A Itália saiu de uma Copa que nem disputou e voltou direto pra crise que a tirou dela
Malagò prometeu dividir a escolha do técnico com Maldini e Leonardo — vetou sozinho o nome dos dois quatro dias depois, com Roberto Mancini, seu favorito desde antes da posse, à espera
Newsletter Meiocampo #185 — 28 de julho de 2026
Salve, pessoal! Antes de mais nada, quero prestar satisfação aqui com vocês porque sexta-feira não tivemos a nossa edição. Como somos apenas em dois, Bonsa estava de folga e eu estava em um evento por outro trabalho. Deveríamos ter nos programado antes, mas enfim, falha nossa. Esta edição, portanto, será excepcionalmente aberta para todos para compensar. Na sexta teremos outra edição por aqui.
A edição de hoje trata do caos da Itália, que viu Paolo Maldini deixar o cargo de diretor técnico 16 dias depois de assumir por divergências na escolha do treinador. Faltam quatro anos para a próxima Copa, mas a Itália já larga em crise.
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A Itália saiu de uma Copa que nem disputou e voltou direto pra crise que a tirou dela
Por Felipe Lobo
Na terça-feira passada, em Milão, o presidente da Federazione Italiana Giuoco Calcio, Giovanni Malagò, disse aos jornalistas que a parceria com Paolo Maldini e Leonardo seria de decisão conjunta, sem exceção: “Não farão nunca nada que não seja compartilhado comigo, e eu nunca farei nada que não seja compartilhado com eles.” Na segunda-feira seguinte, sozinho, ele vetou o nome que os dois haviam escolhido para técnico da seleção. Quatro dias separam a promessa do desmentido. A crise que tirou Maldini e Leonardo da FIGC não é sobre Andrea Pirlo, sobre a Fonbet ou sobre os filhos dos dois envolvidos com empresários de jogadores — é sobre o fato de que a autonomia entregue ao Club Italia nunca existiu fora do discurso de posse.
Maldini e Leonardo assumiram os cargos há 16 dias, com a missão declarada de devolver peso técnico a uma federação que já tinha ficado fora de três das últimas quatro Copas do Mundo. Buscaram Carlo Ancelotti, que tem contrato com o Brasil, e Pep Guardiola, que recusou. Com as duas primeiras opções fora, foram atrás de Andrea Pirlo — escolha discutível já pelo currículo: uma Juventus que caiu para quarto lugar e encerrou uma sequência de nove títulos seguidos, uma Sampdoria rebaixada que ele levou a sétimo na Serie B, e uma passagem pela segunda divisão dos Emirados Árabes. Mas o mérito técnico nunca foi o que decidiu o caso.
O que derrubou Pirlo foi o contrato dele como embaixador da Fonbet, maior casa de apostas da Rússia, isolada internacionalmente desde a invasão da Ucrânia e por isso dependente de rostos estrangeiros para manter presença fora do país. A Itália proíbe publicidade de apostas dentro de seu território pelo Decreto Dignità, mas a lei não alcança contratos assinados no exterior — o que Pirlo fez não era ilegal, apenas incômodo o suficiente para virar problema político antes de virar problema técnico.
Ao mesmo tempo, ganhou força a questão dos filhos: Nicolò Pirlo trabalha com intermediação na You First, Christian Maldini colabora com a GR Sports. Nenhum dos dois está formalmente registrado como agente, então não há violação de norma alguma — mas o precedente citado para justificar o desconforto, o caso Lippi de 2016, foi usado errado pela imprensa em geral: Marcello Lippi não chegou a assumir o cargo de diretor técnico para depois se demitir. Ele foi cogitado pela gestão Tavecchio e recuou antes de tomar posse, por causa do filho Davide, que já era procurador licenciado — diferença que importa, porque mostra que nem naquele caso claro havia decisão formal contra ele. Aqui, com filhos que não são nem agentes registrados, o argumento é ainda mais frágil. Serviu como ruído, não como motivo.
O motivo de verdade estava decidido antes de qualquer nome entrar em discussão. Roberto Mancini já era apontado como favorito da cúpula da federação no dia em que Malagò venceu a eleição, em 22 de junho — semanas antes de Pirlo, Fonbet ou qualquer filho virarem pauta. Mancini e Malagò são próximos. A escolha nunca dependeu de Maldini decidir junto com o presidente: dependia de Malagò encontrar o pretexto certo para reconduzir o nome que já queria.
É esse o ponto que Giancarlo Abete, derrotado por Malagò na eleição de junho, expôs ao dizer que nada mudou. O cargo de Maldini foi criado, segundo o próprio discurso de Malagò, para inverter uma lógica antiga: primeiro se define quem comanda a estrutura técnica, depois se escolhe o treinador. Ao tratar da escolha do técnico antes de resolver o futuro da direção técnica, a federação volta exatamente ao modelo que dizia estar superando.
Coverciano prometeu descentralizar o poder e, em dezesseis dias, redescobriu o único modelo de gestão que a Itália nunca abandonou de verdade: um homem decide, dois assinam embaixo, e a culpa sobra pro russo.
PODCAST MEIOCAMPO #251
A Copa do Mundo acabou e agora podemos fazer um balanço do que vimos lá nos Estados Unidos, México e Canadá. O que fica dessa Copa? Como foi o desempenho do Brasil e qual é a nossa perspectiva daqui para frente, pensando em 2030? Com a participação de Caio Bellandi, do Lado B do Rio!
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Na segunda-feira da semana passada, tratamos sobre como um texto do Marca sobre a Espanha ter salvado o futebol traz uma arrogância e um preconceito embutido contra os sul-americanos. E isso sem defender atitudes lamentáveis da Argentina como a briga no fim do jogo. A discussão vai bem além disso. Leia aqui.
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