Espírito Santo tem um dos melhores trabalhos da história recente da Premier League. Armou um Wolverhampton que conseguiu duas campanhas seguidas de sétimo lugar, logo depois do acesso, derrotou gigantes com certa frequência, tornou-se uma pedra no sapato do Manchester City, quando isso era raridade, e chegou às quartas de final da Liga Europa. Era um time sólido na defesa, rápido e forte fisicamente, objetivo nos contra-ataques. Quando seu ciclo naturalmente terminou, teve sua grande chance no Tottenham e durou menos de quatro meses. Após resolver a vida financeira do seu tataraneto na Arábia Saudita, retornou para comandar o Nottingham Forest e surpreende novamente, estabelecido até com folga no G4, perto da virada do turno. Alguns fundamentos são parecidos. O Forest tem até menos posse que aquele Wolverhampton (40% versus de 45% a 49%) e também é forte em contra-ataques e bola parada, embora use menos os lançamentos. De qualquer maneira, é outro excelente trabalho com um clube de meio de tabela da Inglaterra que sugere que talvez esse seja o nicho de Nuno. Não dá para ter certeza ainda porque o Tottenham não é um grupo de controle sem contaminações para avaliar trabalhos de técnicos. Há problemas mais profundos por lá.
- Uma discussão recorrente na Europa é se a Bundesliga tem a melhor segunda divisão do planeta. Argumentos não faltam: a quantidade de clubes tradicionais, o ambiente contagiante nas arquibancadas, a elevada média de gols. Alcançada a metade da atual temporada, há outro atrativo especial nesta edição da 2. Bundesliga: o impressionante equilíbrio. Apenas cinco pontos separam o líder Colônia (31) do nono colocado Kaiserslautern (26). Já o 12°, o Hertha Berlim (22), está a seis pontos da zona de acesso. Emoção não deve faltar para determinar os promovidos. Até o momento, dez times passaram pelo G-3 nestas 17 rodadas. E isso porque gente graúda anda patinando, a exemplo do Schalke 04, mais perto da briga contra o descenso neste momento.
- O prêmio de protesto de Natal mais criativo vai para a torcida do Osnabrück, na terceira divisão do Campeonato Alemão. É normal no país que torcedores arremessem bolinhas de tênis e outros objetos do tipo no gramado, a fim de paralisar o jogo e demonstrar insatisfação. No caso dos violetas, no clima natalino, foi atirado um pequeno pinheiro (!) e suas respectivas bolinhas de decoração. A manifestação se deu contra a sequência de quatro jogos do clube aos domingos, num momento do ano voltado às festas familiares. Na Alemanha, vale ressaltar, a tradição do futebol é maior aos sábados.
- O Natal de 2024 teve sua dose de futebol de seleções. A virada do ano não é impeditivo para a realização da Copa do Golfo, tradicional torneio no Oriente Médio, que está em sua 26ª edição. Até pelos problemas de alguns árabes nas Eliminatórias para a Copa do Mundo, todos os participantes da Copa do Golfo estão com força máxima, visando o título e também a melhora de seu nível recente. Em 24 de dezembro, duas surpresas nos placares, em embates pela fase de grupos: Omã 2x1 Catar e Kuwait 2x1 Emirados Árabes Unidos. Os brasileiros Caio Canedo, Fábio Lima e Bruno Oliveira atuaram por Emirados Árabes Unidos na véspera do Natal, enquanto Lucas Mendes foi titular no Catar. Já no dia 25, mais emoção com Arábia Saudita 3x2 Iêmen e Bahrein 2x0 Iraque. Os iraquianos são os atuais campeões, enquanto os kuwaitianos são os maiores vencedores da competição, com dez taças.
Melhor presente possível é poder fechar o ano voltando a ler os textos de vocês, amigos!
Acho que tô igual ao Iamin, conseguindo identificar o autor de cada texto no escuro, só pelo estilo da escrita.
Depois de mais de uma década lendo o antigo site, é uma sensação incrível poder novamente acompanhar textos com tanta pesquisa, análises sérias, senso crítico e um bom humor na medida certa!
Um feliz ano novo para todos vocês!
Que em 2025 possamos continuar lendo, ouvindo e acompanhando tudo o mais que vocês fizerem.
Um grande abraço!