A Copa da diáspora começou pelo gol certo
Colombiano de nascimento e mexicano de coração, Quiñones representa um grande grupo na Copa da diáspora
Newsletter Meiocampo #149 — 12 de junho de 2026
Está sentindo por aí? É o clima de Copa que invadiu a Cidade do México (e nossos corações) na estreia do Mundial. Teve festa da torcida e do time da casa, teve a história improvável de Julián Quiñones — o colombiano que abriu o placar do torneio pelo México — e teve até brasileiro se destacando, se positiva ou negativamente, cada um julga por si. Daqui até 19 de julho, a Copa também se vive aqui: teremos edições após todos os dias de jogos, a começar por esta sexta. Para receber todas, torne-se assinante — e aproveite o desconto no plano anual. Na edição de hoje, ainda: Coreia do Sul x Tchéquia e um boletim comentando as principais notícias da competição.
Vale lembrar: as edições de terça-feira e eventuais extras são exclusivas para assinantes. Às sextas-feiras, continua o conteúdo gratuito aberto ao público. Sugestões, críticas, elogios, quer só mandar um abraço: contato@meiocampo.net.
A Copa da diáspora começou pelo gol certo
Por Felipe Lobo
Na Copa da diáspora, nada mais simbólico que o primeiro gol ter sido marcado por um dos jogadores que não nasceram no país que defendem. Julián Quiñones fez o primeiro gol da Copa pelo México, mas nasceu em Magüí Payán, na Colômbia. Não tem ascendência mexicana — tem algo que o futebol de seleções passou a aceitar como equivalente: uma vida construída no país. O que, aliás, é o que o país aceita para tornar alguém cidadão.
Os números explicam por que esta é a Copa da diáspora. São 289 jogadores defendendo seleções de países onde não nasceram — 23,2% dos 1.248 inscritos, quase um a cada quatro, recorde absoluto. No Catar, eram 16,5%. Das 48 seleções, 40 têm ao menos um jogador nascido fora; Curaçao leva 25 entre 26 convocados. E apenas oito seleções são formadas inteiramente por nativos (entre elas, o Brasil). Duas delas estavam ligadas ao gol de Quiñones: a África do Sul, que o sofreu, e a Colômbia, onde ele nasceu.
Criado na Colômbia, mudou-se para o México ainda jovem para defender a base do Tigres, depois de impressionar olheiros. Aí começa sua história mexicana — uma trajetória de altos e baixos, com empréstimos a Venados e Lobos BUAP que renderam gols, mas não minutos no Tigres.
Enquanto isso, chegou a ser convocado para a seleção sub-20 da Colômbia. Jogou o Sul-Americano Sub-20 de 2017 pelos Cafeteros, quando os colombianos acabaram em sexto lugar. Defenderia ainda o sub-21 nos Jogos Centro-Americanos e do Caribe de 2018, em Barranquilla, vencidos pela Colômbia. Mas foi naquele ano que as coisas mudaram para ele.
O atacante aponta a Copa do Mundo da Rússia como o momento decisivo. O jogo entre México e Alemanha foi o que o fez se sentir mexicano, quando se viu torcendo e sofrendo pelo El Tri.
Depois das categorias de base, Quiñones nunca recebeu convocação para a seleção principal da Colômbia — até 2023, quando já estava em processo de naturalização. Vieram dois chamados, e ele recusou os dois. Não queria mais defender o país onde nasceu. Em outubro de 2023, conseguiu a cidadania mexicana.
Àquela altura, sua carreira já tinha decolado. Emprestado ao Atlas em 2021, fez sucesso imediato e foi contratado em definitivo. Ajudou o clube a conquistar dois títulos mexicanos seguidos e encerrar um jejum de 70 anos. O desempenho o levou ao América, o clube mais popular do país, onde conquistou mais dois títulos.
Em 2024, o Al-Qadsiah pagou US$ 16 milhões para contratá-lo — a venda mais cara da história do futebol mexicano. Aos 29 anos, vive seu melhor momento na Arábia Saudita: terminou a temporada 2025/26 com 37 gols em 35 jogos, sendo 33 na liga (em 31 partidas), à frente de Ivan Toney (32), do Al-Ahli, e de Cristiano Ronaldo (28), do campeão Al-Nassr.
Marcar o primeiro gol da Copa pelo México no Estádio Azteca é o auge dessa história. E é também o retrato do torneio que começa: o gol de abertura da Copa mais diaspórica da história saiu dos pés de um homem que não cabia na lista da seleção onde nasceu — e atravessou a defesa de uma das poucas que ainda só convocam quem nasceu em casa.
BOLETIM DA COPA
- México 2 x 0 África do Sul: vitória sem brilho, estreia com peso. A vitória do México por 2 a 0 não foi exatamente uma surpresa, e a forma como a África do Sul tentou jogar, num estilo que lembrava o Mamelodi Sundowns, também não. O Estádio Azteca urrava a cada toque dos mexicanos na bola, a pressão na saída de bola sul-africana era tão intensa quanto a das arquibancadas, e foi dela que nasceu o primeiro gol da Copa, aos nove minutos: Erik Lira desarmou Siphephelo Sithole, a sobra ficou com Julián Quiñones, que puxou para o meio e bateu rasteiro. No segundo tempo, com o ritmo em queda e a torcida já reclamando, Roberto Alvarado cruzou para Raúl Jiménez fazer 2 a 0 de cabeça, livre na segunda trave. O placar poderia ter sido maior se o México tivesse feito uma partida melhor do que apenas razoável — Jiménez e Quiñones desperdiçaram boas oportunidades ainda no primeiro tempo, incluindo uma bola na trave do colombiano naturalizado. O jogo terminou com três expulsões, e o árbitro era o brasileiro Wilton Pereira Sampaio, conhecido por distribuir cartões: a de Sithole (em partida horrorosa) é indiscutível, a de Themba Zwane pareceu rigorosa até o replay mostrar o tapa no adversário, e a do capitão mexicano César Montes foi dura, mas havia argumento para enquadrar a falta como chance clara de gol. Se no Catar houve só quatro expulsões em todo o torneio, a Copa de 2026 começou com três em um só jogo. Considerando o peso de estrear uma Copa em casa — lembramos bem como foi por aqui —, foi uma boa vitória.
- Raúl Jiménez: sete jogos, três Copas e uma fratura no crânio depois. O gol mais celebrado da noite no Azteca não foi o primeiro da Copa, e sim o segundo do jogo. Aos 35 anos, em sua quarta Copa do Mundo e em seu sétimo jogo no torneio, Raúl Jiménez finalmente marcou um gol de Mundial — e a espera explica a emoção do centroavante, que apontou para o céu numa homenagem ao pai e chorou ainda no gramado. Jiménez jogou seis minutos no Brasil em 2014, dois jogos na Rússia em 2018 e os três do Catar em 2022, quando ainda carregava as sequelas da fratura no crânio sofrida em 2020, num choque de cabeça com David Luiz que ameaçou encerrar sua carreira — somados, 183 minutos em campo até a bola entrar. Quando entrou, escolheu o cenário: o estádio Azteca, onde joga o América, clube que o formou, na abertura de uma Copa em casa. De quebra, o gol foi o 47º dele pela seleção mexicana, um a mais que Jared Borgetti, isolando-o como quarto maior artilheiro da história do El Tri. O futebol não costuma pagar as dívidas que acumula com seus veteranos. Com Jiménez, quitou tudo de uma vez.
- Coreia do Sul 2 x 1: Tchéquia: A Tchéquia jogou com as armas que tinha. O único âmbito em que poderia ter superioridade sobre a Coreia do Sul seria mesmo no físico, então mandou todas as bolas que poderia para a área. Não teve tantas oportunidades de fazer isso. Marcou o seu gol de cabeça, direto de uma cobrança de lateral, teve outro anulado e Adam Hlozek quase fez o segundo em uma sobra. O que tornou o jogo em Guadalajara mais emocionante do que deveria ter sido foi a demora dos sul-coreanos para transformar o domínio em bola na rede. O domínio foi amplo. Sob a regência de Lee Kang-In, o melhor em campo, não houve dúvidas sobre qual dos times joga mais. Son Heung-min ficou a centímetros de abrir a sua quarta Copa do Mundo com um golaço, como o de Hwang In-beom, com um corte seco antes de um toque de cavadinha. Hyeon-gyu Oh, a dez minutos do fim, assegurou a merecida vitória da Coreia do Sul, que teve uma estreia promissora contra uma seleção feia e meio grossa, mas forte fisicamente e com alguns bons nomes do futebol europeu. Está claro que o confronto direto da próxima quinta-feira, no mesmo Estádio Akron, decidirá quem ficará em primeiro lugar no Grupo A.
- Uma coisa tem ficado clara no começo do trabalho de Carlo Ancelotti: na dúvida, ele recorrerá à experiência e/ou a jogadores que acompanhou de perto em sua longa carreira no futebol europeu. Uma estratégia justificável, dado o pouco tempo que teve para testes e para observar os candidatos de perto. Logo, não é surpresa que tenha indicado ao longo da semana que deve começar a Copa do Mundo com Danilo e Alex Sandro nas laterais. Eles podem não estar na melhor das fases pelo Flamengo, mas não lhes falta rodagem nos jogos e campeonatos mais exigentes. O primeiro emendou Real Madrid, Manchester City e Juventus antes de voltar ao Brasil, o segundo fez mais de 300 partidas pela Velha Senhora. E não é que Cafu e Roberto Carlos estão pedindo passagem. Ancelotti também deve atender aos apelos populares por um terceiro meia, com Lucas Paquetá ao lado de Casemiro e Bruno Guimarães para enfrentar Marrocos.
- Dono de um dos melhores ciclos fora da Europa e da América do Sul, talvez o mais interessante, o Japão recebeu uma péssima notícia na última quinta-feira. O capitão Wataru Endo foi cortado devido a uma lesão no tornozelo. Ele se machucou em fevereiro, em uma partida contra o Sunderland, e não conseguiu voltar a jogar antes do fim da Premier League, embora tenha ficado no banco na última rodada. A expectativa de que pudesse evoluir durante a preparação acabou não se confirmando. Para piorar, o jogador de 33 anos, que teve muito pouco espaço com Arne Slot e entra na última temporada do seu contrato, decidiu se aposentar da seleção, após 73 jogos e quatro gols. O treinador do Japão, Hajime Moriyasu, preferiu substituí-lo por um atacante: Shuto Machino, que marcou três vezes pelo Borussia Mönchengladbach na última Bundesliga.
- Outro corte aconteceu na Argentina. Leonardo Balerdi, uma das adições recentes de Lionel Scaloni, sofreu uma lesão muscular na perna direita. Embora tenha estreado pela seleção em 2019, o capitão do Olympique de Marselha começou a integrar o grupo com frequência apenas no meio das Eliminatórias Sul-Americanas, dois anos atrás. Foi titular em duas partidas mais tranquilas (Peru e Chile) e na última rodada contra o Equador, claramente uma peça de rotação no setor que mais tira o sono da atual campeã. Scaloni escolheu Marcos Senesi para substituí-lo. O zagueiro do Bournemouth disputou 37 das 38 rodadas da Premier League e contribuiu para o sexto lugar, que rendeu ao clube sua primeira classificação a competições europeias, antes de sair ao fim do seu contrato para acertar com o Tottenham.
- O presidente da Fifa, Gianni Infantino, teve uma última chance de não ser capacho do governo de Donald Trump, mas, novamente, optou pela covardia. Deu de ombros ao ser questionado sobre o árbitro somali, Omar Artan, impedido de entrar nos EUA, em vez de apoiar quem na prática é um dos seus funcionários. A lógica por trás da defesa meia-boca às ações americanas não é consistente nem com o passado em que a Fifa era toda poderosa durante a Copa do Mundo e nem com o presente. Ao responder a um jornalista da BBC, rebateu se ele achava justo se o Reino Unido não tivesse o direito de decidir quem entrará no país durante a Copa do Mundo feminina que provavelmente sediará em 2035. Então… ele tem? Vale só para árbitros africanos ou para a próxima Alexia Putellas também?
SEJA MEMBRO.
Se você leu até aqui, já sabe o que o Meiocampo faz. Toda terça trazemos uma edição exclusiva para assinantes, mas a assinatura é também a forma de manter esse projeto funcionando. Jornalismo independente de futebol não se sustenta sem quem acredita nele. Se você acredita, o lugar é aqui. Mande aos amigos!
PODCAST MEIOCAMPO #238
É dia de início da Copa do Mundo! Neste programa trazemos os destaques, grupo a grupo, do que esperar do Mundial nos Estados Unidos, México e Canadá. Favoritos, possíveis surpresas, quem vai só para passear e muito mais.
Ouça também no Spotify, iTunes ou no seu tocador de preferência.
NA EDIÇÃO ANTERIOR DA NEWSLETTER…
A Newsletter Meiocampo conta com duas edições fixas semanais: às terças, exclusiva para assinantes, e às sextas, gratuita para o público em geral. Ocasionalmente, nossos assinantes também ganharão textos extras. Nesta quarta-feira, trouxemos o Guia Meiocampo da Copa do Mundo, seguindo uma tradição que criamos desde a época de Trivela. Aproveite!
Bom fim de semana!







