Newsletter Meiocampo #204 — 2 de outubro de 2026
Esta edição chega mais tarde do que o normal, e por um bom motivo: os dois assuntos dela pediam mais cuidado do que pressa. Em um dos textos, explicamos por que a proibição das bets se tornou necessária e por que mudamos de posição sobre um setor que já patrocinou este podcast. No outro, o tema é a condenação do Manchester City e o que sobra da Premier League depois de quase duas décadas em que um clube jogou com regras próprias. São dois textos sobre a mesma ideia: quando a regra não vale para todos, o jogo deixa de existir.
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Seis anos sem regras tornaram a proibição das bets necessária
Por Felipe Lobo
O Brasil legalizou as apostas sem regra alguma em 2018, nos últimos dias do governo de Michel Temer, via Medida Provisória, e deixou o mercado crescer por cinco anos sem lei de regulação e por seis sem fiscalização. Quando regulou, o problema já era de saúde pública, e agora proíbe tudo de uma vez. A proibição é abrupta, mas é a resposta proporcional a uma legalização igualmente abrupta e sem qualquer freio institucional.
No dia 25 de setembro de 2026, o governo Lula editou a Medida Provisória nº 1.394, que proibiu as casas de apostas, as famosas bets, no Brasil. Embora alguma medida do governo fosse esperada, ela foi a mais dura possível. A posição do presidente era conhecida havia muito tempo, e ele já tinha avisado que faria isso se a regulamentação não fosse suficiente. Para o governo, os freios não foram suficientes nesses quase dois anos de mercado regulado.
É impossível dissociar a decisão do contexto: a eleição. A MP veio nove dias antes do primeiro turno, em 4 de outubro. E ela veio não só porque era uma vontade antiga do presidente, nem só porque os dados indicam que o problema se tornou grande demais, mas porque havia algo que não existia antes: imenso apoio popular. Volto a isso no fim.
Era esperado que as restrições às apostas aumentassem. As próprias empresas esperavam por isso. A Copa do Mundo foi o ponto em que a corda arrebentou. A CazéTV transmitiu jogos exclusivos num canal fortemente patrocinado por casas de apostas, e a mistura entre conteúdo e publicidade chegou a ser questionada pelo governo, como contou o ministro da Saúde no nosso podcast. A Copa expôs muita gente que não acompanha futebol toda semana ao bombardeio de propaganda de bet a que nós, que acompanhamos, já estávamos acostumados. Talvez acostumados demais.
Por que mudei de ideia sobre as bets
Não sou dos que acreditam que apostar é imoral ou que casas de apostas não deveriam existir. Apostei muitas vezes antes da regulamentação. Sempre considerei algo divertido e sempre soube dos riscos. E considerava que a legalização era o caminho mais adequado: era preciso colocar essa atividade econômica dentro da lei. O problema foi que a legalização veio antes das regras. Seria como liberar o uso de drogas sem qualquer regulamentação, restrição ou controle. Hoje parece óbvio que o resultado só poderia ser um desastre.
Em 2020, ainda na Trivela, site que comandávamos na época, recebemos uma proposta de patrocínio da KTO para o podcast. Não vimos problema algum. Era um produto que conhecíamos e usávamos. O acordo era falarmos de odds que achávamos interessantes, em jogos de futebol que conhecíamos, apontando os resultados que considerávamos prováveis. Nunca fizemos propaganda de cassino online, contra o qual sempre fomos. E sempre deixamos claro que toda aposta envolve risco e que apostar não é investimento nem forma de ganhar dinheiro. A imagem que usávamos era a do parque de diversões: você paga pela diversão, sabendo que o dinheiro não volta. Quando o podcast passou a ser o Meiocampo, o patrocínio veio junto.
O contrato durou até junho de 2025. Recebemos propostas de outras casas para continuar e decidimos não aceitar. O Meiocampo nunca dependeu desse dinheiro, e seguimos existindo depois do fim do contrato.
Nem todo mundo agiu com algum cuidado nesses anos sem regras. Houve influenciador com contrato que lhe pagava uma comissão sobre o que os seguidores perdiam, como revelou o Intercept. E hoje considero que não existe publicidade responsável de bet.
O Estado criou o vale-tudo
Esse tempo sem regras cobrou um preço alto demais, inclusive para o próprio setor. Executivos das casas de apostas pediam publicamente a regulamentação. O governo Bolsonaro ignorou os pedidos e deixou vencer, em dezembro de 2022, o prazo legal de quatro anos para regulamentar.
A regulamentação só veio com o governo Lula. A Lei nº 14.790 foi sancionada em dezembro de 2023, primeiro ano do governo, mas o mercado regulado só começou a funcionar em janeiro de 2025. A proposta do governo regulava apenas as apostas esportivas, não os cassinos online (que conhecemos como Tigrinho, mas que incluem outros bichos, aviãozinho e afins). O Congresso incluiu os cassinos, e o governo apoiou.
Foi o relator na Câmara, o deputado Adolfo Viana (PSDB-BA), quem incluiu os chamados “eventos virtuais de jogos on-line”. O Senado chegou a retirar os cassinos do texto. Como a Câmara dá a palavra final sobre os projetos que começam a tramitar nela, os deputados derrubaram a mudança do Senado e devolveram os cassinos ao texto definitivo por 261 votos a 120, com apoio de deputados governistas. Lula sancionou.
Regular um setor que passou anos anabolizado num mercado sem regras, com dinheiro de sobra para influenciadores e lobistas e com grande parte da população já envolvida, tornou-se muito mais difícil do que teria sido antes da legalização. Enfrentar as bets em 2023 era completamente diferente de enfrentá-las antes de 2018, quando operavam na clandestinidade.
Mesmo assim, o governo deveria ter analisado melhor o problema e identificado, já naquela altura, que ele era sério. Naquele momento, o governo usou o projeto para aumentar a arrecadação: já que as apostas e os cassinos existiam, seriam taxados.
A postura mudaria depois, sob a pressão dos problemas sociais causados pelas apostas e pelos cassinos online, inclusive com o uso de benefícios sociais, como o Bolsa Família, nessas plataformas. O Executivo passou a falar abertamente em proibir.
Lula já tinha falado nisso em outubro de 2024, antes de o mercado regulado começar a funcionar: se a regulamentação não fosse suficiente para conter os problemas, que já apareciam, ele proibiria tudo. A promessa foi cumprida dois anos depois, num momento político bem diferente. Os ventos eram favoráveis como nunca tinham sido.
Até a Copa, falar em proibir as apostas, como Lula falava, não era popular. Além do lobby, havia menos percepção social de um problema que vinha se agravando desde 2018 e que piorou rapidamente depois da regulamentação.
O problema não é só o Tigrinho
Num mundo ideal, proibir o Tigrinho e os cassinos online já seria suficiente. Segundo a ANJL, entidade do próprio setor, 73,9% do volume movimentado pelas bets vem dos cassinos, e o próprio governo chegou a preparar, uma semana antes, uma MP que proibia apenas essa modalidade. É uma solução parcial, que talvez funcionasse se tivesse sido adotada em 2023, quando os cassinos entraram na lei. Como não vivemos no mundo ideal, ela não parece mais suficiente.
Os números que o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, trouxe no podcast do Meiocampo explicam por quê. A primeira pesquisa consistente sobre o tema, de 2023, feita antes de qualquer regulação, apontava quase 30 milhões de brasileiros apostando, cerca de 10 milhões deles com uso problemático. Metade dos alunos do ensino médio já tinha apostado. Segundo o ministro, o risco de suicídio é 15 vezes maior entre pessoas com transtorno do jogo, e os atendimentos no SUS ligados às apostas cresceram mais de 600%. Desde que o sistema de autoexclusão do governo foi criado, em dezembro de 2025, 1,3 milhão de brasileiros pediram para ser bloqueados nas plataformas, 400 mil deles só durante a Copa do Mundo. Entre eles, 51% disseram que o motivo era não conseguir mais controlar a própria vida. E, na semana da proibição, 28,65 milhões de CPFs ainda tinham dinheiro parado nas plataformas, segundo o governo.
O problema ficou sério demais, e isso fica ainda mais claro no relato de Leandro Iamin, também no podcast do Meiocampo. No caso dele, quem viciou não foi o cassino, foram as apostas esportivas. Os mecanismos estão ali, o bombardeio de propaganda está ali. São os mesmos aplicativos, das mesmas empresas, com o mesmo saldo. A aposta esportiva funciona como porta de entrada.
A restrição ao uso do Bolsa Família, em outubro de 2025, reduziu as transações, mas o problema já estava fora de controle. Medidas direcionadas como essa funcionam na margem, mas não desfazem um hábito de massa construído por seis anos de publicidade sem qualquer regra.
A conta não fecha nem para o Estado, nem para quem vende comida
A conta não fecha nem pelo lado fiscal. O governo arrecadou R$ 9,95 bilhões com as bets em 2025, mas o custo social é estimado em R$ 38,8 bilhões por ano pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), como também citou Padilha no podcast.
As bets provocaram uma saída líquida de R$ 62,5 bilhões do orçamento das famílias brasileiras em 2025, segundo estudo do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz) em parceria com o Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento. Para dar dimensão, é quase 40% do orçamento do Bolsa Família.
O número é a diferença entre o que os apostadores colocaram nas plataformas e o que retiraram. Ainda segundo o estudo, “diferentemente dos gastos com bens e serviços, os recursos direcionados às plataformas de apostas geram menos circulação de renda, empregos e atividade econômica, reduzindo o impacto positivo que outras formas de consumo poderiam ter sobre a economia”.
A Confederação Nacional do Comércio (CNC) afirma, com base em estudo próprio, que entre janeiro de 2023 e março de 2026 o varejo brasileiro deixou de faturar mais de R$ 143 bilhões por causa dos gastos com bets. Vale dizer que a CNC defendia a regulação do setor, não a proibição, e mesmo assim sentiu o impacto.
O caso da Magazine Luiza ilustra o problema. Em reportagem de agosto de 2026, a empresária Luiza Trajano resumiu em uma frase o que o avanço das bets causou: “Estávamos perdendo nossos colaboradores para agiotas”. Uma das maiores varejistas do país precisou agir para conter o estrago que as apostas começaram a causar entre os próprios funcionários.
Ainda em 2022, a empresa percebeu um aumento significativo nos pedidos de empréstimo consignado. Vieram também pedidos de demissão, crises de saúde mental e funcionários que pediam para se afastar por causa de ameaças de credores.
Cerca de 12 mil dos aproximadamente 35 mil funcionários fizeram o curso Saindo do Jogo, criado pela empresa para orientar, entre outras coisas, sobre como bloquear plataformas de apostas ou pedir autoexclusão. O caso mostra como o problema deixou de ser apenas econômico e se tornou social, e muito grave.
O mercado ilegal é um risco, não um veto
Um dos argumentos contra a proibição total é que os viciados vão procurar bets ilegais. O mercado ilegal já existia mesmo com a regulamentação: as estimativas variam de 38% a 51% do total. A diferença fundamental está na facilidade que a legalização trouxe.
Antes de 2018, as bets operavam todas sem autorização, e o problema não estava nem perto do tamanho que tem hoje. O mercado ilegal é, sim, um risco, e o governo vai precisar trabalhar muito para bloqueá-lo.
Até 2018, muito menos gente era afetada pela existência de bets ilegais, porque pouca gente as conhecia. Agora conhecem, e por isso o risco é maior. Ao mesmo tempo, até 2018 o governo praticamente não se preocupava com isso, e agora se preocupa muito. Os mecanismos de bloqueio eram praticamente inexistentes. Agora estão ativos e devem ser ampliados.
Certamente continuará sendo possível apostar em casas ilegais, mas o atrito será muito maior do que já foi. Isso, somado ao fim do bombardeio publicitário, ameniza o problema.
Os primeiros números vão na direção esperada. Segundo o ministro da Fazenda, Dario Durigan, as plataformas movimentavam mais de R$ 600 milhões por dia antes da MP, e esse fluxo foi “basicamente anulado”. Isso, por si só, era previsível: as casas licenciadas estão proibidas de operar. O dado mais revelador é outro. Só na primeira semana da proibição, o governo enviou à Anatel 10.435 sites ilegais para bloqueio, além dos cerca de 78 mil desativados antes. O número mostra que o mercado clandestino é grande, mas também que o Estado, ao contrário de 2018, está agindo contra ele. E o Pix como um todo caiu 10% entre o sábado, 26, e a segunda-feira, 28, em comparação com os mesmos dias das quatro semanas anteriores, segundo o secretário nacional de Segurança Pública, Chico Lucas. Se o dinheiro tivesse migrado em massa para sites ilegais, essa queda seria menor. Não dá para cravar a relação — o próprio governo diz que é preciso investigar mais —, mas é um sinal.
Há também quem diga que a MP fere a segurança jurídica. O governo regulou o setor, cobrou R$ 2,55 bilhões em 85 outorgas e agora extingue as licenças sem indenização. As empresas já foram ao STF. Em tese, o argumento é sério: quem fecha contrato com o Estado precisa de previsibilidade. Mas mudar a regra quando ela está causando dano à população é prerrogativa do Estado, e a segurança jurídica não pode estar acima do bem-estar da população. Se o governo considera a questão urgente, precisa tratá-la como urgente.
E o governo não só não pretende devolver as outorgas, como cobra a conta das empresas. No dia 28 de setembro, a Advocacia-Geral da União entrou com uma ação civil pública na Justiça Federal em Pernambuco contra 17 bets. Pede no mínimo R$ 1 bilhão por danos morais coletivos, o ressarcimento dos gastos do SUS com o tratamento de apostadores e a devolução em dobro do que foi apostado por pessoas diagnosticadas com transtorno do jogo. Para a AGU, as empresas privatizaram os lucros e transferiram para o SUS e para a sociedade o custo do adoecimento coletivo. Ou seja: os R$ 30 milhões de cada outorga não pagam o estrago que o setor deixou.
O argumento da previsibilidade soa ainda mais frágil vindo de um setor que cresceu usando e abusando da ausência de regras. Houve casas que pagavam influenciadores com uma comissão sobre o prejuízo dos seguidores. Quanto mais o apostador perdia, mais o influenciador ganhava. Era um incentivo direto para recomendar apostas improváveis, e o modelo de negócio financiava a própria divulgação com a perda de quem apostava. Quem lucrou assim com o vácuo não está em posição de reivindicar previsibilidade. Se há indenização a discutir, que se discuta na Justiça, e a Justiça já está discutindo, no sentido contrário. O que não faz sentido é manter o mercado aberto enquanto isso.
Eleitoreira, e correta
A medida foi, sim, eleitoreira: aproveita algo com amplo apoio popular para tentar ganhar vantagem nas urnas. Isso não a torna menos correta. O bloqueio era urgente.
O apoio é inegável. Pesquisa AtlasIntel/Bloomberg feita entre 17 e 22 de setembro, com 5.015 entrevistas (registro BR-04739/2026), mostra 75% dos brasileiros a favor da proibição (71% concordam totalmente) e 79% a favor de restringir a publicidade. A pesquisa saiu antes da MP, quando já circulavam rumores de restrições pesadas à publicidade e de uma possível proibição dos cassinos online. No fim, a MP proibiu tudo.
O principal adversário de Lula na eleição, Flávio Bolsonaro, chamou a MP de eleitoreira, mas também defende o fim dos cassinos online, por considerá-los nocivos às famílias, embora aceite a aposta esportiva regulada. Ou seja, seja quem for o vencedor, os cassinos não devem voltar a ser permitidos. No mínimo.
A MP passará pelo Congresso depois da eleição e pode mudar até o prazo de 120 dias. Mas a discussão foi posta num momento crucial, com apoio massivo, e é seguro dizer que as restrições serão maiores do que as que existiam antes dela.
Eu esperava que o governo proibisse os cassinos e restringisse totalmente a publicidade. O governo foi além. E foi além na direção certa.
Mudei de posição porque estava errado sobre duas coisas.
A primeira: achei que dava para separar a aposta esportiva do cassino. Sempre fomos contra o cassino, e acreditávamos que as duas coisas podiam ser separadas, mesmo quando passaram a conviver no mesmo aplicativo. Era essa a linha que traçávamos quando anunciávamos a KTO: falávamos de futebol, nunca de cassino. Estávamos errados. A linha não existe. É a mesma conta, o mesmo saldo, a mesma tela. A aposta esportiva é a porta de entrada para o cassino, que é ainda mais viciante e mais perigoso. Quem entra para apostar no jogo de domingo está a um toque do Tigrinho. E o Iamin mostra que nem é preciso chegar lá para perder o controle.
A segunda: achei que a regulação daria conta. Não deu, porque chegou tarde demais. Seis anos de vale-tudo criaram um hábito de massa, um setor bilionário e um lobby capaz de colocar o cassino dentro da lei. Regular isso agora é instalar o freio depois do acidente.
Por isso, hoje, a proibição completa é o caminho. Um dia, talvez, seja possível voltar a discutir as apostas esportivas, com três condições. A primeira, inegociável: os cassinos online permanecem fechados para sempre, porque enquanto a porta de entrada levar a eles, ela não pode ser reaberta. A segunda: publicidade tão restrita quanto a do cigarro, que não pode fazer propaganda alguma. A terceira: os sinais do problema social em queda clara — atendimentos de saúde, endividamento, pedidos de autoexclusão.
Até lá, não há razão para que as bets voltem a existir. A legalização foi feita sem pensar nas pessoas. A proibição, pelo menos, começa por elas.
PODCAST MEIOCAMPO #268
A MP que decretou o fim das bets no Brasil está na mesa — e o Ministro da Saúde, Alexandre Padilha, veio ao Meiocampo explicar o posicionamento do governo sobre a proibição das casas de apostas. Debatemos os impactos sociais, de saúde pública e econômicos dessa decisão, com depoimentos do Ministro Alexandre Padilha e do nosso amigo e companheiro Leandro Iamin.
Falamos também sobre futebol europeu. A Premier League divulgou o veredito do caso do Manchester City, considerado culpado em 114 das 115 acusações. Um escândalo na casa de mais de um bilhão de euros que reacende o debate sobre qual será a punição do clube.
A palhaçada da Premier League
Por Bruno Bonsanti
O futebol tem regras. Elas existem para que haja igualdade de condições. Seria absurdo, por exemplo, se um jogador expulso, e apenas um, não cumprisse suspensão automática enquanto todos os outros têm que fazê-lo. Isso nunca aconteceria. Assim como não dá para um time, e apenas um, receber permissão para pegar a bola com as mãos e sair correndo até o gol. A integridade esportiva seria ameaçada. A competição se tornaria uma palhaçada, e pelo que parece, faz quase duas décadas que a Premier League, a liga mais badalada do mundo, não passa de uma palhaçada.
Após uma long(uíssim)a investigação, o Manchester City foi considerado culpado de quase todas as 115 violações de regras financeiras das quais era acusado. O veredito, confirmado pela Premier League, diz que ele inflou receitas e mascarou despesas em um total de £ 900 milhões entre 2009/10 e 2017/18, um período de nove anos. O equivalente a mais ou menos € 1 bilhão. Simplificando, isso significa que, em média, o City teve cerca de € 110 milhões a mais para gastar do que deveria ter tido por temporada, de acordo com as regras do campeonato que ele disputou, ficando apenas na Premier League - o caso da Uefa é separado. As regras com as quais concordou. As regras que seus concorrentes seguiram.
Não pegou a bola com as mãos e saiu correndo até o gol, mas em um torneio no qual a correlação entre a tabela de vitórias e a tabela de gastos é quase perfeita, foi praticamente a mesma coisa.
Para colocar em termos concretos, no primeiro mercado do período aferido, € 110 milhões eram o bastante para contratar Carlos Tévez, Emmanuel Adebayor, Kolo Touré e Gareth Barry. No ano seguinte, Yaya Touré, Edin Dzeko e David Silva. Depois, Sergio Agüero e Samir Nasri. O futebol inflacionou bastante desde aquela época. Sem falar no quanto de salário poderia oferecer para atrair um jogador ou bater a concorrência.
Mesmo que a prática tenha parado em 2018, seus efeitos continuaram. Jogadores contratados com dinheiro irregular se tornaram ativos que puderam ser vendidos por dinheiro regular - tenho quase certeza que existe um termo específico para isso. A contabilidade… flexível permitiu que recebesse prêmios por desempenho esportivo, receitas de competições europeias e reconhecimento internacional. Todo o projeto do Manchester City, um dos mais bem sucedidos da história, foi construído em cima de uma fraude.
Cinco das oito Premier Leagues conquistadas pelo City na Era Emirados Árabes foram definidas por um ou dois pontos. Talvez Steven Gerrard tivesse a dele, seu escorregão perdoado. Mikel Arteta teria economizado anos de antiácido. O legado de Jürgen Klopp seria ainda maior. Foram 11 títulos de copas nacionais, certamente com pelo menos um confronto decidido nos detalhes. Quando Sunderland, Stoke City e Watford terão outra chance? A Internazionale poderia ter um título europeu a mais. Quantos projetos foram interrompidos por objetivos não alcançados porque o Manchester City estava à frente na tabela? Quantos técnicos demitidos? Carreiras afetadas? É quase impossível mensurar os danos, embora muitos advogados provavelmente tentarão fazê-lo.
Eu nem sei o que fazer com Pep Guardiola. Não foi ilusão o futebol que seu time apresentou, um dos mais bonitos e eficientes que o mundo já viu e, ao mesmo tempo, ele não deveria ter tido os jogadores que teve para colocá-lo em prática. Pior: vestiu a camisa da empresa todas as vezes em que foi questionado sobre o assunto, com uma fidelidade quase vassalar aos chefes. Dizia acreditar totalmente no clube. E mesmo agora, após o veredito, a sua mensagem foi de apoio, não apenas aos torcedores, mas também ao “meu dono e ao meu presidente”. A carreira do melhor técnico da história ganhou um enorme asterisco.
O torcedor do City chega perto de dizer que foi um crime sem vítimas. O dinheiro era do dono. Qual o problema? É legítimo discutir se as regras são justas, se no fim das contas elas só servem para manter o status quo, mas isso não justifica descumpri-las. Se o City não roubou dinheiro de ninguém, roubou momentos que teriam sido inesquecíveis para uma dezena de torcidas, ainda que nem todos os títulos que conquistou terminassem com um dono diferente se as condições fossem iguais.
A punição precisa ser exemplar. E não pode se limitar a uma passadinha na segunda divisão. Precisa restringir severamente a capacidade do City de competir durante pelo menos parte dos 17 anos em que o clube manchou a história da Premier League. Seja enviando-o para a base da pirâmide, proibindo contratações e/ou impondo uma dedução de pontos anual, em vez de tudo de uma vez. Anular ou repassar os títulos é o de menos. Não muda muita coisa. De que adianta, agora, alguém ligar para Gerrard e dizer: “Parabéns, você é campeão da Premier League!”?
A Premier League não precisava de mais um motivo para ser colocada em xeque. Entre donos que entram e saem, às vezes sem explicar a origem do seu dinheiro, a espetacularização do mercado de transferências, a influência cada vez maior do poder financeiro, a priorização do produto televisivo e o VAR, detestado por grande da torcida local, o público já achava que o futebol na Inglaterra havia perdido a sua essência. A fraude do Manchester City foi exatamente isso. Quando não há igualdade de condições, quando todos não estão seguindo as mesmas regras, o futebol, e qualquer competição, perde a sua essência.
E vira apenas uma palhaçada.
NA EDIÇÃO ANTERIOR DA NEWSLETTER…
O Brasil venceu no segundo jogo contra a Austrália e deu bons indicativos com uma disposição tática ligeiramente diferente: com meio-campistas de origem e um esquema mais próximo ao 4-3-3 clássico. O que será que isso deixa para o técnico Carlo Ancelotti? Falamos sobre o meio-campo que a Seleção busca e você pode ler aqui.
Bom fim de semana!






