Infantino foi longe demais
A ideia de vender parte dos direitos comerciais da Copa do Mundo para investidores causou reações fortes e pode complicar a vida do dirigente
Newsletter Meiocampo #186 — 31 de julho de 2026
Cinco dias depois de a Fifa revelar o plano de vender pedaços da Copa do Mundo a investidores ligados a Trump, Uefa, Concacaf e AFC já disseram não — juntas, somam mais votos do que Infantino precisaria para aprovar a proposta. A crise expôs algo que vinha sendo tratado como certeza desde 2016: até aqui, Infantino nunca teve concorrência real dentro da Fifa. Hoje, tem. Neste texto, argumentamos que não é dinheiro o que ele persegue: é poder sem prestação de contas. E que essa ambição pode custar a ele a única coisa que nunca esteve em risco: a reeleição.
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Infantino pode ter criado a sua própria ruína
Por Felipe Lobo
Na manhã do dia 18 de abril de 2021, um jornalista antecipou o que o futebol europeu ainda não sabia que ia acontecer naquela noite: Martyn Ziegler revelou no The Times que seis dos maiores clubes ingleses tinham assinado, em segredo, a criação de uma Superliga europeia — furo eleito Furo do Ano no SJA British Sports Journalism Awards de 2021.
Horas depois, na madrugada de Londres, os 12 clubes fundadores confirmaram tudo em comunicado oficial. Em menos de 48 horas, entre os dias 20 e 21, o projeto desabou sob protesto de torcedores, políticos e a própria Uefa. Foi um momento de arrogância imensa: os clubes acharam que, por serem alguns dos mais ricos e poderosos do planeta, ninguém poderia impedi-los. Estavam errados.
Cinco anos depois, o mesmo jornalista revela outra bomba: a Fifa quer vender parte dos seus negócios para investidores externos. Dessa vez, como daquela, a matéria forçou os envolvidos a confirmar o que não queriam falar em público ainda.
O que a Fifa quer vender
Na terça-feira, 28 de julho, Ziegler publicou a matéria bombástica: a Fifa planeja criar uma empresa que consolida toda a operação comercial e de eventos da entidade, nas palavras dela mesma, e vender 20% para investidores externos, por US$ 4,2 bilhões, o que levaria o valor da empresa a US$ 20 bilhões. Sim, a Copa do Mundo está à venda, de alguma forma.
Essa empresa, batizada FIFA Forward Enterprise (FFE), ficaria responsável pela área comercial da Copa do Mundo de seleções — o principal ativo da entidade — e da Copa do Mundo de clubes, nas versões masculina e feminina: transmissão, hospitalidade, ingressos, licenciamento.
Piora: o banco envolvido é o JP Morgan, o mesmo que intermediou a criação da Superliga Europeia em 2021. E já há investidor definido: a Thrive Eternal, de Josh Kushner — irmão de Jared Kushner, genro de Donald Trump, que por acaso é quem tem participação, através da Affinity Partners, na compra da Electronic Arts, dona do EA Sports FC, o jogo de futebol mais famoso do mundo, ao lado do PIF, fundo soberano saudita.
Não é a primeira vez que capital do Golfo se aproxima de um ativo cultural do futebol através da mesma família — e a fórmula de usar um sócio minoritário como fachada política, mantendo o controle real em outras mãos, se repete.
Com a matéria no ar, a Fifa teve que revelar as cartas mais cedo do que gostaria. Divulgou o FFE como um plano que promete US$ 10 bilhões a mais para as federações, e mandou carta a cada uma delas.
Infantino garantiu que a decisão cabe às federações e que não haverá mudança no modelo de governança — reforçou isso publicamente em vídeo, insistindo que os estatutos da Fifa permanecem intactos e que a entidade manterá a maioria acionária e de conselho. É a Fifa, pela própria voz do seu presidente, dizendo que o que está em jogo não é poder — o que soa estranho para quem lê a letra miúda da proposta, que blinda cada instância de decisão para a entidade central.
O prazo é apertado: até 19 de setembro, 53 dias, para uma decisão que muda o futebol para sempre. Quem aceitar recebe US$ 20 milhões já em 2027, mais US$ 20 milhões distribuídos pelo ciclo seguinte — os US$ 40 milhões anunciados. Quem recusar fica com o programa atual, de US$ 10 milhões até 2030.
A pergunta que sobra: a Fifa precisa desse dinheiro?
A resposta é não. Quem quer isso é Infantino. Ele sempre acreditou em operação comercial terceirizada — era assim, embora em outro nível, na Uefa, onde uma empresa cuidava da parte comercial como prestadora de serviço, sem virar sócia. Agora ele quer ir além: uma empresa à parte, com investidores dedicados, que ele acredita tornar a gestão mais orientada a negócio e menos refém da política interna da entidade.
Há também ganho pessoal explícito: um cargo permanente na FFE após o fim do seu mandato na Fifa, em 2031, como comissário ou CEO — com salário que ele considera mais adequado ao modelo que propõe. Hoje recebe US$ 6 milhões anuais na Fifa; a especulação é que o novo cargo se aproxime do que ganha o comissário da NFL, algo perto de US$ 60 milhões — dez vezes mais.
E isso acontece depois da Copa mais lucrativa da história: o ciclo 2023-2026 deve fechar acima de US$ 15 bilhões em receita, superando a própria projeção da Fifa, de US$ 13 bilhões. Segundo o relatório financeiro mais recente da própria entidade, a Fifa soma quase US$ 7 bilhões em caixa e ativos financeiros acumulados. Teoricamente, poderia bancar os pagamentos prometidos com recursos próprios, sem vender fatia do negócio a investidores externos.
A Concacaf foi direta nesse ponto: pediu que o Conselho da Fifa avalie se a entidade não pode cumprir os mesmos pagamentos usando suas reservas. Victor Montagliani, presidente da confederação, quer suceder Infantino em 2031 e busca se distanciar da imagem dele — algumas fontes já falam em candidatura própria já em 2027, aproveitando a fragilidade do momento.
Quem já disse não
A Uefa foi direta: o simples fato de dar um prazo apertado para algo tão importante já diz tudo sobre a proposta. Depois de reunião de emergência, anunciou que vai boicotar ativamente todas as competições da Fifa enquanto a proposta estiver na mesa — a consequência máxima, ainda que não se saiba até onde o bloco está disposto a ir.
A AFC se juntou a Concacaf e Uefa nesta sexta (31): em tom mais brando, disse que qualquer proposta que ameace a unidade e o caráter universal da competição deve ser reconsiderada. A conta importa: Uefa tem 55 votos na Fifa, Concacaf tem 35 (nem todo filiado à confederação vota — seis membros da Concacaf ficam de fora) e AFC tem 46 (mesma lógica, um membro fora). Somados, 136 votos já perdidos. Restam a Infantino, na melhor das hipóteses, 75 — bem abaixo dos 106 necessários para aprovar a proposta em maioria simples entre as 211 federações.
Isso tudo em teoria, porque as federações podem votar como quiserem, mas é normal que elas votem em blocos, de acordo com interesses que consideram comuns dentro daquele grupo. E como Uefa, Concacaf e AFC revelaram ter feito reuniões sobre o assunto — com a Uefa e a Concacaf dizendo explicitamente que a decisão de rejeitar a proposta foi unânime —, é relevante ressaltar a posição dos blocos.
CAF, Conmebol e OFC ainda não se posicionaram formalmente, mas o cálculo de cada uma é político, não técnico: a CAF tende a apoiar porque seu presidente, Patrice Motsepe, quer suceder Infantino em 2031 com o apoio dele; a Conmebol tende ao silêncio porque seu presidente apoiou cedo a reeleição de Infantino e depende dele para emplacar a expansão da Copa a 64 seleções em 2030; a OFC, pequena demais para pesar sozinha, deve seguir o vento que soprar das duas maiores.
Um traidor no espelho
A crise também reabriu uma ferida antiga. Sepp Blatter, antecessor de Infantino, criticou publicamente a proximidade do atual presidente com Donald Trump. É uma ironia pesada: Blatter e Michel Platini foram banidos do futebol em 2015 por um pagamento de CHF 2 milhões que a Justiça suíça considerou, em duas instâncias, não ser prova de corrupção — absolvição confirmada em definitivo em março de 2025.
O escândalo, porém, já tinha cumprido seu papel político em 2015: tirou Platini da disputa pela sucessão de Blatter, abrindo caminho para que Infantino — até então secretário-geral da Uefa sob o próprio Platini — entrasse na corrida e vencesse em 2016. O advogado de Platini foi direto ao comentar a segunda absolvição: o processo “impediu sua eleição como presidente da Fifa em 2016”. Platini nunca escondeu o ressentimento — considera Infantino um traidor que se aproveitou da própria queda dele para assumir o posto.
O padrão de fundo é o mesmo da Superliga: poder que se acha grande demais para prestar contas tende a superestimar sua blindagem. Os clubes da Superliga acharam isso em 2021 e caíram em 48 horas.
A Uefa aprendeu a lição e reagiu criando sua própria empresa comercial — mas com a European Football Clubs como sócia, não investidor externo, o mesmo modelo que a Fórmula 1 usa com a Liberty Media sob o Pacto de Concórdia: capital privado dentro da estrutura, mas com poder de veto formal para quem disputa a competição.
No desenho da FFE, os investidores têm participação financeira; as federações, equivalentes às equipes nesse paralelo, não têm cláusula alguma de veto ou assento formal. E ninguém sabe como funciona a governança, mas é impossível desconsiderar que os investidores tenham influência nos rumos que serão tomados se isso for adiante.
A corda que talvez arrebente
A Uefa tem argumento de peso para liderar a oposição: seis dos oito times nas quartas de final da Copa de 2026 eram europeus, e a maioria dos principais jogadores do mundo atua no continente. Fora da estrutura da Fifa, há ligas, clubes, jogadores e políticos — o primeiro-ministro britânico Andy Burnham e a ministra do esporte francesa, Marina Ferrari, já se posicionaram contra.
O clima de rejeição virou até publicidade. A Carlsberg usou o episódio para ironizar Infantino no Instagram: “Time for a hydration break, Gianni? Probably”, na linha do seu slogan histórico. Em 2021, a Heineken fez o mesmo com a Superliga: “Don’t drink & start a league”. A piada, das duas vezes, resume o tom público antes mesmo de qualquer resultado formal.
Há ainda uma consequência que talvez pese mais para Infantino do que a proposta em si: a reeleição de 2027, até poucos meses atrás mera formalidade, hoje enfrenta articulação real de oposição — mesmo que o nome mais cotado, Nasser Al-Khelaifi, já tenha recusado o convite da Uefa. Há uma clara articulação da Uefa em busca de um nome que ao menos concorra com Infantino e desgaste a sua imagem. Ainda que vença essa disputa, é provável que Infantino saia dela com poder e influência bem menores do que tem hoje.
Infantino parecia blindado de toda crítica, com um poder quase imbatível nas mãos. A ambição, porém, pode ter criado a sua própria ruína. Ele deu aos opositores exatamente o que faltava: um motivo claro, palpável, para que todas as vozes contrárias se unam — ele está tentando vender a Copa do Mundo.
A corda parece ter esticado demais. E talvez, pela primeira vez desde que assumiu, Infantino corra o risco de vê-la romper.
PODCAST MEIOCAMPO #253
A Fifa está à venda? Gianni Infantino tem uma proposta para vender parte dos ativos comerciais das principais competições da entidade — incluindo a Copa do Mundo — para investidores privados, e promete um rio de dinheiro a mais para as 211 federações caso o plano seja aprovado. Neste programa, explicamos o que é a proposta "FIFA Forward Enterprise", quanto vale (os números giram na casa dos US$ 4 bilhões), o que ela realmente significa para o futebol e por que a Fifa quer fazer isso agora. No caminho, passamos pela crise da seleção italiana sem técnico, a novela Mancini x FIGC e como tudo isso se conecta ao xadrez político de Infantino.
Adeus, Franco
Por Felipe Lobo
O mundo se despediu hoje de um dos grandes nomes da história do futebol. Franco Baresi morreu na Itália aos 66 anos. A causa da morte não foi revelada. O italiano enfrentava um tratamento contra câncer desde agosto de 2025.
O jogador marcou época como um dos defensores mais icônicos do mundo e vestiu apenas duas camisas ao longo da sua carreira: a do Milan, de 1977 a 1997, e da seleção italiana, de 1982 a 1994. Foi campeão do mundo pela Itália em 1982, aos 22 anos — sem jogar um minuto sequer, reserva atrás de Gaetano Scirea.
Doze anos depois, seria capitão na final da Copa de 1994, contra o Brasil, recém-operado do joelho e contrariando a recomendação médica de que não deveria entrar em campo. Perdeu a decisão nos pênaltis. Também vivera a mesma frustração em casa, na semifinal de 1990, diante da Argentina — igualmente nos pênaltis. Foram 81 jogos pela seleção italiana.
Com 1,76 metro, era considerado baixo demais pelos padrões da época para jogar no meio da zaga. Virou, mesmo assim, um dos mestres do ofício de defender.
Foi capitão do Milan por 15 temporadas e jogou 20 delas pelo clube, somando 719 partidas — o segundo maior número da história rossonera, atrás apenas de Paolo Maldini. Conquistou seis vezes o Campeonato Italiano, três vezes a Champions League e duas vezes a Copa Intercontinental. Foi eleito o Milanista do Século pela torcida em 1999, dois anos depois de se aposentar, e a camisa 6, que vestiu ao longo da carreira, foi aposentada pelo clube.
Seu desempenho o colocou em segundo lugar na Bola de Ouro da France Football em 1989, atrás do companheiro de time, o atacante Marco van Basten — um feito raro para um defensor. Foi apelidado de Kaiser Franz, em referência a Beckenbauer, pela sua atuação como líbero e zagueiro.
Baresi formou uma dupla marcante ao lado de Paolo Maldini, com quem dividiu 400 jogos em 13 temporadas, entre 1984 e 1997. Maldini escreveu uma carta aberta que diz: “O que faremos sem o nosso capitão?”, em que relembra que foi Baresi quem o ensinou a lutar até o último suspiro e o valor de ser um verdadeiro líder.
A parceria era tão sólida que chegou a circular a informação de que a dupla teria sofrido apenas 23 gols em 196 jogos juntos — mas isso é uma mentira, como a FourFourTwo desmontou em detalhe, e algo que o nosso cofundador Leandro Stein já havia apontado como estatística falsa quando ela começou a circular. O número real: 298 gols sofridos em 400 jogos juntos — a estatística viral era, na verdade, uma média de gols por temporada (298 ÷ 13 = 23), traduzida errado de um post oficial da Serie A.
Baresi nem precisaria desse exagero e de números falsos. Sua carreira é eloquente, é grandiosa e é inesquecível. A última aparição pública dele foi em fevereiro deste ano, carregando a tocha olímpica na cerimônia de abertura dos Jogos de Inverno de Milão, num San Siro lotado.
Giovanni Malagò, presidente do Comitê Olímpico Italiano, definiu-o como “um campeão extraordinário que vestiu apenas duas camisas ao longo de toda a carreira” — a mesma escolha romântica que abre esta nota.
Não só os torcedores do Milan e da Itália o lembrarão para sempre: qualquer apaixonado por futebol em algum momento da vida irá se deparar com a arte de ser zagueiro que o italiano ensinou ao longo da carreira. Merece todas as homenagens como o jogador lendário que será, eternamente.
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A Itália passou por uma situação ridícula sob o comando do novo presidente, Giovanni Malagò, no processo de escolha do novo técnico. O caso Andrea Pirlo é simbólico de como a Itália se mete em confusões por uma gestão confusa - e que agora termina com Roberto Mancini contratado. LEIA AQUI!
Bom fim de semana!








