Newsletter Meiocampo #206 — 9 de outubro de 2026
Depois de quase 20 dias de seleções, as ligas europeias voltam com tabelas que já sugerem muita coisa e não provam quase nada. O Barcelona atropela na Espanha, a Internazionale segue favorita na Itália (apesar de dois clubes empatados no topo), o Monaco de Filipe Luís abre vantagem sobre o PSG, e a Premier League, depois de mais um verão de gastos, parece ter mudado pouco. Reunimos oito perguntas que ainda não têm resposta e tentamos respondê-las mesmo assim.
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Oito perguntas precoces demais sobre a temporada europeia
Por Bruno Bonsanti
Lembra quando clubes jogavam futebol? Pois é. A famosa Super Data Fifa finalmente acabou. Quase 20 dias depois do último jogo, as principais ligas da Europa estarão de volta a partir desta sexta-feira (9). Embora tenhamos tido mais rodadas antes da primeira pausa do que em anos anteriores, ainda não dá para ter uma noção tão clara do que está rolando. Mesmo assim, eu tenho algumas perguntas. É cedo demais para respondê-las, mas eu ainda vou tentar.
A briga pelo título na Espanha já acabou?
Claro que cinco pontos de vantagem, com 93 a serem disputados, não são inalcançáveis, mas o nível que o Barcelona apresentou na primeira perna de La Liga torna difícil vislumbrar que alguém conseguirá impedir o tricampeonato - ou sequer ameaçá-lo.
O Barça atropelou seus adversários. Athletic Bilbao (2) e Sevilla foram os únicos que conseguiram levar menos de quatro gols. Raphinha e Lamine Yamal começaram com tudo, praticamente todos os jogadores de ataque tiveram seus momentos e o melhor jogador da última Copa do Mundo ainda está apenas se adaptando.
Essa impressão tem quase tanto a ver com a irregularidade do Real Madrid, que perdeu duas vezes nas primeiras sete rodadas e teve menos margem de manobra em suas vitórias. O quebra-cabeça merengue tem sido um dos mais difíceis do futebol europeu e faz tempo que José Mourinho não prova estar à altura de uma missão como essa.
O Atlético de Madrid foi para a pausa na vice-liderança. O time de Diego Simeone, porém, parece estar no segundo passo de uma reconstrução e, mesmo quando for um time pronto, geralmente precisa que um dos gigantes tenha uma temporada de baixa. Não parece ser o caso.
Alguém rouba a Bola de Ouro de Raphinha?
Em notas relacionadas, se houvesse uma Bola de Ouro para o primeiro mês da temporada, ela seria de Raphinha. Deslocado a centroavante, o brasileiro explodiu com 14 gols em oito jogos por todas as competições - e nem todos atacando os espaços; em alguns, ele próprio limpou o lance.
Não é a primeira vez que Raphinha tem números espetaculares. Ele entrou na conversa dos prêmios individuais dois anos atrás. O problema é que, para ele ter chance de conquistá-los, o Barça precisa empilhar títulos. E se o Barça empilhar títulos, o principal candidato seria Lamine Yamal.
Se na temporada passada, a primeira que Yamal disputou como craque incontestável, os números - que nessas premiações acabam importando mais do que deveriam - ficaram um pouco modestos, ele começou a atual com oito gols e seis assistências em oito partidas. E isso porque passou em branco nas duas primeiras. Está mais decisivo e, aos 19 anos, tende apenas a crescer. Aí fica ruim para qualquer um.
É a Roma quem perseguirá a Internazionale?
A Internazionale foi o único grande que começou a Serie A parecendo conhecer a sua identidade. Três zagueiros, desde a época de Simone Inzaghi, jogadores experientes em todos os setores e Lautaro Martínez para entregar os gols. Uma receita que comprovadamente rende scudettos. A dúvida era quem - se alguém - conseguiria persegui-la.
Por enquanto, tudo indica que será a Roma, dando um passo à frente no segundo ano do trabalho de Gian Piero Gasperini. Se não foi barcelonística em suas quatro vitórias em cinco rodadas, também não teve grandes dificuldades, com Donyell Mallen e Paulo Dybala se entendendo muito bem. A exceção foi contra a Atalanta, mas aquela foi a dificuldade boa: uma virada com dois gols nos minutos finais serve para provar que esse time também tem espírito de luta.
A única partida que a Roma não venceu foi o confronto direto. Principalmente no começo dele, se mostrou à altura da adversária. Terá que continuar provando isso durante um longo campeonato de pontos corridos para nos entregar uma verdadeira briga pelo título.
A Premier League contratou tanto e… segue tudo igual?
A Premier League, como sempre, foi a liga mais ativa no mercado. Reforços de € 100 milhões, reformulação no Tottenham, mais garotos para o Chelsea, um novo meio-campo para Manchester City e Manchester United e várias trocas de treinadores. Para no fim, tudo continuar igual.
É o que parece, pelo menos. O Arsenal é o time a ser batido, o Manchester City, apesar da saída de Pep Guardiola, está um pouco atrás e todos os outros carregam sérias incógnitas. Exatamente como na temporada passada. Se há alguma diferença, é que os Gunners parecem ainda mais à frente da concorrência.
Estamos preocupados com Xabi Alonso?
Xabi Alonso pintou como um dos técnicos mais promissores do mundo. Seu trabalho à frente do Bayer Leverkusen foi fenomenal e o credenciou a ser especulado em clubes como Liverpool, Bayern de Munique e Real Madrid, o qual acabou assumindo. A passagem pelo Santiago Bernabéu, porém, não é uma memória feliz.
O principal diagnóstico foi que as regras rigorosas e o detalhamento tático não caíram bem em um elenco cheio de estrelas. Havia expectativa de que o vestiário do Chelsea, recheado de jovens, estivesse mais disposto a ouvi-lo. Nada impede que isso seja verdade. O começo de temporada, porém, foi extremamente irregular - principalmente na parte defensiva.
A questão é quando começamos a nos preocupar. Talvez não haja motivo. Xabi Alonso ainda pode ser um sucesso no Chelsea. Mas se seus trabalhos ruins começarem a ser numericamente superiores aos bons, ele pode precisar dar um passinho para trás para se reorganizar.
Teremos alguma novidade na Champions League?
Foi fácil analisar a última Champions League. Era claro quais eram os quatro melhores times e três deles chegaram às semifinais. Um acabou sendo campeão. A exceção foi o Barcelona, que caiu em um eletrizante confronto contra o conterrâneo Atlético de Madrid - e ainda precisa provar que o estilo de Hansi Flick consegue resistir ao mata-mata.
O cenário não mudou. Barça, Paris Saint-Germain, Bayern de Munique e Arsenal ainda entregam os maiores picos e o futebol mais regular. A Internazionale tem a estrutura necessária para se candidatar a ser a intrusa da vez, embora falte experiência europeia para Cristian Chivu. O Borussia Dortmund começou bem a temporada, o Atlético segue forte e nunca podemos ignorar gigantes copeiros como Real Madrid e Liverpool.
Ou talvez os semifinalistas serão exatamente os que esperamos.
O Monaco de Filipe Luis conseguirá desafiar o PSG?
Considerando sua supremacia financeira, o PSG teve desafiantes demais desde que começou a receber dinheiro do Catar. Dois times diferentes foram campeões franceses no período e o Lens ameaçou ser o terceiro na temporada passada. O próximo talvez seja comandado por um brasileiro.
Liderado por um jovem Kylian Mbappé, e treinado por Leonardo Jardim, o Monaco foi um desses campeões e costuma ficar entre as três primeiras colocações. Está quase sempre entre os candidatos a incomodar o PSG. A última campanha foi decepcionante, com apenas o sétimo lugar, e para reenergizar o Principado, a diretoria buscou Filipe Luis.
O ex-lateral-esquerdo ainda está em início de carreira. Foi muito bem no Flamengo, ninguém sabe por que acabou demitido, e, se está em sua primeira experiência europeia, o continente não lhe é estranho.
Mesmo que não mantenha o ritmo até o fim, já abriu cinco pontos, então pelo menos um pouquinho de briga devemos ter.
O Dortmund é bom
para valer?
Pode ser que tudo dê errado daqui para a frente. Com o Dortmund, é sempre uma possibilidade. Mas esse bom começo pelo menos valida o foco maior que o clube corretamente deu a garotos com potencial no último mercado, apesar de um deles, Giannis Konstantelias, ter se machucado logo nas primeiras partidas.
Esse foco não aparece apenas nas contratações, mas também na minutagem. O zagueiro Joane Gadou, 19 anos, é o quinto em minutos na temporada. Samuele Inácio, 18 anos, está entre os quatro jogadores que marcaram mais de uma vez. Fábio Silva lidera a artilharia (4) ao lado de Guirassy, finalmente se firmando como o jogador que prometia ser.
Pode ser que não seja o suficiente para somar mais pontos que o Bayern de Munique. Provavelmente não será. Mas não é de hoje que o trabalho de Niko Kovac é melhor que o esperado e, com tantos jogadores com potencial de evolução, se o Dortmund não for bom para valer, talvez não demore muito para ser.
PODCAST MEIOCAMPO #270
Cinco ou sete rodadas não respondem nada, e é justamente por isso que as perguntas valem agora. Na volta da data Fifa, levantamos oito dúvidas precoces demais sobre a temporada europeia. O City pós-Guardiola, único com 100% na Premier League, tem fôlego para tirar o título do Arsenal? O Dortmund, líder da Bundesliga pela primeira vez em mais de três anos, ameaça de verdade o Bayern? Quem sustenta a ponta da Serie A entre Inter, Roma e Lazio? O Real Madrid de Mourinho, dono da maior receita do mundo, alcança um Barcelona que venceu os sete jogos? E o PSG, sexto na Ligue 1, precisa se preocupar?
Giro
Por Felipe Lobo
- Dirigentes da Premier League querem uma punição pesada para o Manchester City. Considerado culpado de 114 das 115 acusações pela comissão independente — e decidido a recorrer —, o City agora aguarda a definição das sanções. O site The Athletic ouviu executivos dos clubes, e há consenso em um ponto: é preciso haver uma punição financeira, uma esportiva e consequências duras para os dirigentes envolvidos. A extensão de cada uma delas é onde as opiniões divergem. Uma das ideias que têm ganhado força é que o City não receba uma sanção única, concentrada em um ano, mas uma pena distribuída ao longo do tempo, proporcional aos muitos anos de violações, de 2009 a 2018. A lógica é desacelerar o que o clube conseguiu acelerar para entrar na elite da Europa. Para isso, o City seria punido em temporadas consecutivas — por nove anos, por exemplo, exatamente o período em que violou as regras (ao menos o que se sabe). A decisão servirá para mostrar como a Premier League será vista no resto do mundo. As implicações são muitas e, por isso, a missão da comissão independente é difícil. A pena tem que ser dura, mas quão dura precisa ser para ser justa? É uma pergunta que dificilmente terá uma resposta única.
- O Flamengo protestou contra a MP que proibiu as bets com a mensagem “Proibir não é proteger”. A frase foi estampada na camisa, no lugar da Betano, patrocinadora do clube. O valor do contrato nunca foi confirmado oficialmente, mas especula-se que esteja na casa dos R$ 250 milhões por ano. Diversos clubes estão insatisfeitos, e 14 deles pedem ao STF a suspensão da MP. O problema é que a posição parece ir contra o que o público e as torcidas querem. A publicação do Flamengo com as fotos do jogo mostrou o que as pesquisas já indicavam: as pessoas são majoritariamente contra as bets. O clube tem sido criticado até por seus próprios torcedores no post do Instagram que mostra a camisa com o protesto. A maioria dos clubes optou por deixar a camisa sem patrocínio; alguns usaram o espaço para promover seus programas de sócio-torcedor (como Vasco e Botafogo), e outros estamparam outra empresa do grupo patrocinador (casos de São Paulo e Fluminense, que usaram a Superscore, site de resultados que pertence à Superbet).
- O Santos lidera um movimento para estender o prazo de aplicação do fair play financeiro. Diversos clubes se inclinam a entrar na briga, como São Paulo, Botafogo e Corinthians, segundo matéria de Livia Camillo e Rodrigo Capelo, meus colegas no Sport Insider. A ideia é simples: eles querem que o período de transição para as punições por dívidas anteriores a 2026 seja estendido até o fim de 2027 ou, idealmente, até novembro de 2028, com sanções mais severas só a partir de 2029. Neste momento, a punição máxima aplicada pela Anresf é o transfer ban. O presidente do Cuiabá, Cristiano Dresch, criticou o movimento em entrevista à BandNews e o chamou de “clube dos caloteiros”. Seria cômico se não fosse trágico. O sistema de sustentabilidade financeira foi um dos maiores avanços da CBF nos últimos anos, e é um absurdo que clubes que participaram de sua criação agora estejam roendo a corda para continuar gastando o que não têm por mais algum tempo. A CBF deveria manter o prazo acordado, até porque só as punições farão os clubes mudarem. Mas não sei por que sinto que esses clubes serão ouvidos...
- Os donos do Everton querem vender o clube apenas dois anos depois de comprá-lo. O Friedkin Group, que também controla a Roma, está em busca de interessados. A informação foi confirmada em comunicado do próprio grupo, que diz estar “explorando novas opções de investimento para o Everton Football Club, incluindo a potencial venda de participação majoritária”. O banco de investimentos Moelis & Company vai conduzir o processo. O motivo da venda é simples: eles descobriram que a água é molhada. Ou que o nível de investimento exigido para competir na Premier League é alto demais, o que dá no mesmo. O contexto importa: além da Roma, um clube que tem consumido muito dinheiro, o grupo é dono do Cannes, na França. Mas o que deve drenar os recursos da empresa é a criação de uma franquia de expansão da NHL, a liga de hóquei norte-americana, no Texas — Houston, onde fica a sede da companhia, é a favorita, mas Austin também está no páreo. O investimento total, somando a taxa de entrada e a construção de uma arena, é estimado em US$ 3,5 bilhões. Talvez o grupo queira focar no negócio local e menos em um clube de Premier League que paga mais de £ 100 milhões por um único jogador.
- Aleksander Ceferin será candidato a um quarto mandato na Uefa. Pelas regras, um presidente só pode cumprir três mandatos, mas uma mudança no estatuto aprovada em 2024 deixou de contar os mandatos iniciados antes de julho de 2017 — e o primeiro de Ceferin, de 2016 a 2019, foi um mandato-tampão, já que o esloveno substituiu Michel Platini, então suspenso pela Fifa. Vale ressaltar que Platini acabou absolvido pela Justiça suíça anos depois, em 2022, decisão confirmada em 2025, embora a suspensão no futebol tenha sido mantida. Ceferin foi reeleito sem oposição em 2019 e 2023 e anunciou que concorrerá novamente em abril de 2027. Ele mesmo tinha dito que não usaria a regra que lhe permitiria disputar mais uma eleição, mas mudou de ideia com o apoio das federações. Principal voz de oposição ao presidente da Fifa, Gianni Infantino, Ceferin já havia descartado concorrer ao comando da entidade.
- Victor Montagliani deve buscar a reeleição na Concacaf, o que o tira da disputa pela presidência da Fifa. O canadense enviou mensagem aos membros da confederação sobre sua intenção, embora a candidatura ainda não seja oficial. Montagliani foi eleito há dez anos, em 2016, depois do escândalo do Fifagate, que devastou a Concacaf e levou à prisão de seu então presidente, Jeffrey Webb — dirigente que admitiu ter recebido subornos e propinas. Ainda é possível que o canadense mude de ideia, mas, por ora, ele não deve enfrentar Infantino. Apesar da revolta de federações europeias, a oposição ainda não encontrou um nome de peso. O único a anunciar candidatura foi o ex-jogador Ramon Vega, que terá dificuldade para obter os cinco apoios de federações necessários para validá-la. O prazo termina em 18 de novembro.
- Endrick já percebeu que não terá os minutos que quer e negocia a saída do Real Madrid. Segundo a Gazzetta dello Sport, o brasileiro teria dito ao Milan que o clube italiano é sua primeira opção caso os espanhóis o liberem por empréstimo em janeiro. Endrick jogou apenas quatro minutos até aqui. O técnico José Mourinho vetou o empréstimo antes do início da temporada, mas, ao que tudo indica, seguirá sem utilizá-lo. O Milan já havia tentado contratá-lo no último verão europeu. O salário do atacante, de € 2,5 milhões por ano, não seria um problema para os rossoneri, e Gerry Cardinale, dono do Milan, tem boa relação com a Roc Nation, empresa que agencia o jogador, o que pode facilitar o negócio. O Milan, porém, deve ter concorrência: a Roma também está interessada, e o brasileiro Wesley tem feito lobby para levar o compatriota à capital italiana.
- A Copa Africana de Nações (CAN) deve voltar a ser disputada a cada dois anos. Segundo o jornalista francês Romain Molina, a decisão já teria sido tomada, mas ainda não foi anunciada. A mudança para um ciclo de quatro anos, como o de Eurocopa e Copa América, foi anunciada em dezembro de 2025, no início da última CAN, no Marrocos, pelo presidente da CAF, Patrice Motsepe. O anúncio agradou aos europeus, mas não a muitos africanos. A CAN é o principal motor de receitas da CAF e, portanto, das federações do continente — por isso, muitas delas defendiam a manutenção do torneio a cada dois anos. A volta ao formato bienal deve incomodar o futebol europeu, que precisa ceder os jogadores no meio da temporada.
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