Um fã venceu a CBF vendendo uma mentira melhor
A diferença não foi orçamento — foi o que cada um podia prometer sem prestar contas
Newsletter Meiocampo #181 — 17 de julho de 2026
Nesta sexta, o Meiocampo explica por que um vídeo de fã, feito de graça sobre uma fantasia irreal, emocionou mais o Brasil do que o vídeo institucional da CBF, com toda a estrutura profissional por trás. A resposta não é orçamento — é que a CBF não pode vender a mesma mentira que um fã vende sem prestar contas a ninguém, e o preço dessa mentira é reescrever a carreira do próprio Neymar de um jeito que não resiste a um olhar mais atento.
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Vídeo de fã sobre Neymar venceu a CBF vendendo uma mentira mais gostosa
Por Felipe Lobo
Por que um vídeo feito de graça por um fã consegue emocionar o Brasil, e um vídeo institucional da CBF, com estrutura profissional por trás, só consegue irritar? A resposta não é de orçamento, é de compromisso: o vídeo de fã vende uma mentira mais gostosa, muito mais confortável de aceitar — sonhar sem qualquer compromisso com a realidade é sempre mais emocionante. A CBF não pode vender essa mentira. E a mentira que o vídeo do Neymar vende tem um preço: reescreve a carreira dele de um jeito que não resiste a um olhar mais crítico.
A Copa do Mundo está terminando e o Brasil teve, de novo, uma eliminação dolorida. A CBF divulgou um vídeo institucional cheio de frases feitas e conteúdo vazio, o que despertou a ira dos torcedores. Enquanto isso, um vídeo produzido por IA encheu de esperança muitos torcedores com a promessa de um título nas mãos do maior craque da geração, Neymar, vindo diretamente de 2030 – quando ele terá 38 anos.
O vídeo da CBF fala que desistir não é coisa de brasileiro, fala para marcar a data da eliminação (!), 5 de julho, como data do início da próxima jornada. Ressalta que terá mais estabilidade, mais planejamento e mais trabalho duro — aqueles clichês genéricos dos posts de LinkedIn. E termina falando que daqui a quatro anos “estaremos mais fortes” para buscar essa sexta estrela. Discurso similar a 2022 e que poderia ser encaixado em qualquer eliminação.
É um vídeo de clichês que soam como aqueles vídeos motivacionais pré-torneio, para encher o coração das pessoas de esperança. Só que isso não funciona tão bem depois da eliminação, especialmente pela forma que o Brasil perdeu: nas oitavas de final, para a Noruega, um adversário visto como inferior. Para o ouvido do torcedor, soa como bobagem e, em vez de despertar esperança, desperta raiva.
Porque o Brasil terá o maior jejum da sua história sem títulos de Copa do Mundo. Em 2030, serão 28 anos sem levantar a taça. O maior jejum tinha sido de 1970 a 1994. São seis eliminações consecutivas sempre que o Brasil enfrenta uma seleção europeia no mata-mata (França em 2006, Holanda em 2010, Alemanha em 2014, Bélgica em 2018, Croácia em 2022, Noruega em 2026). O momento não é de vídeo motivacional, é de baixar a cabeça e trabalhar.
Tudo isso em um contexto em que, depois da eliminação para a Noruega, Neymar disse, desanimado, que acabou. Que começou naquele estádio e terminou naquele estádio — seu primeiro jogo com a camisa da Seleção foi justamente no MetLife Stadium, em 2010. Foi um anúncio não oficial de aposentadoria da Seleção.
É nesse contexto que entra o vídeo produzido com IA por um fã. Mostra duas versões adultas do Neymar o observando ainda criança, com o colete do Santos. Uma delas se aproxima e se apresenta como “você do futuro”. A criança pergunta com quantos anos ele ganhou a primeira Copa. Resposta do Neymar adulto: “Nós não conseguimos. Fiz tudo o que podia, dei o meu máximo, mas não foi suficiente. Sozinho, eu nunca conseguiria”. Depois pede ajuda: “Você quer que eu tente uma última vez?” Na cena final, uma versão do Neymar segura a taça da Copa com a inscrição “2030”.
O vídeo é inspirado em Vingadores: Ultimato, mas a ideia aqui é brincar com as emoções. Neymar iniciou a sua trajetória na seleção em 2010, ano que também explodiu no Santos. São 16 anos sendo a principal referência do time, sendo a estrela do Brasil em três Copas do Mundo seguidas. Na quarta, em 2026, ele quase não foi. E acabou sendo só um coadjuvante — exceto no último jogo, quando a sua entrada ajudou a desmontar o time, facilitando os gols da Noruega e a eliminação.
Mas o vídeo não tem o compromisso de ser realista, de ter pés no chão, de fazer uma autocrítica. Não é o papel dele. Quando Neymar de IA diz, no vídeo, que fez tudo que podia e deu o máximo, é de se questionar. Sem dúvida Neymar se esforçou e treinou muito ao longo da carreira, mas as suas escolhas em diversos momentos colocaram em xeque se ele tinha o foco na recuperação das lesões.
O compromisso de Neymar com a carreira foi questionado repetidamente, especialmente depois da sua ida para o PSG. Um dos episódios mais marcantes acontece em 2019, quando estava se recuperando da segunda fratura no quinto metatarso e foi visto dançando no carnaval na Bahia e no Rio três dias depois de deixar as muletas, enquanto o PSG jogava — e perdia — na Champions League.
Isso não foi um episódio isolado na sua carreira. Desde a sua volta ao Santos, em 2025, em diversos momentos se questionou o compromisso de Neymar com o futebol enquanto, por exemplo, ele jogava torneios profissionais de pôquer em meio à recuperação física e enquanto o seu time jogava. O vídeo, claro, não tem que fazer essa ponderação.
No vídeo há outra frase que torna as coisas mais dramáticas e heroicas, mas soa até desrespeitosa com os outros jogadores que atuaram com ele: “sozinho eu nunca conseguiria”. Neymar não teve supercraques ao seu lado, é verdade, mas teve bons times, equipes bem montadas e alguns jogadores que são marcantes no futebol brasileiro.
Ao longo desse seu período na seleção, teve, por exemplo, Thiago Silva como líder na defesa, um dos melhores zagueiros da história do Brasil. Teve outros jogadores de excelente nível, como Daniel Alves e Marcelo nas laterais. Se não teve um Rivaldo junto, teve Oscar em 2014, Philippe Coutinho em 2018, Vinícius Júnior em 2022. Teve times montados sempre em função dele. Sem falar em jogadores importantes ao longo desses anos, como Miranda, Marquinhos, Casemiro e tantos outros.
Neymar fez uma grande Copa em 2014, mas não tão boa em 2018, quando se recuperava de lesão. Em 2022, novamente sofrendo com uma lesão durante a Copa, fez o gol que talvez tenha sido um dos mais bonitos da história do Brasil nas Copas, mas que não salvou a Seleção da eliminação.
É essa mentira mais gostosa — sem compromisso com a realidade — que faz o vídeo do Neymar funcionar onde o da CBF fracassa. Um torcedor vê Neymar como a última esperança para o Brasil se salvar. Assim como um super-herói que precisa salvar o mundo.
A CBF não pode fazer isso. O que não isenta a entidade de ter feito uma leitura ruim da situação e produzido um vídeo que não parece conversar com as pessoas. Algumas leituras me parecem exageradas quando superdimensionam a frase “sabemos o que vocês estão sentindo” como se fosse prova cabal da desconexão da entidade com a população. Há sem dúvida uma desconexão, mas não por essa frase.
Existiria algum vídeo que a CBF poderia ter feito e que causasse impacto positivo? Sem dúvida poderia ter feito um trabalho melhor. Poderia trazer mais humildade: deixar claro que o ciclo foi caótico e isso é culpa da CBF — o vídeo deixa isso muito superficial. Poderia falar em baixar a cabeça e trabalhar, estudar, entender as falhas. A tentativa de vender esperança, com a ferida da eliminação ainda tão recente, é inútil.
Para que o vídeo falasse ao coração das pessoas, teria que transmitir tristeza. É isso que os torcedores estão sentindo e é isso que eles imaginam que todos deveriam estar sentindo na própria CBF. Tristeza, baixar a cabeça, trabalho duro, treino. Não era a hora de motivar ninguém. Ninguém quer ser motivado. A hora é de lamber as feridas e voltar ao quadro negro, recomeçar, trabalhar. É hora do sangue, suor e lágrimas, não de falar de sexta estrela.
Mas por melhor que fosse o vídeo, mesmo que captasse a tristeza dos torcedores e falasse algo com que eles conseguem se identificar, nunca conseguiria causar a mesma emoção que o vídeo do Neymar de IA causa. O vínculo do torcedor com Neymar é duradouro, sobrevive a anos de decepção. O vínculo com a CBF, não — a instituição nunca vai competir na mesma categoria afetiva de um craque que uma geração inteira aprendeu a gostar mesmo sem nunca ter ganho por ele a Copa que queria.
Neste dia 17 de julho, enquanto a fantasia institucional da CBF segue irritando torcedores e a fantasia do Neymar campeão em 2030 segue emocionando, o Neymar real se reapresenta ao Santos, de volta à rotina de treinos de um clube que sofre dentro e fora de campo, sem taça, sem holofote. O oposto exato das duas fantasias que dominaram a semana.
PODCAST MEIOCAMPO #249
A Espanha deu um baile na França, dominando as ações do início eo afim e essencialmente superando a melhor seleção da Copa usando a sua maior arma: o toque de bola. Na outra semifinal, a Argentina viveu outro drama, se recusou a morrer e quando a Inglaterra recuou, puniu severamente os rivais. Falamos das semifinais e da expectativa pra final entre Espanha x Argentina!
NA EDIÇÃO ANTERIOR DA NEWSLETTER…
A final da Copa do Mundo está definida e a edição da quinta-feira falou sobre como a Argentina virou o jogo contra uma Inglaterra que afundou por mexidas de THomas Tuchel - e contou com um Messi decisivo de novo. LEIA AQUI
Até a próxima!





