O Atlético de Simeone já não é aquele Atlético de Simeone
Esqueça o clichê: este Atlético tem como força o seu ataque, comandado por Griezmann e Julian Álvarez
Newsletter Meiocampo #133 — 17 de abril de 2026
O Atlético de Madrid chega à semifinal da Champions League quebrando a imagem que criamos dele mesmo nos últimos anos. Na edição de hoje, exploramos no que o time é diferente daqueles finalistas da Champions de 2014 e 2016 e o que isso pode significar para o futuro. Falamos também sobre o brilho de Dembélé contra o Liverpool, a reflexão que o Barcelona precisa fazer, as dores de um Arsenal classificado mais no alívio e mais.
Vale lembrar: as edições de terça-feira e eventuais extras são exclusivas para assinantes. Às sextas-feiras, continua o conteúdo gratuito aberto ao público. Sugestões, críticas, elogios, quer só mandar um abraço: contato@meiocampo.net.
O Atlético de Simeone já não é aquele Atlético de Simeone
Por Felipe Lobo
Diego Godín saiu do Atlético de Madrid em 2019. Com ele foi mais do que um zagueiro: foi a encarnação de um estilo que havia levado o clube a duas finais de Champions League e à condição de time mais temido da Europa fora do eixo Real Madrid-Barcelona. Sete anos depois, o Atlético está outra vez nas semifinais. Mas o time que chegou lá não tem nada a ver com aquele. É diferente — mais gols, mais vulnerabilidades, mais imprevisível. E é mais perigoso do que jamais foi.
A queda defensiva não decorreu de uma mudança tática de Simeone, mas de um processo. Godín deixou o clube em 2019. Miranda tinha partido antes. José Giménez, que esteve nas duas conquistas de La Liga, chegou aos 31 anos com histórico de lesões e queda de rendimento. Os substitutos contratados — Robin Le Normand, Clément Lenglet e Dávid Hancko — são jogadores competentes, mas não são pilares. A defesa que definia o time deixou de existir e Simeone não tinha como replicar aquele modelo com a mesma eficiência. Precisou construir outro.
Para reformular o elenco, Simeone atacou problemas antigos: a criação de jogadas ofensivas e um meio-campo capaz de controlar mais o jogo. Foram €405 milhões em reforços em duas temporadas — Julián Álvarez, Alexander Sorloth, Álex Baena, Ademola Lookman, Thiago Almada. Jogadores que trouxeram opções ofensivas que o time nunca havia tido. A aposta foi no ataque porque era onde havia mercado, talento disponível e necessidade urgente de compensar o que a defesa não entregava mais.
O Atlético semifinalista da Champions League, que eliminou o Barcelona, não é uma versão melhorada dos anteriores. É estruturalmente diferente. Os times de 2014 e 2016 marcavam poucos gols e sofriam menos ainda — a eficiência defensiva era a identidade. Este time é o terceiro maior goleador da Champions nesta edição, empatado com PSG e Bayern, e ao mesmo tempo tem uma das defesas mais vazadas entre os semifinalistas. Não é equilíbrio — ao contrário. É uma aposta no ataque como mecanismo principal.
Julián Álvarez é o principal símbolo dessa mudança. São nove gols em 13 jogos de Champions League — quase o mesmo número que marcou em 29 jogos de La Liga. É um jogador que cresce nos jogos grandes e praticamente dobra seu volume ofensivo na Europa em relação ao campeonato nacional. Antoine Griezmann, que saiu do Atlético em 2019 rumo ao Barcelona parcialmente por frustração com um papel de mais sacrifício do que criatividade, voltou ao clube e, numa temporada que indicava que jogaria menos, cresceu com a equipe para se tornar mais decisivo nos jogos que mais importam — ironicamente, num time que agora oferece o que ele sempre quis: liberdade para atacar. O arco é quase literário.
Quem liga tudo isso é Diego Simeone. Técnico há mais tempo no comando de um clube nas principais ligas europeias, está nos Colchoneros desde dezembro de 2011. Foi ele quem montou o time de 2014 e de 2016 — e segue. Nem o estádio é mais o mesmo: o clube saiu do tradicional Vicente Calderón para o Metropolitano. O técnico que chegou àquelas duas finais perdidas era o guardião de um estilo e de uma identidade claros. O desta semifinal é alguém que viu a erosão gradual daquela identidade e construiu outra a partir do que tinha disponível. A frase que disse após eliminar o Barcelona — que precisou recomeçar várias vezes em 14 anos e que ver o time ainda competindo o emociona — não é retórica de vestiário. É o resumo do que o clube viveu nesse tempo.
Foram muitas as vezes em que a impressão era que o ciclo de Simeone chegava ao fim, que o modelo se esgotava, que o time parecia ter chegado ao limite sob seu comando. Simeone evoluiu como técnico ou soube se adaptar às circunstâncias? Os indícios apontam mais para o segundo — mas é difícil dizer que não há algo do primeiro também. Falava-se muito da falta de criatividade ofensiva de seus times, sempre excessivamente baseados na defesa e capazes de agredir apenas no contra-ataque. Isso já não é verdade.
Os Colchoneros conseguem ter menos posse de bola e explorar as linhas altas do adversário quando o jogo pede — como fizeram contra o Barcelona, tanto na Copa do Rei quanto na Champions. Quando o adversário é inferior e abre espaço, sabem ter bola e controlar o jogo. É um time que aprendeu a ser perigoso de mais de um jeito.
Este Atlético de Madrid chega à semifinal ainda descobrindo sua identidade. Finalista da Copa do Rei, eliminou o Barcelona duas vezes, tem em Griezmann e Julián Álvarez jogadores capazes de crescer nos momentos mais importantes. Se alguém dissesse no começo da temporada que o ataque do Atlético seria comparável, em gols, ao de PSG e Bayern, pareceria irreal. Tudo isso emergiu de uma temporada que começou com o time fora dos oito primeiros da fase de liga europeia.
Os Atléticos de 2014 e 2016 sabiam exatamente o que eram. Este ainda está descobrindo. Mas há algo nessa descoberta que aqueles times nunca tiveram: a sensação de que o placar poderia mudar a qualquer momento, para qualquer lado. Para um clube que construiu sua identidade na certeza defensiva, aprender a viver com a incerteza ofensiva pode ser a mudança mais profunda de todas. E para Simeone — que tantas vezes pareceu estar administrando um fim de ciclo —, talvez seja apenas mais um recomeço.
SEJA MEMBRO.
Esta edição vai para todo mundo. As de terça nunca vão. Se você chegou até aqui, já sabe o que isso significa — e pode garantir que poderá ler todas as edições.
PODCAST MEIOCAMPO #222
O Bayern mostrou que é o melhor time da Europa no momento — talvez com apenas o PSG como concorrência — e se impôs diante do maior vencedor da competição, o Real Madrid. Os Blancos surpreenderam com uma atuação acima do esperado, mas voltaram a deixar claro que uma reformulação será necessária. O PSG contou com um Dembélé inspirado para selar a eliminação do Liverpool. Do outro lado, o Atlético de Madrid de Simeone já não é mais aquele Atlético de Madrid de Simeone — e foi justamente ele quem eliminou o Barcelona de Hansi Flick, que terá muito a pensar sobre como lidar com adversários que lhe tiram o jogo. O Arsenal correspondeu ao favoritismo, mas foram dois jogos de muita pobreza técnica, e o Sporting sai com um sentimento agridoce: orgulho por encarar o líder da Premier League, decepção por ter sido um confronto vencível.
Ouça também no Spotify, iTunes ou no seu tocador de preferência.
GIRO
Por Bruno Bonsanti
- O Barcelona se encontra em uma encruzilhada. Provou e confirmou que a proposta de Hansi Flick é avassaladora para pontos corridos. Provou e confirmou que ela sofre em confrontos de mata-mata. Principalmente contra adversários acostumados a ela. O gol de Lookman foi engraçado porque o Atlético de Madrid estava postado no campo de ataque, recomeçou a jogada com os defensores, esperou o avanço e acelerou com toques rápidos para pegar a linha adiantada até a projeção de Marcos Llorente pela direita. Também é inacreditável que o Barcelona tenha sofrido mais uma expulsão por matar chance clara e manifesta, ainda que o cartão vermelho para Eric García seja contestável. Se o boicote à defesa continuar, a receita precisa ser fazer tantos gols que o adversário fica desnorteado. Como nas oitavas de final. O Newcastle fez três, longe do ideal, mas o Barça fez oito. E aí entramos no segundo problema: a postura agressiva e sufocante sempre criará volume de jogo, mas, fora de Lamine Yamal, o seu ataque não tem fluído tão bem quanto deveria. Houve um apagão de 27 minutos sem finalizações no segundo tempo. Em parte por questões individuais: a queda brusca de Robert Lewandowski parece ter chegado aos 37 anos, Raphinha não para de se machucar e, por mais que Ferran Torres tenha renascido na eliminatória, ele continua sendo o Ferran Torres. Talvez seja a hora de uma reformulação no setor e de, quem sabe, prestar um pouco de atenção à defesa?
- Da outra vez foram os três melhores minutos da vida do Joselu, desta vez será a pior partida da carreira do Neuer? O Bayern de Munique teve o mérito de não cair na armadilha psicológica do Real Madrid na Champions League, ciente de que, bola por bola, tinha muito mais para oferecer. Inclusive individualmente. Harry Kane faz talvez a melhor temporada da sua carreira, mas teve uma eliminatória relativamente apagada. Tudo bem porque Michael Olise também faz a melhor temporada da sua carreira e, no fim, quem decidiu foi Luis Díaz. O Bayern é ótimo coletivamente e, ao mesmo tempo, é difícil lidar com todas as suas ameaças, principalmente se Jamal Musiala voltar ao seu melhor ou se Upamecano de repente virar camisa 10. O time de Vincent Kompany, com campanha histórica na Bundesliga, e de volta às semifinais da Copa da Alemanha após seis anos, pinta como o principal favorito à Champions League.
- O Real Madrid fez mais do que se esperava contra o Bayern de Munique, mas é um problema que se esperava tão pouco. Será a sua segunda temporada consecutiva sem títulos, o equivalente a cinco, talvez, para um clube normal? O equilíbrio do elenco precisa ser tratado com urgência. Parece que toda partida o Real Madrid tem uma defesa remendada ou com jogadores voltando de lesão. Nem sempre isso importa, mas é significativo que Álvaro Arbeloa tenha feito apenas uma substituição antes dos 45 minutos do segundo tempo, quando colocou dois moleques. Preocupa principalmente a incerteza sobre o que virá pela frente. Ficaria surpreso se Arbeloa continuasse. A tentativa de bolar um plano de jogo que não seja exclusivamente sobreviver e lançar a bola para Vinicius Jr. e Kylian Mbappé teve vida curta porque o elenco não clicou com Xabi Alonso. Florentino Pérez fará outra ou tentará fortalecer o que não vem funcionando? A estrutura sempre permite que o Real Madrid de repente conjure um time vencedor, mas boas ideias às vezes ajudam.
- A temporada tem sido complicada para Ousmane Dembélé, a principal vítima das exigências físicas da Tríplice Coroa do PSG. Mas no momento em que o Liverpool apertava para ressuscitar nas quartas de final, ele apareceu para decidir. Depois da década dominada por Lionel Messi e Cristiano Ronaldo, precisamos nos acostumar com melhores jogadores do mundo que são meramente mortais. O atual campeão lidou bem com as duas mãos. Poderia ter aberto o placar em Anfield e limitou o Liverpool a espasmos em que dava para acreditar em uma reviravolta. Sabia que, em algum momento, haveria abertura para contra-ataques e nem precisava tê-los aproveitado para se classificar. Podemos parar de esperar que o PSG atinja o nível da temporada passada. Ele já chegou a um patamar bem elevado, que o permite sonhar com o bicampeonato.
- Eu tenho curiosidade de descobrir se Mohamed Salah não está sendo bem utilizado ou se Arne Slot modificou as estruturas justamente porque não tinha certeza se ainda dava para ter um sistema que gira em torno dele. É um questionamento estranho depois da fantástica contribuição do egípcio no título inglês, mas, na atual configuração, está difícil entender o que Salah tem para oferecer. Recebe a bola na ponta direita, sempre marcado por um ou dois. Não coloca na frente porque não ganha mais na corrida. Quando tenta o drible, a bola escapa mais do que costumava. Está longe demais para finalizar. Sobra o passe, que é bom, mas não tão bom. Outro treinador, outro elenco e outra proposta talvez ainda consigam reativá-lo, mas, dependendo do que Salah decidir fazer quando sair do Liverpool, talvez nunca tenhamos a resposta.
- Assim que Hugo Ekitiké caiu, todo mundo que não é médico, mas está acostumado com lesões de futebol, sabia que a sua Copa do Mundo estava em risco. E de fato, a Federação Francesa confirmou em um comunicado que o atacante não terá condições de defendê-la no meio do ano. Com uma ruptura no tendão de Aquiles, mesmo a primeira parte da próxima temporada do Liverpool será prejudicada. É uma pena. Sempre tido como uma grande revelação, Ekitiké havia deixado as más impressões do PSG para trás e estava em clara ascensão. Talvez fosse o centroavante perfeito para trabalhar com todos os talentos ofensivos da França e foi o único reforço do badalado mercado do Liverpool que entregou mais do que se esperava. Tanto que, neste momento, se for jogar apenas um, tem que ser ele e não Alexander Isak.
- O Arsenal passou, como se esperava, mas foram 180 minutos de muita pobreza. A defesa funcionou apenas até certo ponto. Trincão, Catamo, Maxi Araújo e João Simões ficaram a poucos centímetros de forçar a prorrogação no Emirates. Bem mais próximos do que o Arsenal de matar a eliminatória. Dependeu quase com exclusividade da bola parada, o suficiente para eliminar um adversário bem mais pobre, mas não para evitar derrotas nas copas inglesas ou para manter o Manchester City afastado na Premier League. Desde o fim da Data Fifa, o Arsenal não fez nada para aliviar as preocupações de que o seu estilo talvez tenha se esgotado. E, neste domingo, terá o jogo mais importante dos seus últimos 22 anos.
- O Sporting fica com uma mistura de orgulho e decepção. Foi capaz de encontrar mais buracos na firme defesa do Arsenal do que eu imaginava. Faltou um pouquinho de capricho nas finalizações para chegar às semifinais da Champions League pela primeira vez. Mesmo assim, marca o melhor momento da sua história recente com uma excelente campanha europeia, com o sétimo lugar da fase da liga e uma reviravolta impressionante contra o Bodo/Glimt. A guinada começou com Ruben Amorim quebrando 19 anos de jejum no Campeonato Português e é uma excelente notícia para os Leões que é possível manter um alto nível de competitividade mesmo sem ele.
- O Porto teve um jogador expulso e sofreu um gol meio que por acaso nos primeiros 10 minutos da sua visita ao City Ground. Tem poucas maneiras piores de começar uma partida decisiva. Os Dragões sobreviveram à pressão do Nottingham Forest e se reorganizaram para buscar pelo menos o empate no segundo tempo. Chegaram a acertar a trave. A classificação do Forest garantiu um finalista inglês na Liga Europa porque o Aston Villa se impôs contra o Bologna. Se o resultado na Itália lhe havia sido generoso, desta vez o Villa fez questão de mostrar quem era o campeão europeu - e quem tinha o técnico mais vitorioso da história da competição. Com mais uma vitória sobre o Celta, o Freiburg se classificou sem problemas e enfrentará o Braga, que conseguiu uma fantástica virada sobre o Betis depois de estar perdendo por 2 a 0. Na Conference, uma única surpresa: o Estrasburgo goleou o Mainz e reverteu a derrota do jogo de ida. Os três times que haviam vencido a ida por 3 a 0 avançaram. As semifinais serão Rayo Vallecano x Estrasburgo e Shakhtar Donetsk x Crystal Palace.
- Javier Mascherano não é mais técnico do Inter Miami. O atual campeão da Major League Soccer anunciou que o ex-volante pediu demissão por “motivos pessoais”, um bom eufemismo para não dizer exatamente o que aconteceu. Segundo uma reportagem do The Athletic, houve uma discussão no vestiário no fim de semana, após o empate por 2 a 2 com o Red Bull New York, e a insatisfação estava se instalando por um começo de temporada decepcionante. O Inter Miami foi eliminado pelo Nashville nas oitavas de final da Concachampions e empatou os dois primeiros jogos no seu novo estádio. Fora isso, havia começado a MLS com três vitórias em cinco partidas fora de casa. Por enquanto, o interino será Guillermo Hoyos, um experiente treinador argentino, campeão nacional com Bolívar e Universidad de Chile, e descrito pelo The Atheltic como “uma das pessoas que nunca dizem não para Lionel Messi”. Ele também é conhecido como o homem que descobriu Messi porque trabalhava no Barcelona B quando o craque subiu para o time principal. Eles são amigos próximos.
- O calendário obriga os clubes brasileiros a rodarem o seu elenco e, pela superioridade financeira, é compreensível que o façam nas primeiras rodadas da fase de grupos da Libertadores. No entanto, Fluminense e Cruzeiro acabaram pagando o preço por poupar alguns titulares, foram derrotados em casa e ainda não venceram. Mais grave para a Raposa que está em um grupo difícil. O Boca Juniors já abriu seis pontos, com ótimas vitórias sobre Universidad Católica, fora de casa, e por 3 a 0 sobre o Barcelona de Guayaquil na Bombonera. O outro lado da moeda é a noite mágica do Independiente Rivadavia que copou o Fluminense no Maracanã em sua primeira participação na Libertadores. Acompanha o que vem fazendo em casa, com o título da Copa da Argentina ano passado e a liderança do seu grupo no atual Apertura, à frente do River Plate. Depois de bater o campeão da Copa Sul-Americana, o Mirassol conheceu a altitude e levou um choquinho de realidade da LDU. Os outros brasileiros (Corinthians, Flamengo e Palmeiras) fizeram a lição de casa.
NA EDIÇÃO ANTERIOR DA NEWSLETTER…
A Newsletter Meiocampo conta com duas edições fixas semanais: às terças, exclusiva para assinantes, e às sextas, gratuita para o público em geral. Ocasionalmente, nossos assinantes também ganharão textos extras. Na terça-feira, tratamos sobre como o torcedor que vai ao estádio parece em segundo plano — ou quinto — para os dirigentes.
Bom fim de semana e bom feriado!








Ótima newsletter como de costume. Simeone conseguiu transformar o Atlético de Madrid em algo melhor do que era.
Vejo o Atlético com muitas chances de chegar a final.
O Arsenal não vive um bom momento.