Playoffs na Série B e o cerco às bets
Mata-mata na Série B valendo vaga na Série A e uma série de mudanças no futebol brasileiro — incluindo um possível veto a propagandas de bets
Newsletter Meiocampo #115 — 6 de fevereiro de 2026
O mata-mata está de volta à Série B, mas apenas para uma parte das vagas. Os clubes decidiram, junto com a CBF, que teremos playoffs na segunda divisão para definir o terceiro e o quarto acessos à Série A. E não é só isso: há possibilidades de mais mudanças, como a redução do número de rebaixados. Fora de campo, o cerco às bets ganha corpo no Congresso Nacional, com a proibição da publicidade no horizonte. A edição ainda traz Sergio Ramos no Juventude (mas não como você pensa), a crise no Leicester e Endrick, que segue impressionando.
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Playoffs na B e o cerco às bets: o amadurecimento compulsório do futebol brasileiro
Por Felipe Lobo
Faz uma semana que destacamos o passo fundamental da CBF rumo à profissionalização da arbitragem. O movimento sucede outras medidas de impacto, como o Fair Play Financeiro e o ajuste do calendário. Agora, a pauta é a Série B, que terá playoffs do terceiro ao sexto colocado para definir as duas últimas vagas de acesso.
A medida oxigena o campeonato. Mantém vivos times que, no modelo antigo, apenas cumpririam tabela nas rodadas finais. Cria-se uma tensão interessante, similar à vista na Inglaterra — embora lá o formato culmine na “partida mais valiosa do mundo” em Wembley, uma final única. Aqui, a generosidade é maior: os dois primeiros sobem direto e, do terceiro ao sexto, teremos confrontos de ida e volta (3º x 6º e 4º x 5º) para definir os outros dois classificados.
A votação teve ampla maioria: 17 a 3. Se a decisão foi dos clubes, por que o mérito recai sobre a Confederação? Porque tal pauta só avança com o aval da entidade. O fato de a proposta ter prosperado sinaliza o tom da gestão de Samir Xaud: o pragmatismo.
Diferente de antecessores que centralizavam o poder até a asfixia, Xaud parece compreender que seu capital político é escasso. Ouvir os clubes não é apenas um gesto de boa vontade, mas uma estratégia de ocupação de espaço. Diante do vácuo deixado pela ausência de uma Liga unificada, a CBF tenta liderar o processo de modernização para garantir que, quando a Liga de fato sair, a entidade esteja na cabeceira da mesa — movimento reforçado pela recente viagem de dirigentes à Europa organizada pela própria CBF.
Nessa toada de ouvir para liderar, a entidade também abriu discussões estruturais para a Série A: redução do número de rebaixados (de quatro para três), revisão do limite de estrangeiros e a polêmica dos gramados sintéticos.
Sobre este último ponto, a discussão precisa de profundidade. Não se trata de uma escolha binária entre permitir ou proibir — afinal, quatro clubes da elite (Palmeiras, Atlético-MG, Botafogo e Athletico-PR) já utilizam o piso artificial. A postura da própria Fifa é ambígua: a entidade homologa a tecnologia, mas a rejeita em sua vitrine máxima, a Copa do Mundo. É uma aprovação com ressalvas.
Quando a Fifa regulamentou o sintético, a prioridade eram contextos de exceção climática — como o inverno rigoroso que afeta o Bodo/Glimt na Noruega — e menos a performance pura. Mas, uma vez liberado, cabe à CBF regular as condições de uso. O debate que a entidade precisa liderar vai além do veto: é sobre controle de qualidade. Independente do veredito, a exigência inegociável deve ser a padronização em alto nível, para que o piso não se torne uma vantagem técnica desleal ou um risco físico aos atletas.
Já a questão dos estrangeiros opõe a proteção da base ao livre mercado. O argumento recorrente de que o aumento de gringos asfixia a formação de talentos locais carece de embasamento estatístico robusto. De qualquer forma, o debate é saudável. É preciso ouvir quem trabalha na ponta e, sobretudo, analisar dados. Seja qual for o desfecho, o método é o que importa: a decisão está sendo construída coletivamente, preenchendo a lacuna de liderança que a desunião dos clubes (Libra x FFU) criou.
No entanto, enquanto a CBF tenta arrumar a casa por dentro, uma tempestade se forma do lado de fora. A Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado aprovou projeto que proíbe publicidade e patrocínio de apostas esportivas.
O detalhe político é o termômetro da gravidade: o projeto original é de autoria de Randolfe Rodrigues (PT-AP), líder do governo, e o texto aprovado foi relatado por Damares Alves (Republicanos-DF), figura central da oposição conservadora. Quando os dois polos do espectro político concordam, o cerco fechou. O lobby econômico das empresas de apostas terá dificuldade de ficar em pé diante de uma coalizão que une ideologias opostas em torno de um problema de saúde pública.
Se a proibição avançar, o impacto financeiro imediato será duro. O futebol brasileiro viciou-se nesse dinheiro. Porém, tratar isso como o fim do mundo é retórica alarmista. O que vivemos é uma bolha de valores inflacionados. O estouro dessa bolha, embora doloroso, forçará uma correção de mercado necessária.
Abriremos espaço para indústrias tradicionais e para valores de patrocínio condizentes com a economia real do país, longe da especulação de um setor que gera externalidades sociais negativas. É um cenário de transformação forçada, similar ao que ocorreu com o tabaco no passado. O futebol brasileiro sobreviverá e tem tudo para sair do outro lado mais saudável — financeiramente e humanamente. Vivemos tempos de ebulição, mas o horizonte de longo prazo sugere uma necessária maturidade.
GIRO
Por Bruno Bonsanti
- O colapso do Leicester é um caso preocupante. O título inglês foi um milagre, mas parecia que eles haviam aproveitado bem aquela situação extraordinária para se estruturar. Conseguiram duas campanhas em quinto lugar na Premier League, um título da Copa da Inglaterra e semifinais da Conference League. Entre erros no mercado, salários altos demais para tentar acompanhar o Big Six e um pouco de azar (todo mundo foi afetado pela pandemia, mas principalmente quem é patrocinado por uma operadora de free shop), bastou uma temporada ruim para tudo desmoronar. Os problemas financeiros começaram antes do rebaixamento e, mesmo que tenha conseguido fazer um bate e volta na Premier League, ainda são relevantes. O Leicester perdeu seis pontos na Championship por ter violado as famosas regras de sustentabilidade no triênio que terminou em 2023/24 em £20.8m acima do limite. A punição foi emitida pela Premier League e ratificada pela Football League, entidade que organiza o torneio que ele está disputando. Agora fora da zona de rebaixamento na segunda divisão apenas no saldo de gols, sem treinador permanente e há quatro rodadas sem vencer, o Leceister chamou a punição de “desproporcional” e afirmou que está “considerando os próximos passos”, o que significa recorrer ou não.
- Ainda dá tempo do Endrick ganhar o prêmio de melhor jogador da temporada do futebol francês. Ele deu uma caneta no seu marcador antes de estufar as redes para desempatar as oitavas de final contra o Laval, da segunda divisão. Agora imagina a força necessária para estufar as redes da entrada da área. Cinco gols e uma assistência para o garoto em cinco partidas pelo Lyon. Enquanto isso, a temporada do Monaco vai de mal a pior: depois de duas vitórias e sete derrotas em 10 rodadas da Ligue 1, foi eliminado pelo Estrasburgo. E o Paris FC derrubou o vizinho PSG para depois perder para o Lorient?
- Omar Marmoush não marcou o gol mais bonito da Era Pep Guardiola, mas serviu para dar início ao passeio do Manchester City, que chegou a abrir 3 a 0 antes do intervalo no Etihad Stadium, embora o Newcastle tenha tido algumas chances para empatar. A outra semifinal da Copa da Liga foi mais nervosa. O Arsenal tinha vantagem de apenas um gol e o placar ficou zerado até os 52 minutos do segundo tempo, quando Kai Havertz, lembra dele, driblou o goleiro para marcar pela segunda vez em seu retorno aos gramados. O Chelsea quase empatou o confronto com um escanteio fechado para a boca do gol, o que teria sido muito engraçado. Teremos mais um mestre versus pupilo entre Mikel Arteta e Pep Guardiola. O pupilo ganhou quatro dos 15 confrontos até agora e perdeu oito.
- Eliminar Real Madrid e Barcelona em sequência era pedir um pouco demais do Albacete. E até que não foi um passeio. Lamine Yamal abriu o placar com um bonito tapa colocado, antes de Ronald Araújo ampliar de cabeça apenas no segundo tempo. Javier Moreno descontou a três minutos do fim. Podemos ter uma reedição da semifinal da temporada passada porque o Atlético de Madrid goleou o Betis por 5 a 0 em outra das quartas de final. Ademola Lookman abriu sua contagem pelos colchoneros. Ele realmente queria abrir sua contagem pelos colchoneros porque teve várias chances de passar a bola, mas insistiu até marcar. Também podemos ter um clássico basco: a Real Sociedad venceu o Alavés e o Athletic derrotou o Valencia. Um alívio para o time de Ernesto Valverde, que não vence há seis rodadas em La Liga. As semis da Copa do Rei serão na próxima semana e no começo de março.
- Em uma temporada irregular, o esperado após a saída de Gian Piero Gasperini, a Atalanta conseguiu uma grande vitória nas quartas de final da Copa Itália ao eliminar a Juventus por 3 a 0. O placar parece um pouco dilatado. A Velha Senhora teve duas oportunidades com Francisco Conceição nos primeiros minutos, uma cara a cara com o goleiro e outra que parou no travessão, antes de Bremer cometer pênalti convertido por Gianluca Scamacca. Depois, Weston McKennie ainda recebeu na pequena área, mas não conseguiu finalizar direito. A Atalanta ampliou a 15 minutos do fim e, não satisfeito, Bremer errou um passe na saída de bola que resultou no terceiro gol. Noite ruim para a Juve, que ainda liderou as estatísticas e vem em uma boa sequência na Serie A. A Internazionale derrotou o Torino na outra partida de quartas de final disputada nesta semana. Napoli x Como e Bologna x Lazio fecham a chave na próxima.
- É uma nova moda isso de dividir as quartas de final em duas semanas ou eu que nunca havia prestado atenção? A Alemanha fez a mesma coisa. Com inveja do futebol sul-americano, um coelho invadiu o gramado pouco depois do Holsten Kiel, da segunda divisão, ter um punhado de chances perigosas no contra-ataque. O Stuttgart abriu o placar apenas aos 11 minutos do segundo tempo. Os outros dois gols da vitória por 3 a 0 saíram por volta dos acréscimos. O Bayer Leverkusen derrotou o St. Pauli pelo mesmo placar. A finalização de Martin Terrier até que foi bonitinha. As outras semifinais serão Hertha Berlim x Freiburg e Bayern de Munique x RB Leipzig, na semana que vem.
- Pensamos em esperar, de tão preocupados com o caso, mas esta newsletter foi escrita antes do Al-Nassr enfrentar o Al-Ittihad nesta sexta-feira pelo Sauditão e parece que Cristiano Ronaldo continua em greve. O que é maravilhoso porque qual o plano? A janela está fechada. Não dá para atender às suas exigências de mais investimentos no momento. Parece ser só pelo amor ao esporte mesmo. A liga saudita emitiu um comunicado garantindo que todos os seus integrantes, mesmo os sob o guarda-chuva do PIF, tomam decisões de maneira independente e que “nenhum indivíduo determina decisões além do seu próprio clube”. Um risco ao posto de liga-melhor-que-a-francesa, do qual Ronaldo é o principal, e quase único, fiador. Para melhorar, Karim Benzema estreou pelo Al-Hilal marcando três gols.
- A contratação de N’Golo Kanté pelo Fenerbahçe havia melado. Segundo o clube turco, a culpa foi do Al-Ittihad, que aparentemente preencheu errado o formulário do TMS - Transfer Matching System, sistema da Fifa de uso obrigatório para todas as transferências. Um pedido de extensão foi feito à Fifa e quem resolveu o impasse, de acordo com o L’Equipe, foi o presidente da Turquia, Tayyip Erdogan, em uma reunião com o príncipe saudita Mohammed Bin Salman. Bin Salman era a pessoa certa a recorrer porque ele basicamente comprou a… pera aí, meus advogados estão me ligando.
- Kanté estava nos últimos seis meses do seu contrato e, aos 34 anos, atuou em todas as 19 primeiras rodadas do Campeonato Saudita. O propósito é provavelmente voltar a um futebol de mais alto nível de olho na Copa do Mundo, depois de ter aparecido apenas uma vez pela seleção francesa em 2025. Ótimo reforço para o Fenerbahçe, que também contratou Matteo Guendouzi na janela de inverno. O Galatasaray não ficou para trás e levou o lateral direito Sacha Boey, do Bayern de Munique, o ponta Noa Lang, do Napoli, e a promessa Yáser Asprilla, do Girona.
- A Wikipedia do James Rodríguez é engraçadíssima. Três dos últimos quatro blocos sobre os clubes que defendeu terminam com: “E aí seu contrato foi terminado em acordo mútuo”. A exceção foi o León, seu empregador mais recente, do qual saiu ao fim de um acordo por um ano. E ele até que jogou. Mais ou menos: 34 partidas. Com cinco gols e nove assistências porque James é muito bom de bola. Livre no mercado, decidiu antecipar a viagem para a Copa do Mundo ao assinar com o Minnesota United, que parou nas quartas de final da última temporada da Major League Soccer. Esperto. Vai que chega junho e o atual detentor do Prêmio da Paz da Fifa decide que não pode entrar colombiano nos Estados Unidos?
- O futebol brasileiro começou a trazer um monte de jogador do futebol europeu, e eu achei que o ápice seria Braithwaite no Grêmio ou Bolassie no Criciúma, mas aí eu leio a notícia de que Sergio Ramos pode comprar o Juventude. Ele faz parte de um grupo de investidores chamado Five Eleven Capital, que negocia a aquisição da SAF do clube gaúcho. Esteve presente na reunião (virtual) mais recente na última terça-feira. Sem emprego desde que deixou o Monterrey em dezembro, Sergio Ramos, 39 anos, está aparentemente focado no pós-futebol porque também pensa em virar dono do Sevilla.
- Jhon Durán está empenhado em sua missão de morar em todos os países do mundo antes de completar 23 anos. Depois de Colômbia, Estados Unidos, Inglaterra, Arábia Saudita e Turquia, o próximo da lista deve ser a Rússia. Ele está próximo de acertar com o Zenit, depois de fazer 18 jogos pelo Al-Nassr e 21 pelo Fenerbahçe. Seria o seu quarto clube em pouco mais de um ano. Não tenho um comentário sobre isso, além de: quem quer que esteja aconselhando a sua carreira, muda.
PODCAST MEIOCAMPO #204
O futebol brasileiro passa por novas reformas estruturais com a introdução de playoffs na Série B, medida que altera a dinâmica do acesso e gera divisões entre os clubes. No Meiocampo #204, analisamos essa mudança e o pacote de discussões na Série A, que inclui a possível redução do número de rebaixados, o limite de estrangeiros e o debate sobre os gramados sintéticos. O episódio ainda percorre a semana de copas na Europa, com o brilho de Endrick na França, a crise de projeto do Newcastle e as movimentações de mercado envolvendo James Rodríguez e o cerco regulatório às casas de apostas no Brasil.
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Kkkkkk o príncipe da Arábia Saudita é o verdadeiro manda chuva da FIFA... texto ácido e com a cara dos editores, sem perder a chance de espetar quem quer que seja 👏👏👏
Eu aposto que não vamos vencer as bets. Não, pera..