Amorim preferiu a demissão a abrir mão do 3-4-3
E a pergunta que fica: por que o United contratou um sistema que não queria?
Newsletter Meiocampo #105 — 6 de janeiro de 2026
A demissão de Ruben Amorim não foi apenas o fim de um ciclo técnico; foi o desfecho de uma guerra política que ele escolheu travar publicamente. Na edição de hoje, detalhamos como a intransigência com o 3-4-3 e a recusa em ser apenas um “Head Coach” tornaram a permanência do português impossível. Mas a sensação de déjà-vu em Old Trafford é inevitável. Para entender o presente, resgatamos uma análise de arquivo de Bruno Bonsanti sobre a queda de Ron Atkinson em 1986. Naquele momento, em meio a resultados decepcionantes e um elenco descontente, o United encontrou o caminho para sua era mais gloriosa. Resta saber se, em 2026, a diretoria da INEOS terá a competência para repetir o feito ou se apenas girará a roda da crise mais uma vez.
Boa leitura.
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Amorim força a própria demissão e expõe a crise de comando no United
Por Felipe Lobo
Ruben Amorim deixou de ser o técnico do Manchester United nesta segunda-feira, 5 de janeiro. Não foi uma surpresa. Os resultados nos seus 14 meses de cargo foram ruins e os dados, alarmantes. Mas isso conta apenas parte da história. A queda de Amorim é o desfecho de um processo de desgaste provocado pelo próprio treinador com todas as esferas do clube, do vestiário à diretoria.
A gestão do português foi decepcionante para um nome tão promissor, que chegou com dois títulos portugueses pelo Sporting e a quebra da hegemonia de Porto e Benfica no currículo. Amorim era visto como o homem para dar o próximo passo. Aconteceu em outubro de 2024, quando o United bateu à porta.
Naquele momento, já havia dúvidas na diretoria sobre um aspecto específico que assombraria toda a passagem do treinador: a preferência inegociável pelo 3-4-3. Dan Ashworth e Jason Wilcox, diretores esportivo e de futebol, questionavam a viabilidade do sistema na Premier League.
A diretoria relevou as dúvidas, animada pela promessa de flexibilidade tática feita por Amorim nas negociações. Uma flexibilidade que nunca se concretizou e gerou a frustração que culminou na demissão em janeiro de 2026. Mesmo com atenuantes — problemas extracampo, gestão errática da INEOS e questões estruturais —, a saída é justificada. E vai além do campo.
Resultados e desempenhos alarmantes
Passados 14 meses, o saldo são 63 jogos, 24 vitórias, 18 empates e 21 derrotas. É o pior aproveitamento de um técnico pós-Ferguson, com apenas 38% de vitórias. Na Premier League, o cenário é mais grave: apenas 32%.
Para comparação, José Mourinho, o melhor pós-Ferguson, teve 58,3% de aproveitamento. O índice de Amorim supera apenas o do interino Ralf Rangnick (37,9%). O português venceu menos até que David Moyes, mesmo com 12 jogos a mais.
Numa tabela hipotética da Premier League contando apenas o período Amorim, o United seria o 14º colocado, à frente apenas de três clubes que não foram rebaixados.
É verdade que ele levou o time à final da Liga Europa na temporada passada. Mas a derrota para o Tottenham naquela decisão expôs, novamente, um desempenho muito abaixo da crítica.
O dogma do 3-4-3 e o choque com a diretoria
A controvérsia tática foi uma constante. Jim Ratcliffe, dono da INEOS, cobrava mudanças. A família Glazer, embora silenciosa sobre tática, mostrava insatisfação com os resultados desde agosto.
Amorim, por sua vez, não escondia o descontentamento. Após o empate por 1 a 1 contra o Leeds, criticou publicamente a política de transferências. Nos bastidores, o atrito com Christopher Vivell, diretor de recrutamento, já era antigo. A tensão respingou no elenco: semanas atrás, o técnico entrou em confronto com Lisandro Martínez — ironicamente, um dos maiores beneficiados pelo esquema de três zagueiros.
O ponto de ruptura, porém, foi com Jason Wilcox. Antes aliado, o diretor de futebol passou a pressionar pela mudança tática exigida por Ratcliffe. Wilcox argumentou que o elenco estava confuso: Amorim treinava com linha de quatro, mas jogava com três zagueiros. Os jogadores perdiam a confiança no sistema e se irritavam com as declarações do técnico, que chegou a rotular este elenco como “o pior da história do Manchester United”.
A reação de Amorim foi explosiva. Quando Wilcox sugeriu trabalhar os problemas mantendo o técnico, o português respondeu que desejava sair e acionaria seu empresário. O clima azedou a ponto de uma reunião agendada com o elenco ser cancelada na última sexta-feira.
“Head Coach” vs. “Manager”
Amorim foi o primeiro no United contratado sob a designação de “Head Coach”, e não “Manager”. A diferença não é semântica: Ferguson e seus sucessores eram gestores com amplos poderes. Amorim, não. Ele deveria focar no campo, enquanto Wilcox e o CEO Omar Berrada cuidariam da gestão.
O português rejeitou esse arranjo na prática. Na sua última e fatídica coletiva, desafiou a hierarquia: “Eu sou o manager do Manchester United, não ‘coach’. Será assim por 18 meses ou até decidirem mudar. Não irei pedir demissão. Farei o meu trabalho até outro cara vir me substituir”.
Foi um convite à demissão. Diante do confronto aberto com Wilcox e das declarações incendiárias, a diretoria não teve escolha. Amorim esticou a corda até arrebentar.
Com o time em quinto lugar e ainda vivo na briga pela Champions League, a diretoria agiu para estancar a sangria antes que a espiral negativa comprometesse o resto da temporada.
A culpa da diretoria
Os problemas do United, contudo, precedem Amorim. Jim Ratcliffe declarou ao The Times em outubro de 2025 que o técnico teria “três anos para se provar”. Não durou três meses após a fala.
A gestão da INEOS coleciona decisões ruins. A renovação de Erik ten Hag para demiti-lo dois meses depois; a contratação de Dan Ashworth a peso de ouro para dispensá-lo em cinco meses; e agora, o erro de avaliação na contratação de Amorim, ignorando as ressalvas táticas iniciais.
Fora de campo, a situação é pior. Demissões em massa e o corte da alimentação dos funcionários em Carrington — uma medida mesquinha de economia que gerou imensa insatisfação interna — contrastam com os milhões gastos em contratações de impacto duvidoso. O aumento no preço dos ingressos completou o pacote de impopularidade.
Quem assume? O xadrez pós-Amorim
A solução imediata é caseira: Darren Fletcher, que treinava o sub-18, foi escolhido como interino para os próximos jogos. Mas ele é apenas o bombeiro. Para conduzir o time até o final da temporada, o nome de Ole Gunnar Solskjaer ganha força. O norueguês, livre após passagem curta pelo Besiktas, conhece o DNA do clube e tem o perfil apaziguador necessário para estancar a crise no vestiário até junho.
Para a sucessão definitiva, o nome mais forte no mercado de clubes é o de Oliver Glasner, do Crystal Palace. O austríaco faz um excelente trabalho em Londres, impulsionado pela conquista da FA Cup, e possui a experiência de Premier League que a diretoria tanto valoriza hoje. O fato de ter contrato apenas até o fim da temporada pode facilitar a investida.
No entanto, o United também monitora o cenário de seleções visando o pós-Copa do Mundo de 2026. Essa estratégia traria nomes de elite de volta à mesa: Mauricio Pochettino (EUA), Thomas Tuchel (Inglaterra) e Julian Nagelsmann (Alemanha). São técnicos de primeira prateleira, mas que exigiriam paciência e um interino forte até julho.
Correndo por fora aparece Carlo Ancelotti. Aos 66 anos e comandando o Brasil, ele traria a autoridade máxima de quem já venceu tudo e conhece a Premier League (campeão pelo Chelsea), sendo a antítese da aposta arriscada que foi Amorim.
Independentemente da escolha, o erro custará caro. A rescisão de Amorim e sua comissão técnica deve sangrar os cofres do clube em mais de 10 milhões de libras. Desta vez, Ratcliffe, Berrada e Wilcox não podem culpar a “herança maldita”. A contratação e o fracasso de Amorim estão inteiramente na conta deles.
Como o Manchester United se reconstruiu após a aposentadoria de Matt Busby. Spoiler: demorou muito
Por Bruno Bonsanti
Este texto foi inicialmente publicado em dezembro de 2018, quando o Manchester United demitiu o técnico e colocou o time nas mãos de um pupilo de Alex Ferguson. Soa familiar? O objetivo era contextualizar as dificuldades de seguir em frente debaixo de uma sombra tão gigante. Resgatei as décadas (pois é: demorou décadas) logo depois da aposentadoria de Matt Busby, o único que rivaliza em tamanho com Ferguson na história do United.
Eu retirei a segunda parte do texto porque ela entrava em muitas questões específicas daquela época. Quase mantive porque, se mudarmos alguns nomes, ficaria surpreendentemente atual: um elenco retalhado, sem uma filosofia clara de jogo ou uma abordagem coerente no mercado de transferências, apostas equivocadas, técnicos que não conseguiram desenvolver os seus melhores trabalhos em Old Trafford. Parece até coincidência. Infelizmente não é.
Se você não for torcedor do Manchester United, seria normal não reconhecer de primeira o nome de Wilf McGuinness. Em termos modernos, ele foi o David Moyes de Matt Busby. Escolhido a dedo para ser o sucessor do lendário treinador, que havia passado 24 anos à frente dos Red Devils. E um desastre completo. O paralelo foi comum na imprensa inglesa durante o breve período em que Moyes foi o guardião do legado de Alex Ferguson. Com a demissão de José Mourinho, a comparação fica um pouco mais ampla e permite uma reflexão: quanto tempo demorará para o United reencontrar o seu caminho?
No caso de Busby, foram aproximadamente 20 anos. Porque McGuinness, como Moyes, foi apenas o primeiro profissional triturado pela responsabilidade de calçar os sapatos de um gigante. Outros quatro também sucumbiram, com direito a um rebaixamento, até que Ferguson emergisse do Aberdeen para recolocar o clube no primeiro patamar da Inglaterra. E mesmo ele precisou de paciência e apoio da diretoria para concretizar a sua visão, o que começou a acontecer apenas na década de noventa.
A comparação entre McGuinness e Moyes para na cronologia. Moyes tinha experiência e um trabalho sólido no Everton. Foi identificado por Ferguson como um semelhante: escocês, sóbrio, sem muita firula, alguém que fazia bastante com poucos recursos à disposição. O mundo, porém, havia mudado, assim como o United. Ferguson havia sido excepcionalmente bem-sucedido em colocá-lo na posição de um clube global. Mesmo que seu instinto fosse correto, os Red Devils não precisavam de outro Ferguson. As exigências do trabalho acabaram sendo grandes demais para Moyes, demitido antes do fim da sua primeira temporada.
McGuinness era mais um laranja para que Busby continuasse a exercer influência no Manchester United. Busby tinha 12 anos a menos do que Ferguson quando tomou a decisão de se aposentar e se manteve como um diretor ativo, tratando da relação com os diretores e do mercado de transferências. McGuinness era o treinador dos reservas e havia acabado de passar dos 30 anos, mais novo que alguns dos seus comandados.
Não foi capaz de ganhar o respeito do elenco, com Busby ainda muito presente, e, como cachorro que tem dois donos morre de fome, o United foi apenas oitavo colocado na sua única temporada completa como técnico em Old Trafford. A carta de demissão chegou na altura do Natal de 1970. Busby retornou para terminar a campanha e chegou a oferecer o antigo emprego a McGuinness, que até ficou alguns meses, mas, com o orgulho ferido, saiu para seguir carreira na Grécia. Nunca mais fez grande coisa.
A próxima tentativa foi com o irlandês Frank O’Farrell, um profissional mais consolidado na carreira. Havia sido rebaixado com o Leicester, mas, na mesma temporada, chegou à decisão da Copa da Inglaterra. Antes de se mudar para Old Trafford, conquistou o acesso à elite, com o título da segunda divisão. Também precisou batalhar pelo poder com Matt Busby. E também perdeu. Ficou 18 meses no cargo, antes de dar lugar a Tommy Docherty.
Além de problemas administrativos, o Manchester United também tinha que lidar com os ocasos das carreiras de Bobby Charlton, Denis Law e George Best, os pilares sobre os quais Busby reconstruiu o time depois do desastre de Munique. Docherty saiu da seleção escocesa e encontrou um elenco envelhecido, caindo pelas tabelas. Conseguiu algumas vitórias a partir de fevereiro e manteve os Red Devils na primeira divisão, com a 18ª posição. Na temporada seguinte, porém, o rebaixamento foi inevitável.
Apesar de ter caído de divisão com um clube que seis anos antes havia sido campeão europeu, Docherty foi mantido no cargo. Tempos diferentes, mas, mesmo naquela época, foi uma decisão surpreendente. E correta. Ele retornou, com o título da Segundona, conseguiu um honroso terceiro lugar e emendou duas finais de Copa da Inglaterra. Na segunda, derrotou o Liverpool, papa-títulos daquela década, e conquistou o primeiro troféu da era pós-Busby.
O homem que caiu com o United o reergueu. Não ao mesmo patamar da década de sessenta, mas pelo menos às primeiras posições da tabela e às fases finais das copas inglesas. E o fez com uma equipe jovem, armada no 4-2-4, com os ótimos Steve Coppell e Gordon Hill pelas pontas. Praticava um futebol atraente. Era o começo de um novo projeto, e havia esperança no ar. Para a próxima temporada, ele negociava a contratação do goleiro Peter Shilton, do Stoke City. Mas, então, Docherty conheceu Mary Brown.
Mary era esposa do fisioterapeuta do Manchester United. O caso de Docherty com ela tornou-se um escândalo e, duas semanas depois do título da Copa da Inglaterra, o escocês foi demitido, para “preservar a reputação” do clube. Eles se casaram e ficaram juntos pelo resto de suas vidas. Mas Docherty perdeu a chance de colher os frutos do que havia plantado – e o United perdeu Shilton, que acabou se mudando para o Nottingham Forest. “Sou o único treinador que foi demitido por ter se apaixonado”, disse, ao Independent, em 2014.
O sucessor de Docherty foi Dave Sexton, ex-Chelsea e Queens Park Rangers. Seu perfil era oposto: um futebol mais seguro e, ao mesmo tempo, mais chato. Nunca caiu nas graças da torcida. Até porque os resultados não foram muito melhores para compensar a mudança de estilo de jogo. Em quatro temporadas, ficou três vezes no meio da tabela e foi vice-campeão em 1979/80. Também chegou a uma decisão da Copa da Inglaterra, derrotado pelo Arsenal.
O Manchester United começou a reviver um pouco das glórias do passado de verdade com Ron Atkinson. Ele vinha de um bom trabalho no West Brom, com o qual foi terceiro colocado do Campeonato Inglês e quadrifinalista da Copa da Uefa. Antes de assumir os Red Devils, havia deixado os Baggies em quarto lugar. Sua passagem foi responsável por contratar jogadores importantes como Bryan Robson e Frank Stapleton e pela promoção de Mark Hughes.
O United havia sido oitavo colocado na última temporada com Sexton. Com Atkinson, emendou cinco campanhas seguidas entre os quatro primeiros lugares e conquistou duas vezes a Copa da Inglaterra. Ainda chegou à semifinal da Recopa Europeia, em 1983/84. Apesar dos bons resultados, não passou despercebido que os Red Devils ainda cultivavam um incômodo jejum de títulos ingleses – o último havia sido em 1966/67.
Parecia que a seca seria quebrada em 1985/86. O Manchester United começou o Campeonato Inglês com dez vitórias seguidas e quinze rodadas de invencibilidade. Mas, depois dessa sequência, afetado por lesões, especialmente a do capitão Bryan Robson, ganhou apenas nove jogos em 27. Acabou em quarto. Apesar de especulações de que seria substituído por Ferguson ou por Terry Venables, Atkinson começou a temporada seguinte.
As lesões, porém, continuavam relevantes, e a venda de Mark Hughes para o Barcelona não ajudou. Três derrotas seguidas abalaram o ambiente. A sequência ruim parou com o empate contra o Leicester, e Robson voltou para ajudar a golear o Southampton. Mas logo em seguida vieram outras três derrotas em sequência. No começo de novembro, Atkinson foi demitido. E Ferguson, contratado. O resto vocês já sabem.
O algoritmo não escreveria este texto.
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