O naufrágio da Armada Inglesa
O que está por trás do fracasso dos ingleses nos jogos de ida das oitavas da Champions League?
Newsletter Meiocampo #123 — 10 de março de 2026
A fase de liga sugeria uma hegemonia incontestável dos clubes ingleses, amparada por elencos caros e profundos. Mas o mata-mata europeu conta outra história. Na edição de hoje, destrinchamos como o tipo de jogo da Premier League inverte a balança de poder na Champions League. Enquanto gigantes da Espanha, Alemanha e França administram vantagens domésticas para chegar a março no ápice físico, a elite inglesa começa a expor suas rachaduras. Analisamos os tropeços da primeira rodada das oitavas de final. Passamos ainda por novo uniforme do Brasil, Irã discutindo se vai à Copa e Trump fazendo ameaça velada e outros resultados da Champions. Boa leitura!
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O naufrágio da Armada Inglesa
Por Bruno Bonsanti
A tese predominante quando a primeira fase da Champions League terminou com cinco ingleses entre os oito primeiros era que os clubes da Premier League se beneficiam naquele momento da temporada porque, por serem mais ricos, têm elencos maiores para equilibrar o começo das ligas nacionais e a busca pela classificação, além de, pelas travas do regulamento, não terem que enfrentar nenhum dos seus compatriotas.
Essa mesma tese projetou que a situação se inverteria quando o mata-mata chegasse porque concorrentes de outras ligas, como Bayern de Munique, Paris Saint-Germain e os gigantes espanhóis, chegam a março ou abril mais inteiros por terem que se esforçar menos durante os fins de semana. Em alguns casos, com vantagens tão enormes que podem até poupar titulares.
Os resultados da primeira semana das oitavas de final corroboram essa hipótese. Nenhum inglês venceu e três deles terão que lidar com um déficit enorme na volta. Mas antes de mais nada, vamos fechar a lupa em cada um dos jogos.
Qual resultado realmente surpreendeu?
Sem entrar nos méritos da sua abordagem, o Arsenal não tem sido um favorito que atropela os adversários. A partida anterior à visita à BayArena foi contra um adversário da terceira divisão, derrotado por apenas 2 a 1 com um gol aos 21 minutos do segundo tempo. Se o Mansfield Town conseguiu segurá-lo, não espanta que o Bayer Leverkusen também o tenha. Principalmente se os árbitros europeus não forem tão permissivos com o cerceamento à liberdade de ir e vir dos goleiros quanto os da Premier League.
Isso ficou visível em Istambul, onde o segundo inglês na escala de favoritos das oitavas de final teve alguns escanteios com faltas marcadas antes da bola sequer chegar à área. A própria condição de favorito do Liverpool neste confronto tem que ser contestada. Exige que você não o tenha visto jogar muitas vezes nesta temporada. Os resultados melhoraram, mas segue irregular, sem saber como prefere atacar os adversários e sujeito a falhas defensivas. No outro lado, havia um dos melhores centroavantes do mundo e uma torcida local ensandecida. A derrota por 1 a 0 foi um resultado normal.
O outro inglês considerado favorito era o Manchester City, se é possível conceber que alguém seja favorito contra o Real Madrid na Champions League. A mística fez parte do resultado mais surpreendente da semana. Surpreendente porque o City estava embalado, com nove vitórias e dois empates em suas últimas 11 partidas, e porque o Real Madrid havia acabado de perder para Osasuna e Getafe e apenas um gol de Federico Valverde nos acréscimos evitou o terceiro tropeço consecutivo contra o Celta de Vigo.
A segunda parte do resultado é que o City não soube aproveitar os minutos iniciais de pressão para assumir o controle da partida e foi exposto por uma escalação excessivamente liberal de Pep Guardiola, com apenas Rodri na contenção, atrás de Bernardo Silva, três pontas e Erling Haaland. Eu geralmente costumo defender as invenções de Guardiola. No geral, o público dá bola demais para escalações. Sistemas, posicionamentos e funções são mais importantes. Mas, bicho, você estava indo enfrentar o Real Madrid no Santiago Bernabéu pela Champions League, sabe? Valverde também teve uma das melhores atuações da história da competição.
Os outros confrontos nem chamam a atenção. O Newcastle, o único inglês que começou as oitavas em casa, teve uma apresentação honrosa contra o Barcelona e o empate não foi nenhum desastre. A escalação repentina do goleiro Antonín Kinsky e sua substituição após cometer duas falhas graves colocaram um pouco de molho na história, mas quem consegue se surpreender com o Tottenham perdendo qualquer jogo de futebol a esta altura? Foi a sexta derrota seguida. Fico mais impressionado por eles terem conseguido voltar de Madri sem que a eliminatória esteja completa e irrevogavelmente definida. Também me impressionou que Igor Tudor pegou o mesmo avião que os seus jogadores.
Nenhum adversário é favorito contra o PSG em seu nível mais alto. Ou próximo dele. Nós só não havíamos visto isso acontecer muitas vezes até agora nesta temporada. E o Chelsea ainda arrancava o empate até Filip Jorgensen, outro goleiro reserva que de repente apareceu nas oitavas de final da Champions League, falhar a 15 minutos do fim. Os gols que transformaram uma derrota normal em um déficit praticamente irrecuperável saíram a partir dos 86 minutos. O PSG marcou cinco vezes em nove finalizações, com um xG inferior a 1.00 (0.98). A estatística nunca diz tudo, mas existia um cenário razoável em que o Chelsea retornaria de Paris em uma situação muito mais favorável.
Essa partida também serve de exemplo para um outro problema específico: a Premier League não dá a mínima para o futebol europeu. O PSG conseguiu adiar a partida contra o Nantes entre as duas pernas das oitavas de final, enquanto o Chelsea visitará o Newcastle no fim de semana. Aliás, o PSG entrou em campo na sexta-feira antes do jogo de ida, assim como Bayern de Munique e Real Madrid. E, sendo justo, o Liverpool, mas não é um hábito e os outros representantes ingleses ainda vivos na Copa da Inglaterra tiveram compromissos no sábado.
Talvez pela classificação da fase da liga, que, em sua segunda edição, ainda não sabemos exatamente o que significa, esperava-se mais dos ingleses, mas com exceção do Santiago Bernabéu, não houve nenhum resultado tão fora da curva.
A Premier League está ruim?
Aquela tese foi gestada porque os comentaristas ingleses ficaram muito confusos com o desempenho dos seus clubes na Champions League, em contraste com o que consideravam um nível baixo da Premier League.
Essa parte faz sentido. Para o bem ou para o mal, a liga inglesa sempre foi mais física e intensa do que as suas colegas, mas tudo isso foi elevado à enésima potência nesta temporada de duelos individuais, escanteios fechados e arremessos longos de lateral.
Ninguém, nem mesmo o Arsenal, tem conseguido ganhar com facilidade. Há poucas sequências de vitórias e, dependendo do seu gosto, a qualidade dos jogos não salta aos olhos. Tem sido mais desgastante que o normal e não necessariamente é um estilo transferível para competições europeias, sob critérios diferentes de arbitragem. Parece natural que eles tenham sofrido em confrontos específicos em que os técnicos adversários tiveram tempo para se preparar e apresentaram outras propostas.
Não que isso seja uma boa notícia: o cenário mais plausível no momento é que apenas Arsenal e Liverpool se classifiquem às quartas de final e pode ser que nem isso aconteça.
E qual é a novidade?
Nada disso é novo. Os resultados da Premier League não têm sido avassaladores no cenário europeu, ainda que de vez em quando haja uma decisão como Chelsea x Manchester City ou Manchester United x Tottenham. Nos últimos 10 anos, a Inglaterra teve apenas um finalista a mais que a Espanha (7 x 6) na Champions League. Mesmo na Liga Europa, na qual sua supremacia financeira costuma ser maior, a diferença é só um pouco mais ampla (7 a 5).
Na ilha, a crença é que o calendário e o equilíbrio da Premier League prejudicam os clubes ingleses. Fora dela, a percepção é que outras ligas conseguem fazer mais com menos. O que é verdade. O preço que se paga por ter inflacionado tanto o mercado e, paradoxalmente, não ser capaz de atrair os melhores jogadores do mundo. Os melhores, melhores mesmo. Não que seja uma avaliação objetiva, mas apenas dois dos 10 primeiros colocados da última Bola de Ouro atuam na Premier League. Mohamed Salah, 33 anos, e… Cole Palmer.
Então talvez aquela tese esteja certa, ainda que seja imperfeita porque não dá para dizer que PSG e Real Madrid tiveram vida fácil em seus campeonatos nacionais até agora. Mas parece que os ingleses conseguem manejar melhor o começo das ligas nacionais e as rodadas da Champions League que não são tudo ou nada.
Embora seja um exagero achar que qualquer time italiano é pior que o Crystal Palace, como a análise inglesa gosta de fazer, é verdade que existe um equilíbrio maior na Premier League. Pouco tempo atrás, o lanterna Wolverhampton parecia caminhar para uma das piores campanhas da história e acabou de somar quatro pontos contra Arsenal e Liverpool.
É uma questão financeira: clubes da parte de baixo da tabela conseguem contratar destaques do top 6 ou top 8 de outros países. Acrescentando a fisicalidade, é razoável que, quando chega o mata-mata, a galera esteja mais cansada, pelo menos o bastante para fazer a diferença em confrontos tantas vezes decididos em detalhes.
O engraçado mesmo será acompanhar a velocidade com que a narrativa mudará de “o domínio da Premier League” para “a Premier League é superestimada”.
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GIRO
Por Felipe Lobo
- A Seleção Brasileira lançou seu segundo uniforme em parceria com a marca Jordan. Depois da polêmica sobre a possível camisa vermelha, foi divulgada a especulada camisa em parceria com a marca de Jordan, que é uma sub-marca dentro da Nike. O uniforme azul chamou a atenção e a curiosidade é que abriram mão do calção azul para adotar um uniforme inteiramente azul. A camisa dividiu um pouco mais as opiniões, mas os agasalhos agradaram geral: trazem um ar dos anos 1990 e uma beleza que é enormes. Você pode ver mais aqui.
- A participação do Irã na Copa deixou o campo esportivo e entrou no geopolítico. O Ministro dos Esportes do país, Ahmad Donyamali, colocou a participação do Irã na Copa em dúvida em declaração à TV iraniana. “Dado que esse regime corrupto (Estados Unidos)” assassinaram nosso líder, sob nenhuma circunstância temos condições de participar da Copa do Mundo. Nossos jogadores não têm a segurança e, fundamentalmente, as condições para a participação não existem”. Isso fez muita gente ler que o Irã não vai para a Copa, embora isso não esteja dito nas palavras do Ministro iraniano.
Donald Trump, presidente americano, tratou de inflamar ainda mais as coisas: “A seleção iraniana é bem-vinda à Copa do Mundo, mas eu realmente não acredito que seja apropriado que eles estejam lá, para a própria segurança deles”. A Federação Iraniana de Futebol foi a público dizer que “ninguém pode excluir a seleção iraniana da Copa. O único país que poderia ser excluído é aquele que meramente carrega o título de ‘sede’, mas que falta habilidade para garantir segurança para os times participando deste evento global”. Muito mais do que uma questão esportiva, a questão agora é geopolítica e a Fifa se colocou em uma péssima posição ao ter, desde o começo, se alinhado a Trump. Agora, precisará resolver esse pepino: o país-sede da Copa entrou em guerra com um dos participantes e disse que é melhor que eles não joguem o torneio pela segurança deles. Se você colocar isso na boca de um presidente de país do terceiro mundo ou de uma ditadura como a Arábia Saudita ou Catar, seria difícil que o torneio acontecesse por lá. Mas são os Estados Unidos...
- Federico Valverde nunca tinha feito três gols em um jogo só. Fez logo em um jogo de oitavas de final de Champions League contra o Manchester City. O mais maluco disso é que ele não fez só os três gols do time, o que já seria suficiente pra uma nota alta no SofaScore. Ele foi um dos principais defensores do time. Foi com uma mexida na função defensiva dele que o Real Madrid saiu do sufoco que era causado especialmente por Doku, em confronto direto com Trent Alexander-Arnold. O uruguaio, em vez de fechar pelo meio, passou a acompanhar o ponta belga e deixava Alexander-Arnold na sobra, marcando pelo meio. Assim, o time se defendeu melhor e o próprio Valverde foi responsáveis por bloqueios e desarmes importantes no campo defensivo. Valverde afastou a bola quatro vezes, fez dois desarmes e uma interceptação. Foi uma atuação magnífica.
- Se a história do Bodo/Glimt é um conto de fadas, o Sporting percebeu que está no mundo da fantasia. Na Noruega, com o inverno nos últimos dias, o Bodo mais uma vez brilhou. O Sporting foi quem ficou na roda. Com o time descansado (a liga norueguesa só começa neste fim de semana), os donos da casa se impuseram e conquistaram a quinta vitória seguida na Champions League. A equipe está simplesmente imparável. A vantagem de 3 a 0, com gols de Sondre Fet, Ole Blomberg e Kasper Hogh marcaram, é grande e os portugueses precisarão de um grande jogo na volta para ter chance. Se não era favorito no confronto, agora o Bodo é favorito absoluto a avançar.
- A Atalanta tomou um baile do Bayern em casa e só vai passear em Munique. Os 6 a 1 sofridos na New Balance Arena foram uma aula de futebol dos alemães, um nível que o time de Bergamo ainda não tinha enfrentado na temporada. Michael Oliseh foi o único a marcar dois gols, os outros foram de Josip Stanisic, Serge Gnabry, Nicolass Jackson e Jamal Musiala. O Bayern de Vincent Kompany é um dos melhores times da temporada, junto com o Arsenal. O próximo adversário promete um duelo pesado: o vencedor de Real Madrid e Manchester City — e como vimos, tudo indica que será o Real Madrid.
- Não tivemos grandes surpresas na rodada da Liga Europa. Os duelos foram bem equilibrados e provavelmente o mais surpreendente foi a vitória do Midtjylland na Inglaterra contra o Nottingham Forest, mais por ser um time inglês contra um dinamarquês. O Porto vencer fora de casa o Stuttgart foi outra vitória fora de casa, assim como o Aston Villa sobre o Lille. O único confronto com mais de um gol de diferença foi a vitória do Ferencváros sobre o Braga, na Hungria.
- A Conference League teve uma golada e algumas classificações encaminhadas. O AEK Atenas goleou o Celje, da Eslovênia, por 4 a 0 fora de casa e basicamente já garantiu a classificação. Outras duas vitórias fora de casa deixaram os times perto da classificação: o Shakhtar Donetsk que venceu o Lech Poznan por 3 a 1 e o Rayo Vallecano que bateu o Samsunspor pelo mesmo placar. Em casa, a Fiorentina venceu o Rakow por 2 a 1, enquanto o AZ venceu o Sparta Praga.
- O nosso leitor Rogério Arantes está com um projeto de financiamento coletivo para o seu livro de contos “Enquanto jogam bola”. O livro traz o futebol como fio condutor das histórias, que acontecem em cenários urbanos e contemporâneos. As histórias trazem reflexões e questionam sentimentos, angústias e preconceitos da realidade do século XXI. O livro junta histórias do cotidiano, como a composição coletiva de uma canção, uma segunda-feira de Carnaval, o nascimento e a morte, uma lanchonete em dia de Copa do Mundo, diferentes gerações de mulheres que se entrelaçam, uma aula de filosofia sobre a ética kantiana. E enquanto tudo isso acontece, o futebol também é jogado. O livro conta com ilustrações de Yuri Carmelo e PH Gomes. Para contribuir, vá na Benfeitoria.
PODCAST MEIOCAMPO #213
O episódio analisa o choque de realidade na abertura do mata-mata da Champions League, com a hierarquia do Real Madrid e de Federico Valverde em contraste com a fragilidade coletiva dos clubes ingleses — que passaram em branco na rodada. O programa abre com a as declarações de Donald Trump sobre a segurança do Irã na Copa do Mundo e segue com o colapso tático do Manchester City, a derrota pesada do Chelsea e Igor Tudor incrivelmente continuar no Tottenham.
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