A fábrica de talentos por trás da final da CAN
Como o investimento estatal marroquino criou um centro de formação que começa a dar resultados
Newsletter Meiocampo #108 — 16 de janeiro de 2026
A decisão da CAN em Rabat não vale apenas a taça, mas a prova de fogo de um projeto nacional. Nesta edição, mostramos como a Academia Mohammed VI se tornou o coração da seleção marroquina que tenta destronar o Senegal. Nas curtas, o mercado da bola segue agitado: o Tottenham busca reforço no rival com Conor Gallagher e Luis Muriel retorna à Colômbia com status de estrela.
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Final da CAN põe à prova projeto de Marrocos contra a dinastia de Senegal
Por Felipe Lobo
Domingo, em Rabat, estarão em campo as duas visões mais bem-sucedidas do futebol africano recente. De um lado, o Marrocos de Walid Regragui, blindado defensivamente e carregando o peso de meio século sem taças continentais. Do outro, o Senegal que chega à sua terceira final nas últimas quatro edições (2019, 2021, 2025), agora comandado por Pape Thiaw, técnico que substituiu o vencedor Aliou Cissé e tenta provar que sua geração de ouro se renovou para manter a hegemonia.
É um choque de estilos opostos. Marrocos é uma fortaleza: sofreu apenas um gol ao longo de todo o torneio. Curiosamente, foi no único jogo que não venceu, o empate por 1 a 1 com Mali na fase de grupos. No mata-mata, a defesa passou ilesa contra Tanzânia, Camarões e Nigéria — neste último, um empate por 0 a 0 que só foi decidido nos pênaltis.
O projeto marroquino vive seu ápice de maturação. Walid Regragui assumiu os Leões do Atlas em agosto de 2022, meses antes de fazer história no Catar como a primeira seleção africana e árabe semifinalista de Copa do Mundo. Embora a derrota para a Croácia na disputa de terceiro lugar tenha doído, o recado estava dado: Marrocos mudou de patamar.
Essa mudança não foi acidental. A Academia Mohammed VI, inaugurada após um investimento estatal massivo entre 2007 e 2010, criou uma estrutura de elite — uma espécie de Clairefontaine norte-africana. Nasser Larguet, primeiro diretor técnico, peneirou 15 mil jovens para selecionar os primeiros 35. Hoje, o resultado está nos troféus e em campo.
Na campanha no Catar, em 2022, quatro jogadores do elenco já eram formados pela Academia Mohammed VI. A maior prova desse sucesso veio em 2025, quando a seleção Sub-20 conquistou o inédito título mundial da categoria, coroando uma geração dourada. Para se ter ideia do impacto: nove jogadores daquele elenco campeão mundial foram formados na Academia Mohammed VI, incluindo o artilheiro Yassir Zabiri e o capitão Abdelhamid Aït Boudlal.
Cinco jogadores forjados nessa estrutura fazem parte do time principal na CAN: o zagueiro Nayef Aguerd, pilar defensivo; Azzedine Ounahi, cérebro do meio-campo (que, machucado, pode não jogar a final); Youssef En-Nesyri, a referência de gols, mesmo vindo do banco; Oussama Targhalline, peça chave na rotação; e o próprio Aït Boudlal, zagueiro de 19 anos que ganha experiência e está disponível no banco. Isso valida a tese de que o país não depende apenas da diáspora europeia para competir.
Regragui mantém seu pragmatismo: controle posicional sem bola e saídas letais com o lateral direito Achraf Hakimi — indiscutivelmente um dos melhores do mundo na posição — e a criatividade do meia Brahim Díaz. Lá atrás, o goleiro Yassine Bounou (Al-Hilal) oferece a segurança de quem decide jogos, como visto nos pênaltis contra a Nigéria.
Apesar da qualidade, Marrocos enfrenta um fantasma. O único título da CAN veio em 1976, quando o modelo de disputa era completamente diferente: a fase final era decidida em pontos corridos. Com talentos de sobra, investimento pesado e trabalho consolidado, o cenário em casa parece ideal para encerrar o jejum de 50 anos. Se a pressão pode paralisar, o apoio massivo em Rabat pode ser o combustível que faltava para superar o trauma.
A grande questão tática é o encaixe. Se Marrocos se sente confortável defendendo em bloco baixo, Senegal quer a bola e agride. A muralha de Regragui funcionou até aqui, mas terá frieza para suportar o volume de jogo senegalês ou o fator casa forçará o time a se expor — exatamente o cenário que o rival deseja?
Senegal terá desfalques pesados: o capitão Kalidou Koulibaly e o meio-campista Habib Diarra, suspensos. Mamadou Sarr, promissor zagueiro de 20 anos emprestado pelo Chelsea ao Strasbourg, deve ser o substituto na defesa, trazendo potencial para assumir a titularidade em breve. No meio, Lamine Camara deve herdar a vaga após entrar bem na semi contra o Egito, oferecendo um encaixe dinâmico para um time que propõe o jogo. Sob o comando de Pape Thiaw, o time ganhou verticalidade e soma 12 gols no torneio, esbanjando potência ofensiva.
Thiaw, que substituiu Aliou Cissé em 2024, tenta um feito raro: unificar os cinturões. Ele já venceu o CHAN 2022 (torneio para jogadores locais) e agora busca o título principal apostando num jogo mais ofensivo. Uma das críticas ao antigo treinador era justamente o pragmatismo excessivo dos Leões de Teranga, que muitas vezes travava um elenco técnico. Thiaw parece tentar destravar esse potencial sem perder o equilíbrio defensivo.
Para os senegaleses, é a busca pela consolidação histórica. Sadio Mané, aos 33 anos, joga aquela que pode ser sua última final continental. Mas Senegal provou não ser um time de um homem só: os laterais Krépin Diatta e El Hadji Malick Diouf são válvulas de escape constantes, enquanto nomes como Idrissa Gueye, Pape Gueye, Nicolas Jackson e Iliman Ndiaye garantem profundidade de elite ao elenco.
Com Marrocos mirando a coroa de seu projeto de Estado para 2030 e Senegal buscando o segundo título em três finais recentes, Rabat verá mais que um jogo. Verá a definição de quem manda na África: se a velha guarda senegalesa segue como o time a ser batido ou se veremos a passagem de bastão para Hakimi e companhia assumirem o trono continental.
Marrocos x Senegal
Domingo, 16h - Complexe Sportif Moulay Abdellah
Transmissão: Bandsports, Bandplay e Youtube Esporte na Band
NA EDIÇÃO ANTERIOR DA NEWSLETTER…
A Newsletter Meiocampo conta com duas edições fixas semanais: às terças, exclusiva para assinantes, e às sextas, gratuita para o público em geral. Ocasionalmente, nossos assinantes também ganharão textos extras. Na última terça-feira, falamos sobre como Xabi Alonso pode talvez ter sido o técnico certo no lugar errado, em um período que durou muito pouco no Real Madrid e marcado com disputas com o vestiário.
GIRO
Por Bruno Bonsanti
- É engraçado que, na primeira oportunidade de mostrar por que achavam que não precisavam seguir as regras de Xabi Alonso, os jogadores do Real Madrid foram eliminados da Copa do Rei pelo 17º colocado da segunda divisão. Do alto de 22% de posse de bola, o Albacete não desanimou por ter concedido o empate duas vezes e, aos 49 minutos do segundo tempo, concretizou a profecia do seu técnico, Alberto González, que disse antes da partida que aquele seria o dia da primeira vitória da história do clube sobre o Real Madrid. Para aumentar a carga mística da zebra, Jefté, autor de dois gols, tinha passagem comprada para a Tailândia, onde assinaria contrato com o Buriram por um salário astronômico, mas na última hora decidiu permanecer no Albacete. Foi a estreia de Álvaro Arbeloa que, apesar da situação, deixou jogadores como Jude Bellingham, Kylian Mbappé e Rodrygo fora da viagem. “Chegamos ao fundo do poço”, afirmou, otimista, o lateral direito Dani Carvajal.
- Você nunca me verá defendendo jogador que tenta forçar transferência para outro clube. Considero um grande desrespeito com a torcida. Mas sempre há exceções, como no caso de Lucas Paquetá. Ele estava no auge da carreira, prestes a se transferir para o Manchester City, no qual trabalharia com o melhor técnico da história e com certeza ampliaria sua prateleira de troféus, quando virou alvo de investigação por manipulação de apostas. O processo durou quase dois anos, durante os quais foi cortado da seleção brasileira e a opinião pública decidiu que era culpado, até ser absolvido. Não foi um período dos mais fáceis. Entendo perfeitamente que ele queira mudar de ares e retornar a um ambiente familiar, onde receberá uma tonelada de carinho, principalmente porque, ainda com 28 anos, chegaria ao Flamengo como um dos melhores jogadores do futebol brasileiro.
- Caso o Newcastle não seja bicampeão da Copa da Liga, o cenário mais provável neste momento, Yoane Wissa nunca esquecerá os gols (pelo menos dois, além de uma bola na trave) que perdeu no jogo de ida das semifinais contra o Manchester City. Qualquer um deles teria aberto o placar. Como a bola não entrou, quem fez isso foi o City. Antoine Semenyo marcou pela segunda vez em duas partidas pelo seu novo clube. A derrota por 1 a 0 em casa era ruim suficiente para o Newcastle, não precisava ter concedido o segundo a um minuto do fim. Tudo caminha para uma final entre os líderes da Premier League porque o Arsenal derrotou o Chelsea por 3 a 2 em Stamford Bridge na outra semifinal.
- Os líderes do Campeonato Italiano entraram em campo na última quarta-feira e saiu apenas um gol. Para o azar do Napoli, foi marcado por Francesco Pio Esposito, da Internazionale, que bateu o Lecce e abriu seis pontos de vantagem. Ainda com muitos jogadores no departamento médico, o atual campeão ficou no 0 a 0 com o Parma, o terceiro empate seguido, e está mais próximo da briga pelo terceiro lugar do que da liderança. Juventus e Roma estão apenas um ponto atrás. Quem sabe teremos mais uma briga restrita a Milão pelo scudetto porque o Milan conseguiu uma grande vitória fora de casa sobre o sexto colocado Como na quinta-feira e ficou a apenas três pontos da rival.
- Nós nos acostumamos tanto a ver o Bayern de Munique amassando adversários na Bundesliga que às vezes é difícil saber se estamos diante de um time realmente especial ou apenas de um que preferiu não se auto-sabotar. Então, vamos aos números. Com a vitória sobre o Colônia, na última quarta-feira, os comandados de Vincent Kompany fecharam o melhor primeiro turno da história da Bundesliga, com 15 vitórias e dois empates. Igualaram os 47 pontos do time de Pep Guardiola em 2013/14, mas com um saldo de gols maior. E é essa estatística que mais impressiona. Aquele Bayern tinha um saldo positivo de 35 gols. O atual tem 53. Os 66 gols marcados a essa altura superam, em muito, a maior marca anterior - 56 em 2021/22. O Bayern será campeão alemão. A questão é se baterá o recorde de 91 pontos do campeão da Tríplice Coroa de Jupp Heynckes (precisa de 45 pontos no segundo turno) e o de 101 gols do Bayern de 1971/72 (precisa marcar mais 36, então, sim).
- Se você quiser um dado para entender quão ruim está a fase do Ajax, pela segunda vez em três anos os torcedores que viajaram para vê-lo jogar tiveram seus ingressos reembolsados. Aconteceu em 2024, depois de uma derrota para o amador USV Hercules, pela Copa da Holanda, e nesta semana, após outra eliminação naquela competição. O AZ Alkmaar enfiou 6 a 0, a sua maior goleada no confronto direto. Eu insisto em associar o que acontece de ruim com o Ajax à derrocada da temporada passada que permitiu o título do PSV porque não tenho outra maneira de explicar. Eles estão em terceiro lugar, a 16 pontos dos líderes - o próprio PSV - após 18 rodadas, o que para os seus padrões é uma tragédia. E isso porque vinha se recuperando, com seis vitórias e um empate antes de ser destruído pelo AZ Alkmaar.
- Michel Platini deu uma entrevista ao Guardian, a primeira que eu me lembro em muito tempo. Com certa dramaticidade, defendeu-se das acusações de corrupção que acabaram com a sua carreira de cartola. O caso girava em torno de um pagamento que recebeu de Joseph Blatter em 2011 por serviços de consultoria entre 1999 e 2002. Ambos acabaram sendo inocentados na Justiça, mas, na esteira do Fifagate, Platini foi banido do futebol exatamente no momento em que se esperava que sucedesse Blatter na presidência da Fifa. “Eu estava destinado a virar presidente da Fifa”, disse. “Tudo aconteceu porque eles não queriam que isso acontecesse. Um grupo de pessoas decidiu me matar”. Platini não especifica quem foram seus assassinos, mas deixa a entender que eram diretores da administração de Blatter avessos a mudanças. “A sopa era muito boa, eles podiam ganhar muito dinheiro e não me queriam, caso eu mudasse muitas coisas”. Ele isenta Gianni Infantino de culpa, embora não de ser ruim no seu trabalho. “Ele era um bom número 2, mas não um bom número 1. Ele tem um problema: gosta dos ricos e poderosos, os que têm dinheiro”. Entre outros assuntos, acredita que seu sucessor na Uefa, Aleksander Ceferin, precisa ser mais presente para equilibrar as “coisas tolas” que a Fifa faz e alerta que a Superliga Europeia ainda é uma forte ameaça. “Tem sido um problema há muito tempo e se tornará cada vez mais importante. Não tenho ideia do que fará com o futuro do jogo, mas pode haver uma grande mudança no futebol profissional da Europa”.
- Como o mapa-múndi da Fifa tem apenas três países — EUA, Arábia Saudita e Catar —, é uma baita sorte que pelo menos os últimos dois estejam sempre interessados em sediar todos os campeonatos que ela inventa. O Catar, sede da última Copa do Mundo, do último Intercontinental e da próxima Finalíssima, em março, negocia para receber a Copa do Mundo de Clubes feminina, marcada para janeiro de 2028. A ideia inicial era pegar o Mundial masculino de 2029, mas a Fifa quer realizá-lo no verão do hemisfério norte. Marrocos e Espanha são os favoritos no momento, até porque serviria de preparação para a Copa do Mundo de seleções que eles sediarão no ano seguinte. O curioso é que o Catar até tem uma seleção feminina, mas, como ela não joga há 12 anos, nem aparece no ranking da Fifa.
- O Tottenham conseguiu, finalmente, um reforço que queria há muito tempo: Conor Gallagher. Eu sei, parece que estou zoando o Tottenham, mas era um desejo antigo mesmo. Ange Postecoglou era entusiasta da contratação quando o meia inglês foi vendido para o Atlético de Madrid em 2024 depois de se recusar a renovar contrato com o Chelsea. Ele havia feito duas boas campanhas e chegou a ser capitão dos Blues. Na Espanha, foi titular do Atlético de Madrid na temporada passada, mas caiu na hierarquia e começou jogando apenas quatro rodadas da atual edição de La Liga. O Tottenham pagou € 40 milhões para ter mais uma opção no meio-campo, desfalcado pelas lesões de Rodrigo Bentancur e Lucas Bergvall e pela convocação de Pape Matar Sarr para a Copa Africana de Nações.
- Quase 16 anos depois de deixar o Deportivo Cali para começar a sua carreira internacional, Luis Muriel está de volta ao futebol colombiano. E retorna como um reforço de peso para o Junior Barranquilla, o que se reflete em seu alto salário - aproximadamente US$ 1,5 milhão por cada uma das duas temporadas do seu contrato. Muriel, 34, defendeu Udinese, Sampdoria, Sevilla e Fiorentina na Europa, mas foi pela Atalanta que ganhou destaque no ataque de um dos melhores times de Gian Piero Gasperini. Chegou a marcar 18 e 22 gols em edições consecutivas da Serie A entre 2019 e 2021. Sua produção despencou desde então e passou os últimos dois anos no Orlando City, da Major League Soccer, que aceitou liberá-lo sem compensação. O Junior foi terceiro colocado na primeira fase do último Campeonato Colombiano e lanterna do seu grupo no quadrangular semifinal.
PODCAST MEIOCAMPO #198
A final da Copa Africana de Nações entrega o duelo que o continente esperava: o anfitrião pressionado contra o campeão consolidado. No Meiocampo #198, analisamos o choque entre a "muralha" de Walid Regragui, que carrega o peso de um jejum de 50 anos e um investimento estatal bilionário, e a "dinastia" de Senegal, liderada por Pape Thiaw e Sadio Mané em sua terceira final recente. Discutimos se o fator casa em Rabat será apoio ou fardo para os marroquinos, os duelos individuais decisivos e onde a hegemonia da África será definida taticamente: na paciência defensiva ou na experiência de quem sabe vencer finais.
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Bom fim de semana!






