A renovação de Ancelotti tem uma missão: devolver personalidade ao Brasil
A renovação de Ancelotti até 2030 é o primeiro sinal de que a CBF reconhece o problema real da Seleção: não falta talento, falta personalidade
Newsletter Meiocampo #141 — 15 de maio de 2026
Começo esta newsletter pedindo desculpas: esta edição chega muito mais tarde do que de costume e a culpa é toda minha, Felipe Lobo, porque estava envolvido no São Paulo Innovation Week, pelo Sport Insider. A edição de hoje chega mais tarde, mas chega com uma tese forte: a renovação de Carlo Ancelotti é importante porque a missão que tem é dura: trazer de volta a personalidade da maior seleção do mundo. E ainda trazemos o giro, com muito do que está rolando na Europa. Vamos nessa?
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A renovação de Ancelotti tem uma missão: devolver personalidade ao Brasil
Por Felipe Lobo
O Brasil tem um problema de personalidade, não de elenco. A renovação do contrato de Carlo Ancelotti até 2030, anunciada antes mesmo de sabermos se o time vai passar das quartas de final, é o primeiro sinal concreto de que a CBF reconhece isso — mesmo que não diga em voz alta.
Antecipar a continuidade de um técnico independentemente do resultado de uma Copa é um gesto incomum para uma entidade que historicamente demite após cada eliminação e recomeça do zero.
Entendo quem, como nosso assinante Giovanni Montenegro, preferia esperar o desfecho do torneio para então renovar. Mas o sinal que se passa ao confirmar Ancelotti antes de qualquer resultado indica aos jogadores que será com ele que terão de lidar pelos próximos quatro anos.
A questão é o que Ancelotti faz com esse mandato. E aí o diagnóstico importa mais do que a solução.
O Brasil joga a Copa do Mundo para não perder. Há anos. A Copa de 2014 é o caso clínico mais nítido, mas o padrão é anterior e persistente. Aquele time jogou o torneio inteiro com o fantasma de 1950 nas costas — não o de perder para a Alemanha, mas o de perder em casa, de vexame, de humilhação histórica.
O clima fora de campo era de confiança até exagerada, especialmente depois que o Brasil passeou diante da Espanha na final da Copa das Confederações de 2013. Mas em campo, desde o primeiro jogo, era outra coisa.
A cada partida, o time não parecia comemorar o avanço: parecia sentir alívio por escapar do inferno. Nas oitavas, diante do Chile, viu o vexame de perto e sentiu o frio na espinha. Thiago Silva chorou. O Brasil avançou nos pênaltis sem comemorar. Veio a Colômbia, a vitória dura e sofrida. Até que chegamos à semifinal contra a Alemanha.
Lembro de ter comentado, num programa que fiz à época, que o Brasil, enfim, tinha escapado do vexame: perder da Alemanha na semifinal seria normal. “A não ser que perca de 5 a 0”, disse Ubiratan Leal, meu companheiro no programa naquele dia. “O que não irá acontecer”, eu emendei. O Brasil de 2014 tinha tanto medo do vexame que foi quase uma profecia auto realizada.
O Brasil nunca conseguiu tirar isso do corpo. O padrão se repetiu em 2018 e em 2022 — mesmo em Copas em que o time chegou bem preparado, o que fez muitos acreditarem que as Eliminatórias eram uma moleza que o Brasil ganharia até com o sub-20. Neste ciclo, vimos que não era.
O problema não é falta de talento. Vinícius Júnior é, há duas temporadas, um dos melhores jogadores do mundo. O que ele faz pelo Real Madrid na Champions League justificaria que chegasse a esta Copa como o craque indiscutível da Seleção.
O problema é que ele em campo pelo Brasil não justifica. E não é que as pessoas não acompanhem o Real Madrid — hoje a cultura de acompanhar a Champions é muito mais disseminada do que alguns ainda percebem. É que justamente quem vê o Vinícius pelo Real Madrid se faz a mesma pergunta: se ele brilha assim quando veste branco, por que não faz o mesmo com a camisa amarela?
O mesmo vale para Raphinha. O craque do Barcelona foi um dos melhores jogadores da última temporada europeia. Com a camisa da Seleção, brilhou logo que foi chamado por Tite, ainda antes de 2022, mas durante aquele Mundial e nos anos seguintes não conseguiu ser o líder técnico que alguém naquele nível deveria ser.
Dois jogadores de elite, com regularidade de alto nível nos seus clubes, que murcham quando vestem amarelo. A questão não é de talento, é de personalidade.
O desafio de Ancelotti é fazer o Brasil sair dessa lógica. Ele já fez isso antes — em contexto diferente, mas com a mesma essência. O Real Madrid passou seis temporadas consecutivas sem passar das oitavas de final da Champions, de 2004/05 a 2009/10. O time tinha talento de sobra; o que faltava era outra coisa.
Ancelotti chegou em 2013 e em sua primeira temporada entregou La Décima — o título que o clube esperava há doze anos, conquistado numa final contra o Atlético de Madrid. Foi um treinador que soube reconstruir a crença de um grupo talentoso de que era capaz de vencer quando mais importava.
É nesse ponto que Neymar entra. Não como craque técnico, mas como peça de um projeto maior. Minha percepção, neste momento, é que Ancelotti está inclinado a convocá-lo — e há sinais nesse sentido que antes não existiam.
Mas o argumento mais interessante não é se Neymar ainda consegue arrastar uma defesa adversária, porque provavelmente não consegue. O argumento é o que ele representa para um grupo sem referência de liderança.
Neymar assumiu o posto de craque da Seleção desde que entrou para o time, em 2010, e assim foi em sua primeira Copa, em 2014. Não houve transição da geração anterior. Ninguém passou o bastão para ele.
Ronaldinho disputou sua última Copa com 26 anos. Ronaldo Fenômeno, com 29. Rivaldo, com 30. Nenhum craque geracional brasileiro disputou uma Copa com mais de 30 anos desde Zico, em 1986, que tinha 33.
Neymar, aos 34, seria uma ruptura histórica nesse padrão — e talvez Ancelotti enxergue nisso uma oportunidade: fazer com que ele seja a referência que passa o bastão para a próxima geração, de Vinícius Júnior a Endrick, algo que o futebol brasileiro não teve em décadas.
Se Neymar consegue fazer isso, tenho dúvidas genuínas. Ancelotti, se o convocar, deve ter um plano concreto para esse papel. O que não tenho dúvida é que o técnico tem estofo para tentar.
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PODCAST MEIOCAMPO #230
Com reservas entre os jogadores com mais minutos e outras curiosidades sobre o PSG campeão, que agora busca repetir também o título na Europa. Falamos sobre quem competiu com os parisienses e o esforço do Lens para ser vice-campeão. Tem ainda Inter campeã da Copa da Itália e entrevista do presidente do Flamengo, BAP, em São Paulo e a demissão de Roger Machado no São Paulo - e por que ela foi covarde.
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GIRO
Por Bruno Bonsanti
- O Lens ocupou a liderança no fim do primeiro turno e fez um trabalho excepcional para tentar manter o ritmo do PSG. No fim das contas, simplesmente não teve gás para fazê-lo até o fim. Sofreu quatro derrotas nas primeiras 22 rodadas e quatro nas 11 seguintes, além de alguns empates que o deixaram ainda mais distante do maior campeão francês. Ganhou apenas quatro jogos nesse período. O PSG selou o título vencendo o confronto direto na última quarta-feira (13). O PSG deu a dianteira para os adversários, enquanto se recuperava de uma temporada desgastante, e só precisou apertar um pouco na reta final para conquistar seu 12º título em 14 edições da Ligue 1. Ousmane Dembélé, por exemplo, foi um coadjuvante. É um absurdo que ele tenha sido eleito o melhor jogador da competição, mesmo tendo feito apenas dez partidas como titular e uma (1!!!) em que completou os 90 minutos. Jogadores de rotação como Ilya Zabarnyi, Bradley Barcola, Senny Mayulu, Kang In-Lee e Lucas Beraldo estão entre os dez jogadores que mais estiveram em campo pelo PSG na liga francesa. Dada a superioridade financeira, é como tem que ser mesmo. O estranho é quando o PSG não consegue dominar a Ligue 1, mesmo a colocando em segundo plano de vez em quando. Esse foi o quinto título consecutivo, a maior sequência da Era Catar em Paris.
- A Internazionale contou com um gol contra e um cochilo de Nuno Tavares para marcar duas vezes na primeira meia hora da final da Copa Itália e confirmar a sua supremacia nacional. Para quem chegou sob tantas desconfianças, Cristian Chivu se tornou o primeiro a conquistar a dobradinha em sua temporada de estreia como técnico nerazzurri. Com dez títulos na competição, a Inter deixou a Roma para trás e se isolou como a segunda maior campeã da competição, atrás da Juventus (15). Foi o terceiro nas últimas seis edições, com três scudettos e dois vices da Serie A no mesmo período. Não é uma hegemonia como a da Juventus, ou do Bayern de Munique na Alemanha, ou do PSG na França, mas precisa ser? A Inter domina o futebol italiano recentemente, ou pelo menos é de longe o clube mais regular, do país ainda que sua hegemonia seja mais light.
- A Escócia está em chamas pelo pênalti marcado a favor do Celtic nos acréscimos da sua vitória sobre o Motherwell por 3 a 2. O lance é confuso. Sam Nicholson, do Motherwell, e Auston Trusty, do Celtic, subiram para dividir uma bola pelo alto. Trusty cobra um pênalti por golpe de cotovelo, mas, após checar o VAR, o árbitro John Beaton o concede por mão na bola. Eu não conheço mais essa regra, mas parece que, com o braço acima da cabeça, Nicholson estava assumindo o risco de ser penalizado. O problema é que nem há certeza de que a bola realmente pegou na sua mão. O jeito como ela rebate parece muito mais com uma cabeçada limpa. E dada a importância do lance, o árbitro tinha que ter muita certeza. Esse gol muda completamente o panorama do título. Se empatasse com o Motherwell, o Celtic teria que vencer o confronto direto com o Hearts em Glasgow no próximo domingo por pelo menos três gols de diferença. Agora, precisa apenas vencer. Um empate basta para o Hearts se tornar o primeiro campeão escocês não-Old Firm desde o Aberdeen de Sir Alex Ferguson em 1984/85.
- Uma das favoritas ao título da Copa do Mundo, a França não quis saber de pré-listas e já divulgou a convocação completa. A ausência mais importante é o volante Eduardo Camavinga, que esteve com a seleção nos amistosos de março. Ele não fez uma grande temporada pelo Real Madrid, marcada pela expulsão contra o Bayern de Munique nas quartas de final da Champions League e tem sido preterido pelo jovem Thiago Pitarch na hierarquia do meio-campo. Apesar de ter sido chamado pela primeira vez em outubro, Jean-Philippe Mateta colocou um jogador do Crystal Palace em uma relação de atacantes que inclui Kylian Mbappé, Michael Olise, Ousmane Dembélé e Desiré Doué. Repetirá a parceria com Olise que rendeu uma medalha de prata olímpica para a França e ocupou uma vaga que poderia ser de Kolo Muani, afundado pela crise do Tottenham. Haverá, aliás, dois jogadores do Crystal Palace na delegação francesa porque o zagueiro Maxence Lacroix também foi convocado. A outra novidade é no gol. Sem uma sequência no PSG, Lucas Chevalier deu lugar a Robin Risser, do vice-campeão Lens. O principal desfalque por lesão é Hugo Ekitiké, do Liverpool.
- Manuel Neuer foi incluindo na pré-lista de 55 jogadores entregue pela Federação Alemã na última segunda-feira, segundo uma reportagem da Sky Sports local. A matéria acrescenta que o goleiro do Bayern de Munique, cuja renovação de contrato deve ser anunciada em breve, se reuniu com o técnico Julian Nagelsmann para discutir o seu retorno à seleção. Ele havia se aposentado do futebol internacional depois da Eurocopa, mas as suas atuações nesta temporada, principalmente em momentos cruciais da Champions League, parecem ter animado tanto ele quanto Nagelsmann. Um dos repórteres responsáveis pela matéria afirmou no Twitter que existe até a chance de ele ser titular. Uma decisão final será tomada em breve. Até porque a Alemanha divulgará a convocação final em 21 de maio.
- O Sevilla respira na Espanha. Aproveitando que o Villarreal está basicamente de férias, levou os três pontos no La Cerâmica na última quarta-feira e emendou a terceira vitória consecutiva. O problema é que a briga contra o rebaixamento na Espanha está completamente maluca. Apenas cinco pontos separam o nono e o 19º colocado, há um empate tríplice entre Levante e Mallorca, dentro da zona da degola, e o Elche, imediatamente fora, e teoricamente até o Getafe, em sétimo lugar, ainda pode cair. O Sevilla pulou para o 12º e tem quatro pontos de folga, o que deve ser o suficiente, embora ainda receba o Real Madrid. Já foi mais difícil receber o Real Madrid. A novidade é que o Espanyol ganhou seu primeiro jogo em 2026 ao bater o Athletic essa semana.
- Carlo Ancelotti fez uma turnê de entrevistas antes de anunciar sua renovação com a seleção brasileira até 2030 e, ao The Athletic, deu algumas declarações interessantes sobre a crise do Real Madrid. Ele foi um dos únicos técnicos capazes de pacificar o vestiário do maior campeão europeu, pela sua abordagem mais flexível, tanto do ponto de vista tático, quanto disciplinar. No entanto, foi enfático ao rebater que isso não significa que, na sua época, os jogadores estavam no comando. “Isso não é verdade. Totalmente besteira. É totalmente besteira”, disse. Ele deu a entrevista em inglês, então não falou besteira. Falou “bullshit”. Um pouco mais forte. A parte mais interessante veio em seguida, quando acrescentou que, sempre que tinha uma nova ideia tática ou estratégica, fazia questão de incluir os jogadores na discussão. É essa a diferença de abordagem: não é que Ancelotti promovia a anarquia, mas estava aberto a se adaptar de acordo com o feedback dos jogadores, em contraste com técnicos que têm filosofias mais rígidas. Nenhum dos dois caminhos é melhor do que o outro. Exceto no Real Madrid. No Real Madrid, o primeiro é melhor.
- A crise do Milan saiu dos bastidores e chegou aos veículos de imprensa da Itália. Segundo o Corriere della Sera, o técnico Massimiliano Allegri se desentendeu com o “conselheiro especial” Zlatan Ibrahimovic e está cogitando ir embora, com possibilidade de assumir a seleção. A discussão teria acontecido depois da derrota para o Napoli e aparentemente tinha a ver com quem será o terceiro goleiro da próxima temporada, o que soa como uma desculpa para um gritar com o outro. A Sky Sports aponta para um racha ainda maior porque parece que basicamente todo mundo está bravo com todo mundo e/ou balança no cargo. Existem três cenários diferentes e todos envolvem a demissão do diretor esportivo Igli Tare, apenas um ano depois de ser contratado. Em um deles, o CEO Giorgio Furlani consolidaria o seu poder, demitiria Allegri e traria Vicenzo Italiano, do Bologna, e o diretor Tony D’Amico, da Atalanta. O segundo cenário daria força a Zlatan Ibrahimovic, que também demitiria Allegri. A sua escolha para diretor esportivo seria Fabio Paratici, da Fiorentina. O terceiro cenário é o mais curioso. Haveria uma limpeza completa na diretoria e quem ressurgiria das cinzas é Adriano Galliani, antigo braço direito de Silvio Berlusconi. Ele é o único que manteria Allegri e seu novo diretor esportivo seria Giovanni Rossi, ex-Sassuolo.
- Como o Liverpool pretende manter Arne Slot para a próxima temporada, Xabi Alonso pintou como favorito para assumir o Chelsea. Segundo o Guardian, os jogadores o consideram o “candidato ideal” porque acreditam que o próximo técnico precisa ser alguém que consegue ganhar o respeito do vestiário e administrar os egos. Eles aparentemente não assinam o Marca. A reportagem do jornal inglês afirma que a lista de concorrentes inclui Andoni Iraola, do Bournemouth, Marco Silva, do Fulham, Oliver Glasner, do Crystal Palace, e Filipe Luis, ex-Flamengo. O processo deve acelerar depois deste domingo, quando o Chelsea tenta salvar a temporada na final da Copa da Inglaterra contra o Manchester City.
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Bom fim de semana!







